Zé Carioca pode até ter surgido para o mundo em uma produção hollywoodiana, mas nasceu com alma de Lapa, vocação para driblar boletos e talento natural para desaparecer do Brasil e reaparecer onde você menos espera. Criado durante a Política da Boa Vizinhança, quando Walt Disney veio à América do Sul num controverso mochilão diplomático patrocinado pelo governo dos EUA, o papagaio se tornou um dos itens brasileiros mais exportados desde o café.

Em plena Segunda Guerra Mundial, Disney transformou uma viagem cheia de Carnaval improvisado, jantares chiques e talvez alguma espionagem disfarçada de observação antropológica na criação de um dos personagens mais icônicos do Brasil. E vá você entender por que o Zé nasceu com fraque folgado, guarda-chuva e zero vontade de trabalhar; como ele virou estrela de cinema e televisão, como sumiu das bancas brasileiras e ressurgiu triunfante no frio do Báltico com um novo visual e um charme que faria até o famoso gambá Pepe Le Pew pedir umas dicas de paquera.

No fim das contas, o Zé Carioca continua fazendo aquilo que sempre fez: sobrevivendo com estilo. Se no Brasil ele virou lenda, na Europa ele virou crush. Porque malandro que é malandro não some. Apenas dá um tempo.

O que Walt Disney veio fazer no Brasil?

Durante dez semanas em 1941, Walt Disney, sua esposa Lilly e 16 colegas de seu estúdio, conhecidos como “El Grupo”, visitaram países da América Latina coletando material para uma série de filmes com temas sul-americanos. A viagem fazia parte de uma tática chamada  Good Neighbor Policy bancada pelo governo dos Estados Unidos.

O objetivo oficial era “promover a solidariedade hemisférica” em um momento em que os EUA buscavam aliados contra a ameaça nazista. A viagem e suas intercorrências foram amplamente documentadas por historiadores como J.B. Kaufman no livro South of the Border with Disney. E, recentemente, numa versão bem mais adocicada no documentário Walt & El Grupo do Disney+.

Durante sua estadia, Disney foi tratado como Chefe de Estado. Ele visitou pontos turísticos, assistiu a espetáculos de Carnaval fora de época (organizados especialmente para ele) e ficou encantado com a música popular, especialmente com o maestro e compositor Zequinha de Abreu, autor de Tico-Tico no Fubá.

Dizem que Disney deixou a Guanabara mais satisfeito do que turista após encarar uma feijoada regada a caipirinhas e não precisar comprar sal de frutas.

Walt Disney no Rio, em 1941 | Crédito: Hart Preston / Time & Life Pictures

Por que alguns historiados tem uma visão crítica dessa viagem?

Porque “El Grupo” não veio apenas passear ou colher inspiração (um eufemismo elegante para material bruto) que pudesse ser reprocessado (copiado) em seus estúdios.  

Além dos eventos protocolares, a verdadeira atividade de Disney e sua turma era observar e registrar tudo o que fosse possível. Seus animadores fizeram centenas de esboços de pessoas, paisagens, animais e até da arquitetura da Guanabara.

Eles frequentaram cassinos e bares, sempre atentos aos maneirismos, roupas e tipos humanos. O Brasil não foi apenas visitado, foi pesquisado.

Os motivos a gente deixa para a imaginação do distinto leitor(a).

Mas como surgiu o Zé Carioca?

Joe, José, ou simplesmente Zé Carioca fez sua estreia mundial no média metragem Alô, Amigos, lançado pela Disney em 1942. A ideia era criar um guia brasileiro, charmoso e despojado, para apresentar o país ao Pato Donald, um turista norte-americano tão perdido culturalmente quanto o habitual.

Embora a escolha do pássaro que só sabe repetir o que os outros falam para representar o Brasil gere controvérsias, o Zé não era um papagaio qualquer. É uma personificação da malandragem carioca estereotipada, vista pelas tradicionais lentes rosadas da Disney.

Sua personalidade é descontraída, hedonista, apaixonada por samba, carnaval e uma vida sem preocupações. Ele é um connoisseur da boa vida, sempre com um jeito persuasivo e um pouco manipulador, mas fundamentalmente bem-intencionado. É o amigo que leva você para se divertir, mesmo que você saiba que na hora da conta ele vai ao banheiro.

Segundo os jornais da época, a principal inspiração para o Zé teria sido o milionário, mecenas e bon vivant Henrique Lage, dono do Parque Lage, que recebeu o “El Grupo” para várias festas e jantares na mansão. Mas há controvérsias.

Disney havia ficado impressionado com o estilo do cartunista brasileiro J. Carlos e o convidou para trabalhar em Hollywood. O ilustrador recusou o convite, porém enviou para Disney um desenho de um papagaio abraçando o Pato Donald que, segundo algumas versões, foi o primeiro rascunho do Zé Carioca.  

Walt Disney e sua trupe na chegada à América Latina | Crédito: Reprodução

Como era o Zé Carioca original dos anos 1940?

