Por unanimidade, Anvisa mantém suspensão de produtos da marca Ypê: ‘Riscos sanitários não foram superados’

Diretores da agência apontam falhas graves em fábrica da empresa, citam histórico recorrente de contaminação microbiológica e mantêm restrições a detergentes, sabões líquidos e desinfetantes

A Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manteve, por unanimidade, a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso de linhas de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes da marca Ypê, informa o portal g1. A decisão amplia a crise envolvendo a fabricante após a identificação de falhas sanitárias e da presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de 100 lotes de produtos acabados.

Nos votos, os diretores da agência afirmaram que as medidas adotadas pela empresa foram “insuficientes”, destacaram um “histórico recorrente de contaminação microbiológica” e sustentaram que os riscos sanitários detectados pela fiscalização “não foram superados”.

Com a maioria formada, volta a valer a Resolução 1.834/2026, publicada em 5 de maio, que determinou a suspensão de todos os lotes de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes com numeração final 1.

Apesar da maioria já consolidada, a análise ainda não foi encerrada. Qualquer diretor da Anvisa pode pedir vista do processo, o que suspenderia temporariamente a deliberação e adiaria a conclusão definitiva do caso para uma próxima reunião da Diretoria Colegiada.

Durante a sessão, os diretores reforçaram que a decisão atual possui caráter cautelar e que o mérito final do processo administrativo sanitário ainda será julgado posteriormente.

“Aguardar certeza absoluta do dano, em matéria sanitária, significa agir tardiamente”, afirmou o diretor Thiago Campos durante o voto.

Falhas graves na fábrica

A suspensão dos produtos teve origem em uma avaliação técnica conduzida pela Anvisa em conjunto com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, após uma inspeção realizada com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo e a Vigilância Sanitária de Amparo, no interior paulista, onde está localizada a unidade da Química Amparo, fabricante da marca Ypê.

Segundo a agência, a fiscalização identificou “descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo”, incluindo falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade.

O relatório também apontou sinais de corrosão em equipamentos utilizados na fabricação de detergentes e lava-roupas líquidos, problemas na conservação de tanques de manipulação e registros de restos de produtos armazenados e devolvidos às linhas de envase.

A Anvisa informou ainda que a bactéria Pseudomonas aeruginosa foi identificada em mais de 100 lotes de produtos acabados da marca. Para a agência, os problemas comprometem o cumprimento das chamadas Boas Práticas de Fabricação de saneantes e indicam risco de contaminação microbiológica nos produtos.

As Boas Práticas de Fabricação são normas obrigatórias estabelecidas pela Anvisa para garantir segurança, qualidade e eficácia de produtos como medicamentos, cosméticos, alimentos e saneantes.

Entenda os riscos

A identificação da bactéria gerou dúvidas entre consumidores sobre possíveis riscos à saúde. Especialistas ouvidos pelo g1, no entanto, afirmam que o risco é considerado baixo para a maioria das pessoas saudáveis.

A Pseudomonas aeruginosa é uma bactéria comum no ambiente, encontrada em água, solo e superfícies úmidas. Ela é classificada como uma bactéria oportunista, ou seja, costuma representar maior perigo para pessoas com o sistema imunológico comprometido.

“Para a população em geral, é pouco provável [que o contato com a bactéria cause uma infecção]. O risco aumenta quando há alguma porta de entrada, como uma lesão de pele mais grave ou uma cicatriz cirúrgica”, afirmou Alberto Chebabo, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A infectologista Thaís Guimarães, presidente da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto Central do Hospital das Clínicas da FMUSP, explicou que o simples contato da bactéria com a pele íntegra normalmente não causa doença.

“O risco aumenta principalmente quando há contato com olhos, mucosas, feridas, queimaduras ou dermatites, ou em pessoas imunossuprimidas”, disse.

Especialistas apontam que os grupos mais vulneráveis incluem pacientes em tratamento contra câncer, transplantados, pessoas que utilizam medicamentos imunossupressores, indivíduos com feridas ou dermatites, além de bebês e idosos fragilizados.

