A recuperação judicial do Vasco entrou na mira da Delegacia de Defraudações por causa de uma dívida atribuída ao ex-jogador Max, que defendeu o clube no início da década passada. O inquérito, aberto em maio, investiga uma possível fraude a credores e tenta esclarecer como um crédito inicialmente apontado em R$ 2,5 milhões passou para mais de R$ 8 milhões.
A investigação também apura uma possível participação de Alan Belaciano, atual presidente da Assembleia Geral do Vasco, nas tratativas relacionadas ao processo. Ele foi advogado de Max quando o ex-jogador ingressou com ação contra o clube, em 2016.
Belaciano nega irregularidades e sustenta que deixou de representar Max após o grupo político Sempre Vasco vencer as eleições de 2017. Também afirma que não participou de cálculos nem da negociação dos valores incluídos na recuperação judicial.
Pedrinho será chamado para depor
A Polícia Civil já ouviu funcionários e ex-funcionários do Vasco. Entre eles estão o ex-CEO Carlos Amodeo, a ex-diretora jurídica Bianca Reis, a representante da administradora judicial Wald Administração de Falências, Adriana Zamponi, e Gabriel Souza, funcionário da Alvarez & Marsal e atual diretor financeiro do clube.
Max também já prestou depoimento.
Alan Belaciano foi intimado duas vezes, mas não compareceu, e deverá ser chamado novamente. Moisés Gleicher, atual advogado do ex-jogador e também citado na investigação, foi convocado, mas ainda não prestou depoimento.
O presidente do Vasco, Pedrinho, também deverá ser intimado. A previsão da Polícia é concluir o inquérito em aproximadamente um mês.
Depoimentos divergem sobre R$ 8 milhões
Carlos Amodeo e Bianca Reis disseram à Polícia que receberam alerta sobre uma “possível irregularidade” durante o fechamento do balanço de 2025. Segundo eles, o crédito de aproximadamente R$ 8 milhões teria sido incluído pelo próprio credor nos autos da recuperação judicial.
Os dois também relataram que Belaciano se colocou à disposição da SAF para funcionar como interlocutor com advogados trabalhistas durante a fase de mediação, mas de maneira informal.
A versão apresentada pela administradora judicial diverge desse relato.
Adriana Zamponi afirmou que o Vasco e a SAF reconheciam como incontroverso um montante próximo de R$ 7,9 milhões, embora existissem divergências envolvendo verbas previdenciárias e Imposto de Renda. Após novos cálculos, a administradora teria chegado a aproximadamente R$ 8 milhões.
Ela relatou ainda surpresa com a posterior “alteração de posicionamento” do clube e da SAF sobre o crédito anteriormente reconhecido.
Conselho Fiscal já havia cobrado apuração
O caso também apareceu na análise das contas do Vasco. Integrantes do Conselho Fiscal da SAF cobraram a apuração de possível conflito de interesses envolvendo Belaciano.
Segundo parecer citado na investigação, o presidente da Assembleia Geral teria atuado como interlocutor na negociação com credores trabalhistas, apesar de anteriormente ter trabalhado como advogado em processos contra o próprio Vasco.
O Conselho Fiscal também pediu esclarecimentos sobre sete créditos que posteriormente passaram a ser contestados pelo Vasco e pela SAF na recuperação judicial. Juntos, os valores que o clube pretende impugnar chegam a R$ 10,8 milhões. O caso de Max está entre eles.
Belaciano contesta as suspeitas. Ele afirma que apenas aproximou dirigentes vascaínos dos advogados dos credores a pedido de Carlos Amodeo e sustenta que os valores e condições de pagamento foram definidos pelos escritórios especializados responsáveis pela recuperação judicial.
O dirigente também relaciona as acusações a uma disputa política surgida depois do rompimento entre integrantes do grupo que elegeu Pedrinho. Essa é a versão apresentada por Belaciano e não uma conclusão da investigação policial.
Íntegra da manifestação de Alan Belaciano
“Eu não sou investigado, não negociei valores e não fiz nenhum cálculo na recuperação judicial. Advogado não faz conta. Os valores, a forma de pagamento e toda a estrutura da negociação foram definidos pelos escritórios especializados em recuperação judicial. A Dra. Bianca Reis reconheceu isso em seu depoimento e o Felipe Carregal disse o mesmo em entrevistas.
Quando tomei posse no Vasco, deixei de advogar para o atleta Max e para qualquer outra parte em processos contra o clube. A pedido do Carlos Amodeo, atuei de forma pontual apenas para aproximá-lo dos advogados dos credores, porque o Vasco precisava recuperar a credibilidade que tinha perdido com quem tinha dinheiro a receber do clube.
Em janeiro, a própria Dra. Bianca Reis assinou uma petição concordando com o valor de aproximadamente 8 milhões de reais. O administrador judicial e o juiz concordaram e o valor entrou no plano da recuperação judicial. Quando veio o racha na diretoria, os executivos da SAF resolveram pedir a impugnação dessa mesma petição, contrariando a orientação dos escritórios contratados pelo próprio clube e sem avisar o presidente Pedrinho.
Até pouco tempo ninguém falava desse assunto. A denúncia anônima de ‘um vascaíno apaixonado’ só aparece depois do racha, e o assunto é requentado no período eleitoral, justamente quando a Justiça deu sinal verde para a qualificação do novo investidor.
A Dra. Bianca Reis, o Felipe Carregal e o Silvio Almeida eram os responsáveis por fiscalizar esse processo dentro do Vasco e ficaram calados até o rompimento. Então por que agora querem colocar o meu nome nisso? Quem deve explicação são eles.”







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