Novos documentos reunidos pela Polícia Federal e encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF) revelam que o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teve acesso antecipado a informações sigilosas de uma investigação aberta pelo Ministério Público Federal (MPF) sobre um controverso negócio envolvendo a Caixa Asset e a instituição financeira. A informação foi divulgada pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo.
As mensagens analisadas pelos investigadores mostram que Vorcaro recebeu, em julho de 2024, registros internos que apontavam a abertura de uma apuração preliminar para investigar a destituição de dois gerentes da Caixa Asset que haviam se posicionado contra a compra de um lote de R$ 500 milhões em letras financeiras emitidas pelo Banco Master.
O negócio acabou não sendo concretizado após técnicos do braço de gestão de ativos da Caixa Econômica Federal apontarem riscos relevantes na operação e questionarem a consistência das informações financeiras apresentadas pela instituição.
Segundo a PF, o episódio é mais um elemento que reforça a suspeita de que Vorcaro mantinha uma estrutura paralela voltada à obtenção de informações protegidas por sigilo e ao monitoramento de procedimentos que poderiam afetar seus interesses.
Documento chegou ao banqueiro em dois dias
De acordo com o relatório policial, o registro da autuação da chamada “notícia de fato” foi encaminhado a Vorcaro em 18 de julho de 2024, apenas dois dias após a Procuradoria da República no Distrito Federal dar início à apuração.
Os investigadores afirmam que o banqueiro demonstrava interesse constante em acompanhar procedimentos sigilosos nos quais aparecia como parte ou possível alvo de investigação.
Em documento enviado ao STF e tornado público por decisão do ministro André Mendonça, a Polícia Federal afirma que Vorcaro “buscava compreender a natureza, o motivo e o andamento dos procedimentos sigilosos em que seu nome aparece como parte ou possível investigado”.
Segundo a investigação, o material foi repassado ao banqueiro por Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário. Apontado pela PF como um operador próximo de Vorcaro, Mourão teria recebido remuneração mensal de R$ 1 milhão para executar atividades consideradas ilícitas, incluindo a obtenção de informações sigilosas, o monitoramento de adversários e a ocultação de conteúdos considerados prejudiciais aos interesses do grupo.
Uma das mensagens interceptadas mostra a rapidez com que as informações chegaram ao entorno do banqueiro.
“Foi cadastro (sic) negócio lá da Assets (sic). Não tem IP [inquérito policial] ainda, só NF [notícia de fato]”, informa uma mensagem encaminhada a Mourão e posteriormente repassada a Vorcaro.
O autor original da comunicação não foi identificado pelos investigadores.
Parecer da Caixa levantou alerta
O procedimento citado nas mensagens tinha como origem reportagens que revelaram a existência de um parecer técnico elaborado por especialistas da Caixa Asset sobre a possível aquisição de letras financeiras emitidas pelo Banco Master.
Segundo o documento, os analistas identificaram fragilidades relevantes na instituição financeira. O parecer apontava que o banco não apresentava “clareza, efetividade e consistência em seus números” e possuía um modelo de negócios considerado de “difícil compreensão” e com “alto risco de solvência para a instituição”.
Outro ponto que chamou a atenção dos técnicos foi a remuneração oferecida pelos papéis financeiros. As letras financeiras pagariam 130% do CDI ao ano durante um prazo de dez anos, percentual significativamente superior ao praticado no mercado para operações semelhantes.
A operação acabou sendo barrada e nunca foi concluída.
Posteriormente, os receios apontados pelos técnicos ganharam relevância com o agravamento da situação do Banco Master, que passou a ser alvo de investigações mais amplas envolvendo suspeitas de corrupção, fraude e influência política.
Crise interna na Caixa Asset
Embora a compra dos títulos não tenha sido efetivada, a análise do negócio desencadeou uma crise interna na Caixa Asset.
Os gerentes Daniel Cunha Gracio, responsável pela área de renda fixa e signatário do parecer técnico, e Maurício Vendruscolo, da área de renda variável, perderam seus cargos após a controvérsia.
O episódio também levou a Controladoria-Geral da União (CGU) a promover uma auditoria inédita na gestora de recursos vinculada ao banco estatal.
Para os investigadores, a reação institucional ao parecer técnico passou a integrar o conjunto de fatos analisados pelas autoridades.
Tentativa de impedir abertura de inquérito
As mensagens reunidas pela Polícia Federal mostram que o interesse de Vorcaro no caso não cessou após o recebimento da primeira informação.
Em 30 de julho de 2024, cerca de duas semanas depois da abertura da apuração, Mourão encaminhou ao banqueiro um extrato administrativo contendo atualizações do procedimento em andamento.
“Opa. Bom dia! Tem alguém olhando isso? De ontem, atualização no Caixa Assets (sic)”, escreveu o operador.
O documento informava o gabinete da procuradora responsável pelo caso, Luciana Loureiro, e registrava a necessidade de avaliar a abertura de um inquérito policial.
O conteúdo provocou preocupação entre os envolvidos.
“Dá uma olhada nisto com quem esta (sic) por conta de olhar isto para não deixar virar [inquérito policial]. E sanar isto”, escreveu Mourão.
A resposta de Vorcaro demonstra que o banqueiro acompanhava diferentes frentes de apuração naquele momento.
“”Qial (sic) e esse. Da Caixa?”, questiona Vorcaro, já preocupado com o surgimento de diversas frentes de investigação em andamento contra os seus negócios.
Apesar da preocupação manifestada nas mensagens, o procedimento acabou evoluindo para a instauração de um inquérito que tramita sob sigilo na Justiça Federal do Distrito Federal.
Acesso ao sistema do MPF entra na mira
Um dos pontos considerados mais graves pelos investigadores diz respeito à origem das informações acessadas pelo grupo.
Segundo a Polícia Federal, os documentos encaminhados a Vorcaro sobre o caso da Caixa Asset foram consultados por uma servidora pública vinculada à Procuradoria da República no Maranhão.
A circunstância levou os investigadores a abrir uma nova frente de apuração para esclarecer de que forma os dados foram obtidos.
“Impõe-se esclarecer se a consulta foi realizada de forma regular, se o acesso foi ilegalmente obtido mediante invasão (“hackeado”) ou se houve franqueamento direto por parte da própria usuária”, ressalta a PF.
As mensagens também sugerem que o grupo acreditava possuir acesso amplo a sistemas internos do Ministério Público Federal.
Em conversa registrada em junho de 2024, Mourão questiona Vorcaro sobre quais pessoas deveriam ter processos monitorados. Na lista apareciam o empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro; Henrique Vorcaro, pai do controlador do Master; e o empresário Nelson Tanure, apontado pela PF como “sócio oculto” da instituição financeira.
“Dos seus quais você quer puxe e te envie?”, questiona Mourão.
“Todos obviamente”, responde o banqueiro.
Dias depois, uma nova mensagem chama a atenção dos investigadores.
“Me dá um update, se quer alguma coisa. Para puxar o que precisar estamos com acesso total e ilimitado lá [ao sistema interno do MPF], só não sei até quando”.
Segundo a Polícia Federal, esse acesso teria permanecido ativo até novembro de 2024, quando a prisão de integrantes do grupo passou a comprometer a estrutura utilizada para obtenção de informações sigilosas.
As revelações integram o conjunto de documentos que embasam as investigações em curso sobre o Banco Master, seus administradores e a suposta rede montada para monitorar procedimentos sigilosos e influenciar apurações conduzidas por órgãos públicos.





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