PMs são flagrados sem dar socorro a manifestante baleado na Avenida Brasil

Imagens de câmeras corporais indicam que jovem atingido por tiro ficou mais de 10 minutos no chão; Defensoria Pública cobra indenização e retratação do estado

Vídeos obtidos com exclusividade revelam policiais militares sem prestar socorro a um manifestante baleado durante um protesto de moradores do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

As imagens foram registradas por câmeras corporais utilizadas por agentes da Polícia Militar e integram uma ação movida pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro contra o governo estadual.

O caso ocorreu em fevereiro de 2024, às margens da Avenida Brasil. A vítima, Jefferson de Araújo Costa, de 22 anos, foi atingida por um disparo de fuzil durante a manifestação e permaneceu caída no asfalto por mais de dez minutos sem atendimento imediato.

Imagens revelam momentos após o disparo

De acordo com a Defensoria Pública, o tiro foi disparado pelo policial militar Carlos Eduardo Gomes dos Reis.

Nas gravações analisadas pelo órgão, por volta das 11h20 o agente aparece se aproximando de Jefferson com o fuzil apontado e o dedo no gatilho. Nas imagens, o jovem não aparenta portar qualquer objeto nas mãos.

Logo após o disparo, o policial se afasta do local e se reúne com outros agentes. Em conversa captada pela câmera corporal, ele afirma que o manifestante teria tentado pegar sua arma — versão contestada pela Defensoria.

Socorro demorou a ser acionado

Cerca de três minutos após o disparo, um policial pergunta ao colega se ele havia chamado o socorro. A resposta é negativa.

Pouco depois, outro agente sugere que seja feita a ligação para o número 193, do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro. Mesmo assim, segundo as imagens, o pedido de ambulância não é realizado naquele momento.

Por volta das 11h30, aproximadamente dez minutos depois do tiro, um dos policiais comenta que o jovem possivelmente teria morrido.

Motorista levou vítima ao hospital

Segundo a Defensoria Pública, o socorro acabou sendo realizado por um motorista que passava pela Avenida Brasil dirigindo uma picape.

Jefferson foi colocado na caçamba do veículo e levado para um hospital, mas já chegou sem vida à unidade de saúde.

O órgão também afirma que familiares da vítima foram impedidos de entrar no carro com o jovem após a intervenção de um policial que abordou o motorista.

Policial será julgado por júri popular

O policial militar afirma que não teve intenção de matar e sustenta que o caso deveria ser tratado como homicídio culposo, quando não há intenção de provocar a morte.

No entanto, a Justiça rejeitou os recursos apresentados pela defesa. Com isso, o agente será submetido a júri popular sob acusação de homicídio doloso triplamente qualificado — por motivo fútil, impossibilidade de defesa da vítima e uso de arma de fogo de uso restrito.

Até que o julgamento ocorra, o policial responde ao processo em liberdade.

Defensoria pede indenização e medidas de reparação

Na ação civil apresentada à Justiça, a Defensoria Pública solicita indenização para a mãe e os dois irmãos de Jefferson, além de uma retratação pública por parte do estado.

Para o defensor público André Castro, do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, o episódio também levanta questionamentos sobre o uso da força em operações policiais.

Segundo ele, o estado deve adotar medidas de reparação que vão além de compensações financeiras, com ações que evitem a repetição de casos semelhantes.

Posicionamento dos citados

A defesa do policial militar Carlos Eduardo Gomes dos Reis informou que o processo criminal ainda está em andamento, atualmente na fase de recursos, e afirmou não ter sido notificada sobre eventual ação cível.

Já a Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro declarou que o processo administrativo disciplinar conduzido pela Corregedoria-Geral da corporação está temporariamente suspenso enquanto aguarda decisão da 3ª Vara Criminal da Capital do Tribunal de Justiça do Estado.

A reportagem também questionou a corporação sobre a possível omissão de socorro registrada nas imagens, mas não houve resposta sobre esse ponto específico até a última atualização da matéria.

Veja os vídeos no link do G1 abaixo, de reportagem do telejornal RJ2 da TV Globo:

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/rj2/video/videos-mostram-pms-sem-prestar-socorro-a-manifestante-baleado-na-avenida-brasil-no-rio-14424831.ghtml

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