Quase metade dos brasileiros acredita que Flávio Bolsonaro influenciou Trump na decisão sobre PCC e CV

Pesquisa aponta que 47% veem atuação do senador na classificação das facções como organizações terroristas pelos Estados Unidos

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas continua repercutindo no cenário político brasileiro e já produz reflexos na percepção da opinião pública sobre a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (10) mostra que 47% dos brasileiros acreditam que o parlamentar teve influência na decisão adotada pelo presidente dos EUA Donald Trump. O levantamento foi realizado poucos dias após a visita do senador à Casa Branca, quando ele afirmou ter levado às autoridades estadunidenses o pedido para que as facções brasileiras fossem enquadradas na legislação antiterrorismo dos Estados Unidos.

Segundo os dados da pesquisa, 37% dos entrevistados avaliam que Flávio Bolsonaro não teve participação relevante na decisão tomada por Washington. Outros 16% disseram não saber ou preferiram não responder.

O resultado indica que uma parcela significativa da população associa a medida adotada pelo governo dos EUA à atuação diplomática e política do senador, que tem apresentado o episódio como uma demonstração de influência internacional e alinhamento com a administração Trump.

A pesquisa ouviu 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais entre os dias 5 e 8 de junho. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o número BR-07661/2026.

Visita à Casa Branca antecedeu decisão

A classificação das duas maiores facções criminosas do Brasil ocorreu dois dias após a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca.

Durante a agenda nos Estados Unidos, o senador relatou ter defendido junto a integrantes do governo dos EUA o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. O parlamentar também se reuniu com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, uma das principais autoridades da política externa estadunidense.

A medida foi anunciada oficialmente em maio pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e passou a ser vista por aliados de Flávio Bolsonaro como um ativo político importante para sua pré-campanha presidencial.

Por outro lado, a decisão ocorreu após meses de resistência do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que se posicionava contra a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas.

O que dizem os Estados Unidos

No comunicado oficial divulgado pelo governo dos EUA, o PCC e o Comando Vermelho foram descritos como “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”.

O texto destaca ainda que as facções possuem ampla capacidade operacional e influência além das fronteiras brasileiras.

“Juntos, eles comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, funcionários públicos e civis brasileiros. A sua influência e redes ilícitas estendem-se muito além das fronteiras do Brasil, através da nossa região e do nosso país”, frisa o comunicado.

As duas organizações receberam a classificação de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês) em 5 de junho. Também foram incluídas na categoria de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs).

A decisão coloca PCC e CV ao lado de grupos já enquadrados pelos Estados Unidos como organizações terroristas, entre eles Al Qaeda, Hezbollah e a facção venezuelana Tren de Aragua.

Quais são os efeitos da classificação

A designação como Organização Terrorista Estrangeira produz consequências jurídicas e financeiras relevantes.

Pela legislação estadunidense, torna-se ilegal fornecer qualquer tipo de apoio material, recursos financeiros ou assistência às entidades incluídas nessa lista.

Além disso, instituições financeiras dos Estados Unidos passam a ser obrigadas a bloquear recursos vinculados às organizações classificadas e comunicar imediatamente as autoridades competentes caso identifiquem movimentações relacionadas aos grupos.

Já a classificação como Terrorista Global Especialmente Designado amplia ainda mais as restrições.

Nesse caso, bens e propriedades localizados em território estadunidense podem ser bloqueados automaticamente. Pessoas físicas e jurídicas dos Estados Unidos ficam proibidas de realizar qualquer transação financeira ou comercial envolvendo indivíduos ou organizações incluídos na lista.

As restrições também abrangem contribuições financeiras, fornecimento de serviços e qualquer tipo de negociação envolvendo ativos vinculados aos grupos sancionados.

Impactos podem ultrapassar a área de segurança

Especialistas avaliam que a decisão pode produzir efeitos que vão além do combate ao crime organizado.

A amplitude das sanções abre espaço para impactos sobre o sistema financeiro, especialmente em casos envolvendo investigações sobre infiltração de organizações criminosas em atividades econômicas formais.

Também existem reflexos potenciais na relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Historicamente, o governo dos EUA já utilizou o combate ao chamado narcoterrorismo como justificativa para ações de cooperação internacional e operações de segurança fora de seu território.

No cenário político brasileiro, a medida passou a integrar o discurso de Flávio Bolsonaro, que busca fortalecer sua imagem como defensor de políticas de endurecimento no combate ao crime organizado.

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