No domingo 3 de julho de 1988, moradores da Barra da Tijuca foram convocados às urnas para decidir uma pergunta que parecia saída de um roteiro de ficção política: o bairro deveria deixar de ser parte do Rio de Janeiro e se transformar em um município independente? A consulta popular, liderada pelo empresário Roberto Medina, mobilizou empresários, moradores e partidos políticos. No papel, o plebiscito poderia redefinir o mapa da cidade. Na prática, porém, o episódio terminou como uma das votações mais curiosas da história política carioca. 

Apesar de ampla vantagem dos votos favoráveis à emancipação, a consulta fracassou por um motivo inesperado: quase ninguém apareceu para votar. O resultado acabou se tornando um estudo clássico sobre participação política, urbanização e disputas de poder no Rio. Apenas 354 pessoas tiveram a coragem de assumir publicamente o voto contra a separação, mas na verdade não foram elas, mas a ausência de quase 42 mil eleitores, que decidiu a batalha. 

Trinta e sete anos depois, a história da tentativa de emancipação da Barra da Tijuca permanece como uma crônica exemplar dos paradoxos cariocas . Uma história de dinheiro, celebridades, especulação imobiliária e paixão cívica que ajudou a moldar o bairro mais próspero e controverso da cidade. Uma história que merece ser contada não como simples curiosidade de arquivo, mas como peça fundamental para entender a cidade que somos e a que poderíamos ter sido. 

A turma do “Time do Sim” em franca campanha (Crédito: reprodução)

O cenário da discórdia 

Quando a década de 1980 chegou à metade, a Barra da Tijuca vivia uma crise de identidade que parecia anunciar uma separação litigiosa. O belo plano piloto concebido pelo arquiteto Lúcio Costa  o mesmo de Brasília, em 1969, havia naufragado sob o peso da especulação imobiliária e da omissão do poder público.  

O projeto previa uma expansão planejada da cidade, com grandes avenidas, condomínios e baixa densidade populacional, contrastando com a ocupação mais compacta da Zona Sul. O tráfego pesado, por exemplo correria por estas highways, e o trânsito do dia a dia do bairro seria pelas ruas dos atuais grandes condomínios, que sentindo-se vulneráveis, ergueram muros e cancelas que interrompiam o traçado original. 

Naqueles efervescentes anos pós Ditadura Militar, a Barra parecia orbitar em outra galáxia. A região saltou de um imenso areal distante, onde morar era uma quase de ripongas, para dezenas de milhares de habitantes em menos de duas décadas. O crescimento populacional explosivo não foi acompanhado por investimentos proporcionais em infraestrutura. 

O contraste com o projeto original de Lúcio Costa era doloroso. “A Barra não tem asfalto, é mal iluminada, não tem esgoto, as praias estão poluídas e os lagos, assoreados. Há um processo de favelização avassalador. Há sete anos, a Barra tinha duas favelas, e, agora, são 28”, afirmou o empresário Rubem Medina, um dos líderes dos emancipacionistas. 

Pelo lado da Prefeitura, a administradora regional da Barra, Vera Chevalier reconhecia que a ocupação acelerada havia criado uma demanda para a qual não havia infraestrutura pronta, mas, otimista, dizia que “aos poucos, a prefeitura vai equilibrar essa defasagem”. 

O argumento, porém, soava fraco: mesmo representando apenas 4,7% da população da cidade, a Barra já respondia por 30% de toda a arrecadação de impostos municipais. Era dinheiro que saía, mas não voltava em forma de asfalto, transporte ou saneamento. 

O surgimento do plebiscito 

A proposta de emancipação da Barra não nasceu nos gabinetes da Assembleia Legislativa ou em quaisquer articulações partidárias. Surgiu da insatisfação cotidiana de moradores que se sentiam cidadãos de segunda classe dentro do próprio município. Em 1987, um abaixo-assinado organizado por empresários e residentes influentes conseguiu milhares de assinaturas em poucos meses.  

O movimento, inicialmente silencioso, ganhou as páginas dos jornais de forma abrupta. Vera Chevalier recorda o susto: “Quando fomos ver quem estava por trás, descobrimos que eram aqueles que buscavam, já há algum tempo, transformar a Barra em uma nova Copacabana, uma nova Cancún”. 

Após acalorados debates, a ALERJ marcou o plebiscito para julho de 1988. A proposta previa que a nova cidade abrangeria não apenas a Barra da Tijuca, mas também áreas da Baixada de Jacarepaguá, como Recreio dos Bandeirantes e as Vargens, formando um município com forte base imobiliária e turística. 

Só que a lei estabeleceu uma condição que se revelaria crucial: para que o resultado fosse válido, seria necessária a participação de mais da metade dos eleitores inscritos no bairro. Na época, cerca de 47 mil pessoas estavam habilitadas a votar na região. Ninguém sabia, naquele momento, que aquele plebiscito se tornaria um dos mais curiosos da história eleitoral brasileira. 

Uma disputa, também, de celebridades 

O plebiscito também ganhou um certo sabor de crônica social carioca. Empresários, moradores famosos e figuras da vida cultural do bairro acabaram associados aos dois lados do debate.  

Entre os defensores da emancipação destacava-se Roberto Medina, que se tornou um símbolo da campanha. Ao lado dele, uma constelação de famosos empunhava a bandeira da separação. O craque Zico, o jogador de vôlei Bernard Rajzman, e os atores Kadu Moliterno e André de Biasi (na época, os galãs adolescentes Juba e Lula do programa “Armação Ilimitada”, um sucesso absoluto) formavam o Time do Sim. 

