No longínquo ano de 1660, quando a Guanabara ainda era mais vila do que cidade e o maior engarrafamento envolvia carros de boi com barris de caninha, uma revolta estourou por um motivo um tanto trivial: a proibição da cachaça. Foi o primeiro grande “grito urbano” do Brasil Colônia, com direito a briga de senhores de engenho, comerciantes e funcionários públicos. Todos de copo na mão e muita raiva no coração.

O historiador Evaldo Cabral de Mello lembra que foi a primeira vez que uma cidade brasileira se rebelou como cidade, com articulação política, ocupação de prédios públicos e até prisão de governador. O Rio, que ainda mal sabia o que era urbanismo, já mostrava vocação para o tumulto bem-organizado. Bastou uma proibição mal pensada, um povo com sede de justiça e umas doses a mais para o caos fermentar.

Durante os dois meses que durou a Revolta da Cachaça, a cidade viveu sob comando dos revoltosos, que mantiveram a ordem, negociaram com Lisboa e deixaram claro que mexer com a bebida nacional era mais arriscado do que enfrentar piratas holandeses. No fim, a Coroa portuguesa cedeu, legalizou a produção da aguardente e afastou o governador. Afinal, pode-se tirar quase tudo de um brasileiro, menos sua cachacinha.

Salvador Correia de Sá: governador da capitania do Rio | Crédito: Rio Memórias / Reprodução

A Revolta da Cachaça foi a primeira do Brasil Colônia?

A Revolta da Cachaça não foi a primeira revolta do Brasil, mas pode reivindicar com certo orgulho o título de primeira revolta urbana. Antes dela, os levantes eram rurais, dispersos, e geralmente envolviam indígenas ou escravizados em regiões afastadas. Aqui, pela primeira vez, a cidade foi o palco, e os protagonistas eram comerciantes, senhores de engenho e até funcionários públicos.

O historiador Evaldo Cabral de Mello aponta que a revolta teve um caráter nitidamente urbano, com articulação política, ocupação de prédios públicos e até prisão de autoridades.  O Rio de Janeiro, ainda em formação, mostrou que não precisava de grandes avenidas para abrigar grandes tumultos. Bastava uma proibição mal pensada, um povo com sede de justiça, e umas doses de cachaça.

Como era a Guanabara em 1660?

Uma vila com pretensões de cidade, cercada por morros, mangues e o pavor de ataques estrangeiros. A população girava em torno de 5 mil cariocas e simpatizantes, entre portugueses, africanos escravizados e indígenas catequizados, todos convivendo sob o olhar vigilante da Igreja e da Coroa.

As ruas eram de terra batida, os casarões de taipa e pedra, e o cheiro da cana moída se misturava ao das redes de pesca e ao suor dos estivadores. O porto fervilhava com o tráfico de açúcar e de gente, e a cachaça, produzida nos engenhos próximos, era moeda corrente, anestésico social e, como se verá a seguir, combustível político.

Mas Portugal era contra a cachaça?

Portugal proibiu a cachaça pelo menos três vezes antes da revolta. A primeira vez veio em 1647, com uma Carta Régia que visava proteger a bagaceira, o vinho de bagaço lusitano.

Em 1649, a proibição foi regulamentada, com exceções generosas para os escravizados e para Pernambuco, que ainda estava sob domínio holandês. Em 1659, nova ordem foi expedida, mais rigorosa, exigindo a destruição dos alambiques e a prisão dos produtores.

A metrópole parecia acreditar que o problema do Brasil era o excesso de autonomia alcoólica, não a exploração colonial.

Quem produzia e tomava cachaça no Brasil de 1660?

A cachaça era produzida principalmente pelos senhores de engenho, que, diante da queda nos lucros do açúcar, viram naquela que matou o guarda, uma saída lucrativa.

O produto era barato, fácil de fazer e tinha mercado garantido, especialmente no tráfico negreiro, onde foi usada como moeda de troca por escravizados.

O consumo, por sua vez, era democrático. Escravizados, soldados, comerciantes e até mesmo padres se rendiam ao poder de uma caninha.

Quando eclodiu a revolta?

Em novembro de 1660 o governador Salvador Correia de Sá e Benevides tentou aplicar com rigor as ordens de Lisboa. Ele assumira o cargo com o desafio de aumentar a arrecadação colonial, mas se destacou mesmo pelo excesso de impostos e por empregar os parentes em empregos de destaque.

A destruição de alambiques e a prisão de produtores inflamaram os ânimos, e logo a população se organizou para tomar o poder. Os revoltosos invadiram prédios públicos, libertaram presos, tomaram o controle da cidade e exigiram a revogação das medidas.

Salvador Correia de Sá e Benevides foi detido pelos revoltosos e mantido sob custódia. A prisão de um governador em pleno século XVII foi um feito notável, especialmente considerando que não houve intervenção imediata de Lisboa.

O que aconteceu em seguida?

Durante os dois meses da revolta, os líderes locais assumiram o controle da administração, mantiveram a ordem pública e negociaram com Lisboa. A cidade funcionou, os negócios continuaram, e a cachaça voltou a circular, como se nada tivesse acontecido.

A ausência de represálias imediatas deu aos revoltosos uma sensação de vitória. Mas Lisboa não esqueceu e nem gostou. A resposta viria depois, com punições pesadas e reorganização do poder local.

Como tudo acabou?

Em 6 de abril de 1661: tropas leais a Portugal vindas da Bahia cercaram o Rio de Janeiro de surpresa e capturaram os revoltosos sem muita resistência.

 A principal liderança do movimento, Jerônimo Barbalho, sesmeiro e figura influente na cidade, foi decapitado e sua cabeça exposta no pelourinho como aviso.

Contudo, a Coroa portuguesa no fim deu razão aos revoltosos, afastou o governador Salvador de Sá de suas funções e libertou os condenados

 A produção da cachaça foi legalizada em 13 de setembro de 1661. Ou seja, apesar da derrota militar, o levante alcançou seus principais objetivo, a suspensão das taxas abusivas e reconhecimento da produção de aguardente de cana. No fim das contas, a lição permanece atual: mexer com o bolso do brasileiro é perigoso. Mexer com a bebida dele, pior ainda.

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