A Polícia Civil do Rio abriu um inquérito para investigar a agressão sofrida por quatro estudantes venezuelanos na saída da Escola Municipal Zuleika Nunes Alencar, localizada na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, na tarde desta quarta-feira. Segundo relatos de familiares, os adolescentes, com idades entre 14 e 15 anos, foram atacados por um grupo de cerca de 15 jovens brasileiros.
De acordo com testemunhas e com os próprios estudantes agredidos, o grupo de venezuelanos foi atacado com pedaços de madeira, cabos de vassoura, além de receber socos e chutes. Um dos adolescentes teve o braço quebrado, enquanto os outros sofreram ferimentos e ficaram com hematomas no corpo, rosto e cabeça.
Os familiares dos estudantes agredidos afirmaram que essa foi a primeira vez que enfrentaram uma situação desse tipo, ressaltando que nenhum dos jovens tem histórico de envolvimento em brigas ou confusões no ambiente escolar. Segundo os pais, os adolescentes estavam aguardando o ônibus após a aula em um ponto próximo ao condomínio Alfa Barra, quando foram abordados pelos agressores, que seriam alunos de outras escolas da região.
O caso foi registrado na 16ª DP (Barra da Tijuca). As famílias venezuelanas, temendo represálias ou perseguições, optaram por não se identificar publicamente.
A reportagem conversou com a mãe do jovem de 15 anos que teve o braço quebrado. Ela contou que o menino estuda na unidade há 4 anos, desde quando chegou no Brasil, e garante que o filho nunca teve problemas com os colegas. Segundo ela, foi a direção da unidade que informou sobre as agressões.
“Eu estava em casa e a direção me ligou. Falaram que o meu filho tinha sido agredido por colegas. Quando ela [a diretora] falou que bateram nele até quebrar o braço, eu não acreditei. O meu filho não é de brigar, ele é legal com todo mundo. Ele nunca teve problemas. Quando cheguei lá, fiquei desesperada. O meu filho foi levado para o [Hospital Municipal] Lourenço Jorge e engessaram o braço”, conta a mulher que é desempregada e tem 37 anos.
A mãe do menino, que estuda no 9º ano, afirma que desde o dia da briga ele reclama de fortes dores na cabeça.
“Ele contou que bateram muito neles. Hoje, ele tem reclamado com frequência de dores na cabeça. Eu fico preocupada. Mas, espero que façam alguma coisa e que essas pessoas sejam responsabilizadas”.
O pai de outra vítima, de 14 anos, contou que o filho chegou em casa chorando e assustado após a agressão. O menino está na escola desde janeiro e, assim como os demais colegas, nunca teve problemas com outros alunos.
Segundo o pai, no dia da agressão eles foram provocados ainda dentro da escola, mas que saíram sem dar importância para o ocorrido. De acordo com relatos das vítimas, eles foram também ameaçados com uma faca.
A escola ligou para as famílias e pediu que os adolescentes não fossem para a aula até entenderem o que aconteceu. Os pais, de qualquer maneira, estão inseguros que os filhos retornem às aulas.
A professora universitária venezuelana Yelitza Lafont, que mora na comunidade Morro do Banco, no Itanhangá, também conhecida por ser a maior colônia da Venezuela em solo carioca, contou que não é a primeira vez que uma criança ou adolescente venezuelano sofre bullying ou agressão na unidade. Ela diz que a escola nunca tomou providências. A educadora cobra providência das autoridades.
“É muito grave o que acontece nessa escola. Sempre eu estou em cima disso, porque as crianças falam com frequência [das agressões e xingamentos]. Mas, as professoras são despreocupadas. Elas sempre falam: ‘Ah, menino, não leva isso a sério. É brincadeira, coisa de criança’. Mas, é grave. Elas não estão dando importância para esse tipo de abuso. Elas não têm sido pessoas empáticas”, destaca Lafont, que completa:
“O imigrante sofre em todas as áreas. (Por isso) É preciso denunciar esse tipo de coisa. É preocupante esse tratamento com as crianças. Não merecemos isso. Ninguém merece ser tratado dessa forma”.
A família de uma das vítimas procurou a 16ª DP (Barra da Tijuca) e registrou o caso, que é investigado como ato infracional análogo a lesão corporal.
Uma das vítimas contou em depoimento que os alunos brasileiros tiveram uma divergência com um dos venezuelanos dentro da sala de aula e que na saída um grupo agrediu o outro.
A Polícia Civil disse que instaurou procedimento para apurar o caso. Os envolvidos serão ouvidos, e os agentes buscarão imagens para esclarecer as circunstâncias do ocorrido.
Segundo os pais, um dos alunos que estava entre os que agrediu já teria sido identificado pela direção da escola, que informou que pedirá aos responsáveis que compareçam à escola.
A Secretaria Municipal de Educação informou que tomou todas as medidas cabíveis em relação ao incidente ocorrido na quarta-feira, fora da unidade escolar e após o horário de aulas, envolvendo alunos.
“Vale ressaltar que a equipe gestora da escola não recebeu relatos anteriores de conflitos ou reclamações formais de responsáveis. A secretaria reforça seu compromisso com um ambiente de respeito e inclusão e promove constantemente um trabalho de conscientização com os alunos, em conjunto com o Peonaipe – Programa Interdisciplinar de Apoio às Escolas”, diz a nota.
Com informações do g1.