Segundo os infectologistas, o risco de infecção aumenta principalmente quando há contato com olhos, mucosas, feridas abertas ou pele lesionada.

Quem precisa procurar um médico

De forma geral, especialistas afirmam que pessoas que utilizaram produtos dos lotes afetados, mas não apresentaram sintomas, não precisam buscar atendimento médico apenas pelo contato com os itens.

A recomendação é interromper imediatamente o uso dos produtos atingidos, seguir as orientações de recolhimento e observar sinais de irritação ou infecção.

“Quando a pessoa utiliza o produto, a princípio só tem que observar o aparecimento de sinais e sintomas que possam justificar um quadro infeccioso. Não precisa buscar o médico só porque usou o produto”, explicou Chebabo.

A orientação é procurar atendimento médico caso surjam sintomas como irritação intensa na pele, vermelhidão persistente, secreção, coceira intensa, irritação ocular, febre, mal-estar ou sinais de infecção, especialmente em pessoas imunossuprimidas.

Em casos de contato com olhos, boca, feridas ou mucosas, a recomendação é lavar imediatamente o local com água abundante e observar a evolução dos sintomas.

Esponjas, roupas e utensílios

Outro ponto que passou a preocupar consumidores envolve objetos e utensílios que tiveram contato com os produtos contaminados.

Segundo especialistas, roupas íntimas, toalhas, roupas de cama e peças de bebê merecem atenção especial por permanecerem em contato prolongado com a pele e, em alguns casos, com mucosas.

Ainda assim, para pessoas saudáveis, o risco continua sendo considerado baixo na ausência de sintomas ou fatores de risco relevantes.

Em caso de dúvida, especialistas recomendam lavar novamente essas peças utilizando outro produto.

A orientação também vale para esponjas de pia. Alberto Chebabo defende o descarte do material caso ele tenha sido utilizado com um dos produtos afetados.

“É importante que haja troca da esponja se ela foi utilizada junto com um desses produtos, porque a bactéria pode ficar ali e se manter mesmo depois da troca do detergente”, afirmou.

O que diz a Ypê

A Ypê contestou a decisão da Anvisa e apresentou recurso administrativo pedindo efeito suspensivo da medida. Em nota divulgada anteriormente, a empresa classificou a suspensão como “arbitrária e desproporcional”.

Segundo a fabricante, a apresentação do recurso suspendeu automaticamente os efeitos da proibição até manifestação definitiva da Diretoria Colegiada da Anvisa.

“Ainda que a interposição do recurso tenha resultado na suspensão dos efeitos da medida anterior, a Ypê reforça que a segurança dos seus consumidores é — e sempre será — sua maior prioridade”, afirmou a empresa.

A fabricante também alegou que a inspeção sanitária não encontrou contaminação nos produtos comercializados e afirmou que as imagens divulgadas da unidade de Amparo retratam áreas que não têm contato direto com os itens vendidos ao consumidor.

Segundo a empresa, as áreas mostradas fazem parte de um “plano robusto de melhorias” em andamento na fábrica.

Extrema direita contesta decisão nas redes

Apesar de todas as justificativas e recomendações da Anvisa, houve mobilização nas redes em defesa da marca, que ganhou intensidade após vir à tona que os donos da Ypê fizeram doações para a campanha de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. Integrantes da extrema direita passaram a interpretar a decisão técnica da agência como uma possível retaliação política.

Produtores de conteúdos bolsonaristas publicaram vídeos nas redes sociais nos quais pessoas aparecem ingerindo detergente da marca Ypê, supostamente para “provar” que a decisão da Anvisa seria tecnicamente infundada e politicamente orientada.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, informou que a conduta é de alto risco para a saúde e destacou que a Anvisa analisa possíveis providências jurídicas contra os responsáveis pela divulgação desse tipo de conteúdo. O ministro afirmou ainda que o Ministério da Saúde seguirá monitorando a situação para tentar impedir a disseminação de práticas que possam ameaçar a integridade física da população em razão de disputas ideológicas.

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