A concepção visual do personagem é creditada ao animador norte-americano Frank Thomas que teria trabalhado na arte final de um papagaio com um fraque, terno de cores claras levemente folgado, chapéu panamá ou coco torto, sapatos bicolores e, claro, o inevitável guarda-chuva — um bom lembrete para as autoridades que desde os anos 1940 sabia-se que de vez em quando chove forte sobre a Guanabara. #ficaadica

O visual não era de um trabalhador; era de um malandro de classe média que investe todo seu capital em aparência. Era a roupa de quem está sempre pronto para um encontro casual ou uma festa de rua, nunca para um dia de trabalho.

Durante os mais de 80 anos em que foi publicado, o personagem foi modificado. E chegou a vestir apenas camiseta branca e calça jeans em edições brasileiras dos anos 1990.

“El Grupo” criou outros personagens durante esse tour latino-americano?

Para choro e ranger de dentes dos argentinos sim. No México, surgiu Panchito Romero Miguel Junipero Francisco Quintero Gonzales, ou apenas Panchito Pistoles, um galo vermelho que no filme Você já foi à Bahia, de 1945, apresenta o país ao Pato Donald voando em um serapé voador (um tipo de poncho tradicional) que funciona como uma espécie de substituto latino-americano do tapete mágico das Mil e Uma Noites.

E é aqui que os hermanos ficam brabos. O mesmo filme conta com uma participação especial e transversal do Gauchinho Voador, que representaria a Argentina. Só que o personagem nunca emplacou popularmente. E para piorar, em algumas versões internacionais, o Gauchinho Voador é retratado até como um uruguaio.

Posteriormente, a Disney voltaria a se inspirar em culturas latino-americanas para filmes como A Nova Onda do Imperador, mas sem criar embaixadores nos mesmos moldes. 

Zé Carioca no cinema e na televisão

Ele estreou em Saludos Amigos (1942) e dois anos depois apareceu novamente The Three Caballeros, numa sequência que mistura desenho com atores reais como a cantora Aurora Miranda, irmã da célebre Carmen Miranda.

Em1948 voltou às telonas no segmento Blame it on Samba do filme Tempo de Melodia. E se você prestar bastante atenção, vai ver que ele ainda fez uma participação especial em nada menos do que em Uma cilada para Roger Rabbit, de 1988.

O Gauchinho Voador, coitado, caiu da mudança.

Na televisão o Zé Carioca apareceu em diversos episódios de séries animadas como o Clube do Mickey Mouse ou Duck Tales; foi personagem de vídeo game e, em 2018, os “três cavaleiros” estrelaram uma série para um aplicativo de vídeo da Disney que teve três temporadas, mas sabe-se lá por que, foi exibido apenas nas Filipinas.

Os ‘três cavaleiros’ em 2018: Zé Carioca, Pato Donald e Panchito Pistoles | Crédito: Reprodução

Zé Carioca nos quadrinhos

Ainda nos anos 1940 a Disney publicou histórias do Zé Carioca e de Panchito Pistoles em tirinhas de jornais para apresentá-los ao público dos Estados Unidos. No Brasil, essas tiras estrearam na revista “O Globo Juvenil”, em fevereiro de 1943.

Em julho de 1950, Zé apareceu na capa do primeiro número da revista “O Pato Donald”. E suas histórias em quadrinhos foram publicadas regularmente entre 1961 e 2018 pela editora Abril, atingindo o auge do sucesso nos anos 1990 quando vendia mais de 250 mil exemplares, se tornando um dos personagens da Disney mais lidos no Brasil.

Foi nesse período que ele mudou de visual. Abandonou o charuto e o paletó, ganhou personagens de apoio e começou a ter histórias escritas aqui mesmo no Brasil envolvendo questões brasileiríssimas que se passavam na fictícia Vila Xurupita. Até hoje os arquivos da Abril guardam histórias inéditas escritas e desenhadas nessa época.

Mas de lá para cá, o personagem nunca mais teve revista própria. Seus direitos mudaram de mãos e ele passou a aparecer basicamente em edições especiais ou para colecionadores. Desde 2020, a editora Culturama é a responsável oficialmente por criar, produzir e publicar essas histórias do Zé Carioca por aqui. 

O que ninguém imaginava era que ele iria fazer sucesso em um lugar completamente diferente das areias escaldantes das praias cariocas.

Um malandro no Báltico

Naturalmente, Panchito Pistoles foi o personagem latino que mais fez sucesso comercial internacionalmente graças à proximidade com o mercado mexicano e norte-americano. Mas o Zé Carioca é muito mais famoso mundo afora graças a sua forte presença editorial.

“Joe Carioca” é até hoje um personagem de quadrinhos popularíssimo na Itália e, principalmente, na Dinamarca e nos Países Baixos. Lá, ele ganhou novas histórias, retomou o visual clássico dos anos 1940 (mas sem o charuto), porém com bem menos malandragem, menos Rio de Janeiro ainda, e um perfil muito mais paquerador. Quase uma versão tropical do gambá assediador Pepe Le Pew, que apesar de ter divertido gerações, anda meio cancelado por encher o saco da gata dos desenhos.

No fim das contas, Zé Carioca pode ter pendurado o terno no Brasil, mas seu chapéu panamá ainda balança, mesmo com menos samba no pé, nessas histórias em quadrinhos europeias. Uma prova de que um verdadeiro malandro sempre dá seu jeito de sobreviver.

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