Do outro lado, a resistência ao desmembramento também tinha seus holofotes. A atriz Glória Pires tornou-se uma voz mais eloquente do “não”, concedendo entrevistas contundentes. Ao seu lado, estavam nomes como o compositor Ronaldo Bôscoli, o ator Stepan Nercessian e o cartunista Ziraldo, que criou gratuitamente uma arte que se tornaria símbolo da campanha: “Diga não à emancipação. A Barra é carioca” . 

Ziraldo atendeu prontamente ao pedido dos moradores organizados em associação, principalmente quando soube que a batalha era desigual: “Contrataram a Artplan, do Medina, para fazer toda a campanha. Era num horário nobre antes do Jornal Nacional”, afirmou ele à época. 

Enquanto o “sim” tinha dinheiro e produção, o “não” contava com o talento generoso de Ziraldo e a disposição de moradores que percorriam condomínios à noite, explicando o que estava em jogo. 

Cartaz de Ziraldo para a campanha do Time do Não

O favoritismo do “sim” 

Na véspera da votação, o cenário parecia mais do que favorável aos “emancipacionistas”. Uma carreata gigantesca, organizada pelo Time do Sim, reuniu mais de 900 automóveis e cerca de 3.500 pessoas, formando uma fila de cinco quilômetros que percorreu mais de 40 quilômetros pelas ruas do bairro durante quase três horas. 

As pesquisas de intenção de voto, embora não houvesse levantamentos científicos rigorosos na época, indicavam vantagem folgada para o “sim” entre aqueles que declaravam intenção de comparecer às urnas. 

Mas ninguém ostenta o título de Cidade Maravilhosa à toa. Um dia antes do plebiscito o Time do Não fez um assembleia desanimada. Muitos consideraram a batalha perdida. Quando, súbito, um morador (que não teve seu nome registrado) pediu a palavra, lembrou que durante toda aquela semana o Rio ficou nublado e concluiu: “a gente só leva essa se der sol”. A Prefeitura então tomou um a decisão tática: pregar a abstenção. 

A vitória da praia 

E não é que o cria tinha razão?  No domingo, 3 de julho de 1988, o sol surgiu radiante sobre a Barra da Tijuca e as seções eleitorais montadas na Barra receberam apenas 6.217 eleitores _ míseros 12,96% dos 47.955 habilitados. Entre os que sufragaram, a vitória do “sim” foi incontestável: 5.785 votos (93% dos votos válidos) contra apenas 354 votos para o “não”. Houve ainda 69 votos nulos e 9 em branco.  

Quando os números foram lidos, o Time do Não explodiu em festa. Ao som de uma pequena banda improvisada, saíram cantando em direção à Praça do Ó: “Chora seu Medina / Seu Medina chora / Chora seu Medina / Seu dinheiro foi embora”. 

Roberto Medina, anos depois, reafirmaria sua convicção de que a oportunidade foi perdida: “A arrecadação da Barra nos permitia ter uma prefeitura própria. Perdemos uma oportunidade. Os rumos seriam diferentes com uma administração mais próxima da população. Éramos os sonhadores da Barra”. 

A primeira página do caderno Cidade do Jornal do Brasil anuncia o resultado

O preço da derrota 

A derrota do movimento emancipacionista teve consequências profundas para o desenvolvimento urbano da Barra. O Plano Lúcio Costa, embora já deformado por décadas de ocupação desordenada e interesses imobiliários, permanecia como referência legal, ao menos em tese.  

Se o Time do Sim tivesse ganho, a nova Câmara Municipal teria autonomia para reescrever completamente a Lei de Uso do Solo. Sérgio Sardinha, que participou ativamente da resistência, não tem dúvidas sobre o que aconteceria: “No Jardim Oceânico, por exemplo, só pode construir prédio de 3 andares. Você [imagine] encher isso de prédio”. O temor dos moradores organizados era que a Barra se transformasse numa nova Copacabana verticalizada, sacrificando a qualidade de vida e a paisagem em nome do lucro imobiliário. 

Nas décadas seguintes, o crescimento da Barra continuou em ritmo acelerado.  Os shoppings centers multiplicaram-se, os condomínios de luxo expandiram-se e a região consolidou-se como o mais importante polo econômico da hoje Zona Sudoeste. 

Uma derrota mal digerida 

A derrota de 1988 não enterrou definitivamente o sonho separatista. O sentimento de que a Barra poderia administrar-se melhor, combinado à percepção de que o município do Rio pouco investia na região, reapareceu em outras ocasiões. 

Em 23 de maio de 2000, o deputado estadual Albano Reis, o famoso “Papai Noel de Quintino”, que morava na Avenida Atlântica, em Copacabana, apresentou um novo projeto de lei propondo a emancipação de um território ainda mais amplo: Barra, Recreio, São Conrado e Jacarepaguá formariam um novo município batizado de Barra da Tijuca. Menos de seis meses depois, em 31 de outubro, o projeto foi arquivado após parecer contrário de uma comissão de parlamentares. 

Em 2024, a Prefeitura do Rio criou oficialmente o bairro Barra Olímpica, incorporando a região do Parque Olímpico, Rio 2 e partes da Curicica. No ano seguinte, um novo projeto de lei criou  a “Zona Sudoeste”, separando da Zona Oeste toda a faixa que vai da Barra a Vargem Grande. A proposta, que não implica emancipação política, mas nova divisão geográfica e administrativa, mostra que a crise de identidade da região permanece viva. 

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