Planalto monitora visita de Milei ao Brasil e prepara reação caso haja ataque a instituições

Governo evita transformar participação de Milei em evento do PL em crise diplomática, mas estabelece limites para manifestações contra Lula e o sistema eleitoral brasileiro

A presença do presidente da Argentina, Javier Milei, na Convenção Nacional do Partido Liberal (PL), em São Paulo, é acompanhada com cautela pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Embora o apoio do líder argentino ao ex-presidente Jair Bolsonaro e sua família seja considerado previsível pelo Palácio do Planalto, integrantes do governo afirmam que há limites claros para a atuação de Milei em território brasileiro.

Segundo fontes do governo, a participação do presidente argentino em um evento partidário da oposição, por si só, não provocará qualquer reação oficial. No entanto, eventuais ataques ao presidente Lula ou ao sistema eleitoral brasileiro são considerados linhas vermelhas pela diplomacia brasileira e poderão desencadear uma resposta institucional.

A estratégia inicial do governo é evitar ampliar a repercussão política da visita.

Em palavras de uma fonte oficial, “o governo não vai bater palma pra maluco dançar, sempre que possível”.

Na avaliação de integrantes do Planalto, transformar as declarações de Milei em um embate público poderia apenas ampliar a visibilidade do evento organizado pelo PL.

Mudança de postura em relação a Milei

Desde que assumiu a Presidência da Argentina, em dezembro de 2023, Javier Milei manteve distância institucional do governo brasileiro e evitou encontros com Lula.

Um dos episódios que simbolizaram esse distanciamento ocorreu em julho de 2024, durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul, realizada no Paraguai. Em vez de participar da reunião regional, Milei viajou para Santa Catarina, onde participou de um encontro da direita internacional organizado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Na ocasião, integrantes do governo brasileiro criticaram a decisão do presidente argentino, interpretando o gesto como um sinal de desprestígio às relações diplomáticas entre os dois países.

Hoje, porém, essa aproximação de Milei com o bolsonarismo já não provoca o mesmo desconforto em Brasília. O entendimento dentro do governo é que o alinhamento político do presidente argentino à direita brasileira faz parte de sua estratégia ideológica e não justifica, por si só, uma crise diplomática.

Ainda assim, o Planalto e o Itamaraty estabeleceram limites para o comportamento esperado durante a visita ao Brasil.

Caso Milei ultrapasse essas linhas, especialmente com ataques diretos a Lula ou ao processo eleitoral brasileiro, o governo poderá abandonar a estratégia de silêncio e responder oficialmente.

Resposta poderá explorar fragilidades do governo argentino

Nos bastidores do governo federal, a avaliação é que uma eventual escalada promovida por Milei abriria espaço para uma resposta contundente por parte do Brasil.

Fontes do Executivo afirmam que, se houver necessidade de reagir, o governo dispõe de argumentos relacionados às dificuldades enfrentadas pela administração argentina, incluindo investigações envolvendo integrantes do governo e críticas aos impactos sociais da política econômica conduzida por Milei.

Entre os episódios frequentemente lembrados por auxiliares de Lula está a investigação envolvendo o ex-chefe de gabinete Manuel Adorni, que deixou o cargo neste mês e é investigado pela Justiça argentina por suposto enriquecimento ilícito.

Outro tema que poderá ser utilizado em uma eventual resposta envolve a criptomoeda Libra.

Em fevereiro deste ano, Milei promoveu o ativo digital em sua conta na rede social X. Após a publicação, o valor da criptomoeda disparou cerca de 1.300%, aproximando-se de US$ 5 por unidade.

Pouco tempo depois, ocorreu uma operação conhecida no mercado financeiro como “rug pull”, quando grandes investidores retiram simultaneamente seus recursos, provocando o colapso do ativo. O preço caiu para menos de US$ 1, causando prejuízos estimados em cerca de US$ 250 milhões para mais de 44 mil investidores.

Horas depois da forte desvalorização, Milei apagou a publicação e afirmou que “não estava por dentro dos detalhes do projeto”.

Pobreza também integra debate entre os governos

Outro ponto frequentemente citado por integrantes do governo brasileiro é a situação social da Argentina após o programa de ajuste fiscal implementado por Milei.

Enquanto aliados do senador Flávio Bolsonaro costumam destacar indicadores econômicos positivos da gestão argentina, o governo Lula avalia que as medidas adotadas tiveram elevado custo social, sobretudo pelo aumento da vulnerabilidade da população.

A Casa Rosada rebate essas críticas e sustenta que os indicadores oficiais mostram queda significativa da pobreza. Segundo os dados divulgados pelo governo argentino, o índice caiu de mais de 50% no primeiro semestre de 2024 para menos de 30% no segundo semestre de 2025.

Esses números, entretanto, são contestados por pesquisadores e universidades argentinas, entre elas a Universidade Católica Argentina (UCA), que questionam a metodologia utilizada pelo governo e afirmam que os efeitos do ajuste fiscal aprofundaram a crise social em diferentes regiões do país.

Planalto avalia eventual desgaste como oportunidade política

Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é que uma eventual reação oficial somente ocorrerá se Milei elevar o tom de suas declarações durante a visita ao Brasil.

Integrantes do governo acreditam que um confronto diplomático provocado pelo presidente argentino poderia produzir efeito político semelhante ao observado nos recentes embates entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A leitura em Brasília é que, caso Milei faça declarações consideradas ofensivas às instituições brasileiras, o governo poderá utilizar o episódio para reforçar o discurso de defesa da soberania nacional e das instituições democráticas, transformando uma crise diplomática em ativo político no cenário interno.

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