Prisão de Márcio Canella provoca constrangimento entre deputados e amplia desgaste político da Alerj

A dois meses do fim do ano legislativo, nova operação da Polícia Federal coloca a Assembleia nas páginas policiais; parlamentares lamentam desgaste da imagem da Casa e cobram esclarecimentos

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A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), que já havia chegado às eleições de outubro sob o impacto de uma crise política marcada por prisões e cassações de parlamentares ao longo da legislatura, voltou ao centro do noticiário policial nesta quinta-feira (15). Desta vez, o motivo foi a prisão do deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e segundo candidato mais votado para a Casa nas eleições deste ano.

A nova prisão repercutiu negativamente entre os deputados e ampliou o desconforto dentro do Parlamento fluminense. A cerca de dois meses do encerramento do ano legislativo, quando a Assembleia tenta concluir suas principais votações, mais uma investigação criminal envolvendo um de seus integrantes eleitos reacende o debate sobre o desgaste da imagem institucional da Casa.

Durante a sessão ordinária desta quinta-feira, os poucos parlamentares presentes no plenário evitaram comentar o assunto. Nos corredores, entretanto, o clima era diferente. Enquanto alguns deputados preferiram não se manifestar, outros aceitaram falar sob condição de anonimato. Houve ainda quem comentasse publicamente a prisão e suas possíveis consequências políticas.

Prisão provoca desconforto nos bastidores

Um aliado de Canella, que pediu para não ser identificado, lamentou a prisão e destacou a votação expressiva obtida pelo ex-prefeito de Belford Roxo, que conquistou o segundo maior número de votos na disputa por uma cadeira na Alerj.

“É muito ruim para Casa essa prisão, não tenho dúvida mais essa prisão, até porque houve um grande apela para sua candidatura e o seu retorno. Sem contar que ele foi o segundo deputado mais votado do estado. Gosto muito dele, mas ainda é muito cedo para fazer qualquer tipo de avaliação. Não dá para fazer qualquer juízo de valor”, afirmou.

Outro deputado, também ouvido reservadamente, procurou separar a situação criminal de Canella das responsabilidades institucionais da atual legislatura. Segundo ele, como o político ainda não foi diplomado para o novo mandato, o episódio não envolve, neste momento, as prerrogativas parlamentares decorrentes da futura diplomação.

“O problema do deputado Márcio Canella não está com a Casa. Ele é apenas deputado eleito e só depois da diplomação tem suas garantias constitucionais de parlamentar estabelecidas. Não é um problema desta legislatura”, avaliou.

O deputado acrescentou que, até onde tem conhecimento, as acusações contra Canella são de natureza criminal, e não eleitoral. Por isso, afirmou não identificar motivo automático para impedir a diplomação de Canella.

O parlamentar também avalia que o ex-prefeito poderá enfrentar obstáculos políticos na próxima legislatura, caso consiga assumir o mandato. Segundo ele, Canella teria se distanciado do grupo do governador eleito Douglas Ruas (PL) ao apoiar, ainda que discretamente, a candidatura de Eduardo Paes (PSD) ao governo do estado.

Na avaliação dele, o distanciamento poderia dificultar eventuais articulações futuras caso a Assembleia seja chamada a tomar alguma decisão relacionada à situação do deputado eleito. Trata-se, porém, de uma interpretação política individual, sem confirmação de que exista qualquer procedimento dessa natureza em andamento.

Na avaliação do parlamentar, esse afastamento poderá dificultar a busca de apoio político para Canella caso a Alerj seja chamada, futuramente, a deliberar sobre sua situação.

Parlamentares lamentam desgaste da Casa

Entre os deputados que aceitaram comentar publicamente o episódio, o delegado Carlos Augusto (PL) reconheceu o impacto negativo da prisão para a imagem do Legislativo, mas defendeu que as investigações avancem e que eventuais responsáveis sejam punidos, caso as acusações sejam comprovadas.

“A imagem da Casa fica arranhada, com certeza. Mas pensando por outro lado, caso seja comprovado a culpa dos envolvidos, é bom que se faça justiça. As pessoas, inclusive, devem pagar com as penas majoradas por traírem a sociedade que confiou neles a função pública”, declarou.

O deputado Flávio Serafini (Psol) também demonstrou preocupação com a repercussão institucional do caso. Ele ponderou que ainda não havia tido acesso ao conteúdo integral das acusações e que seria necessário conhecer melhor os elementos da investigação antes de uma avaliação definitiva.

“Ainda não tivemos acesso as denúncias e não dá para falar muito a respeito, mas como certeza é grave. Vimos que uma das acusações é lavagem de dinheiro, o que mostraria que o grupo político de Cláudio Castro continuaria tendo esse tipo ligações criminosas. Mas temos que aguardar para entender melhor. De qualquer maneira é ruim porque a Alerj continua nas páginas policiais”, afirmou.

Já a líder do PT na Assembleia, Marina do MST, adotou um tom mais duro e relacionou a prisão ao grupo político do governador Cláudio Castro. A parlamentar defendeu o aprofundamento das investigações e a responsabilização de todos os que eventualmente tenham participado dos crimes apurados.

“A prisão de Márcio Canella é mais um capítulo vergonhoso de um grupo político que afundou o Rio de Janeiro. Mais um aliado de Cláudio Castro e da extrema direita na mira da Polícia Federal. Que as investigações avancem, todos os envolvidos sejam responsabilizados e a população fluminense conheça toda a verdade!”, declarou.

Esquema em postos de combustíveis

Márcio Canella foi preso na manhã desta quinta-feira, durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal. Também foi detido o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil.

Segundo a PF, a investigação busca desarticular uma organização criminosa armada suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio para lavagem de dinheiro. O grupo investigado teria participação de agentes públicos e articulação política.

As apurações envolvem suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e formação de cartel, entre outros crimes. Uma rede de 96 postos de combustíveis teria movimentado aproximadamente R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Esta não é a primeira vez que Canella é preso no âmbito da operação. Em julho, durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão, agentes federais encontraram um fuzil em seu carro. O político foi preso em flagrante e posteriormente colocado em liberdade mediante medidas cautelares.

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