A Polícia Federal revelou a existência de uma sofisticada organização criminosa estruturada dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Jair Bolsonaro. O documento aponta a atuação de seis núcleos distintos com funções bem definidas, abrangendo desde a espionagem de adversários políticos até a sabotagem de investigações e a propagação de fake news.
De acordo com o relatório entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF), a cúpula da organização era formada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ). A PF afirma que cabia a esse núcleo político traçar as diretrizes da atuação clandestina da Abin paralela, selecionar os alvos — como opositores, membros do Judiciário e o sistema eleitoral — e colher os benefícios políticos das ações ilícitas. Esse grupo era, segundo os investigadores, o centro decisório e o principal destinatário das “vantagens ilícitas”.
Outro eixo essencial do esquema era o núcleo de comando e alta gestão da estrutura paralela, liderado por Alexandre Ramagem, então diretor-geral da Abin e hoje deputado federal. Composto por policiais federais cedidos e oficiais de inteligência de confiança de Ramagem, esse núcleo utilizava a infraestrutura da agência, incluindo o software espião FirstMile, para executar as ordens do núcleo político. “Integrantes deste núcleo atuavam em posições de alta gestão e/ou executavam diretamente as ações clandestinas, plenamente cientes de seu desvio de finalidade”, destaca o relatório.
O terceiro grupo, denominado núcleo de assessoria da alta gestão e execução de ações clandestinas, desempenhou papel operacional decisivo. Segundo a PF, foi esse núcleo que gerenciou contratos como o do FirstMile, facilitou o acesso às ferramentas ilegais e atuou ativamente na omissão de controles internos e na obstrução de apurações, tanto internas quanto externas.
Outro setor mencionado é o núcleo de gestão DOINT, integrado por policiais federais e um militar cedido à Abin. Eles eram os responsáveis por executar as ordens do comando da agência e, de acordo com os investigadores, tinham “unidade de desígnios no intento criminoso”, cumprindo determinações mesmo sabendo de sua ilegalidade.
A PF também identificou o núcleo de produção e propagação de fake news, composto por servidores e assessores da Presidência da República. Esse grupo recebia dossiês e materiais produzidos pela estrutura clandestina e os disseminava com o objetivo de atacar adversários e fortalecer politicamente o núcleo ligado a Bolsonaro.
Por fim, o relatório aponta um sexto grupo: o núcleo de embaraçamento das investigações, formado por integrantes da atual gestão da Abin. Entre os nomes citados estão o diretor-geral Luiz Fernando Corrêa, o ex-diretor-adjunto Alessandro Moretti, o ex-secretário de Planejamento e Gestão Paulo Maurício Fortunato, o chefe de gabinete Luiz Carlos Nóbrega e o corregedor-geral José Fernando Moraes Chuy. Conforme a PF, esse grupo teria atuado para dificultar a elucidação dos crimes da gestão anterior, omitindo informações, retardando a entrega de provas e tentando desacreditar a ex-corregedora da agência.
A gravidade das descobertas fortalece os indícios de que a Abin foi instrumentalizada para fins políticos durante o governo anterior. O relatório será peça-chave nos próximos desdobramentos do inquérito em curso no STF, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.





