Ramagem acusa PF de criar “narrativas” após ser indiciado por esquema de espionagem na Abin

Ex-diretor da agência diz ter exigido controle do software espião israelense FirstMile e critica investigações que apontaram uso político da inteligência

O deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) reagiu nesta quarta-feira à conclusão da Polícia Federal que o indiciou no inquérito sobre o uso indevido da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para espionar opositores políticos e propagar informações falsas sobre o sistema eleitoral. Ex-diretor da Abin durante o governo Jair Bolsonaro, Ramagem acusou a PF de construir “narrativas” e afirmou que tomou medidas para coibir o uso irregular do software espião FirstMile, cujo funcionamento foi revelado pelo jornal O GLOBO.

“O início da tal ‘Abin paralela’ surgiu com um sistema first mile. Descobriram que foi minha gestão a exigir controle, apurar utilização, exonerar o diretor responsável e encaminhar à corregedoria, com farta documentação. A investigação da PF descambou. Revelou-se apenas criatividade endereçada à imprensa; vontade da Abin de não ter controle; uma PF desestruturando a inteligência de estado; e, ao final, rixa política interna contra a administração do Lula na Abin”, escreveu o parlamentar em publicação na rede X.

O deputado também afirmou que pretende se manifestar com mais detalhes assim que tiver acesso ao relatório final do inquérito. “Vou analisar todos os pontos de forma técnica e fundamentada, contra as narrativas criadas pela PF”, declarou.

Ramagem ainda criticou o fato de o ex-presidente Jair Bolsonaro não ter sido ouvido pela Polícia Federal antes da conclusão do inquérito. Embora Bolsonaro não tenha sido formalmente indiciado, o relatório da PF afirma que ele tinha conhecimento do esquema de espionagem e foi o principal beneficiário de sua atuação. O ex-presidente já responde como réu em outra ação penal no Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da investigação sobre a tentativa de golpe de Estado, e é apontado como integrante de organização criminosa.

A PF indiciou ao todo 36 pessoas na investigação sobre a chamada “Abin paralela”, entre elas figuras centrais da antiga e da atual estrutura da agência. A lista inclui o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente, e também integrantes da atual cúpula da Abin, como os delegados Luiz Fernando Corrêa (diretor-geral), Luiz Carlos Nóbrega (chefe de gabinete) e José Fernando Chuy (corregedor-geral). Todos são delegados de carreira da Polícia Federal nomeados ao cargo no governo Lula.

Segundo a investigação, o grupo utilizou o programa FirstMile para monitorar ilegalmente adversários políticos, aproveitando-se de vulnerabilidades na infraestrutura da telefonia brasileira. Com o software, era possível rastrear a localização de celulares sem ordem judicial. O esquema teria operado durante a gestão Bolsonaro, com conhecimento de figuras do alto escalão do governo.

Agora, caberá à Procuradoria-Geral da República (PGR) decidir se Bolsonaro deve ser denunciado também neste inquérito, mesmo já sendo réu por organização criminosa no processo relacionado à trama golpista.

A atuação da chamada “Abin paralela” é considerada um dos episódios mais graves de desvio de finalidade de órgãos de inteligência no período democrático recente e coloca em xeque o uso político da máquina estatal para fins de vigilância interna. O caso ainda será avaliado pelo STF.

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