Um relatório sigiloso da Polícia Federal aponta ACM Neto (União Brasil), candidato ao governo da Bahia, como liderança de uma organização criminosa investigada por fraudes em contratos públicos e obtenção de recursos por meio de superfaturamento. A conclusão integra a Operação Overclean e foi revelada nesta quarta-feira (30) pela CNN Brasil.
O documento, produzido em novembro de 2025, relaciona o ex-prefeito de Salvador ao grupo do empresário José Marcos Moura, conhecido como “Rei do Lixo”. A investigação alcançou contratos da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, em Minas Gerais.
ACM Neto nega qualquer participação nas irregularidades. Em setembro, o ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitou um pedido da PF para realizar busca e apreensão contra o candidato, apesar de parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). Para o ministro, os elementos apresentados não eram suficientes para justificar a medida contra o político.
PF cita 232 contatos com empresário
Segundo o relatório, registros encontrados no celular de Marcos Moura mostram que ele e ACM Neto mantiveram 232 contatos entre agosto e dezembro de 2024. Para os investigadores, são “dados que reforçam a intensa relação entre os dois”.
Moura e outras 24 pessoas já foram indiciados no âmbito da Overclean. A investigação apura desvios de recursos públicos provenientes, entre outras fontes, de emendas parlamentares. Segundo a PF, o grupo investigado teria movimentado cerca de R$ 1,4 bilhão.
No relatório, a PF afirma:
“Ao analisarmos todo o conjunto probatório reunido nas oito fases da Operação Overclean, conclui-se que ACM Neto exerce a função de liderança da organização criminosa constituída para obtenção de recursos públicos a partir de contratos públicos superfaturados”.
Investigação chega a contratos em Belo Horizonte
A PF sustenta que o grupo teria atuado para obter vantagens econômicas por meio de contratações fraudulentas e superfaturadas na Prefeitura de Belo Horizonte. A apuração menciona “movimentações atípicas de dinheiro em espécie transportado em malas de viagens em aeronaves fretadas”.
Segundo os investigadores, a atuação teria alcançado processos de contratação da Secretaria Municipal de Educação entre abril de 2024 e abril de 2025. A suspeita é de que integrantes do grupo tenham ocupado posições na administração municipal para favorecer licitações e direcionar contratos a pelo menos seis empresas fornecedoras de materiais e serviços.
O relatório afirma:
“Com o fim do mandato de ACM Neto na prefeitura de Salvador, e a partir de 2024, a organização criminosa ampliou sua área de atuação para a capital mineira mediante a ocupação dos seus integrantes em pontos chave da administração municipal”
A investigação cita especificamente o ex-secretário de Educação de Belo Horizonte Bruno Barral, que anteriormente ocupou o mesmo cargo em Salvador. Segundo a PF, Barral teria favorecido contratações de empresas relacionadas a Marcos Moura e ao empresário Alex Parente.
Três contratos da área de educação estão sob investigação. Informações divulgadas pela PF em setembro apontaram que os acordos superavam R$ 80 milhões, além de outros procedimentos que também estavam sendo apurados.
Gonet apoiou medidas pedidas pela PF
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, concordou com parte das conclusões apresentadas pela Polícia Federal em parecer encaminhado no início de fevereiro ao ministro Nunes Marques, relator da Overclean no STF.
Segundo o material revelado pela CNN, Gonet avaliou que os elementos apresentados pelos investigadores eram consistentes quanto à materialidade dos fatos investigados e aos indícios de autoria. O procurador também considerou necessária uma nova operação para aprofundar a coleta de provas.
Entre os materiais que a PF pretendia localizar estavam armas, munições, documentos, anotações, registros, mídias, aparelhos eletrônicos e dispositivos destinados ao armazenamento de dados.
A avaliação da PGR era de que a organização investigada teria continuado em atividade mesmo depois das primeiras etapas da Operação Overclean.
A Polícia Federal pediu autorização para busca e apreensão contra ACM Neto sob o argumento de que ele teria sido responsável por colocar integrantes do grupo em posições estratégicas da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte.
Os investigadores também solicitaram o bloqueio de até R$ 77,8 milhões em bens e valores atribuídos ao candidato, quantia correspondente, segundo a investigação, aos pagamentos realizados em três contratos analisados.
Nunes Marques negou buscas contra ACM Neto
Nunes Marques autorizou a décima fase da Operação Overclean, mas rejeitou as medidas solicitadas diretamente contra ACM Neto. O ministro entendeu que os indícios apresentados pela Polícia Federal não eram suficientes para autorizar busca e apreensão contra o candidato.
A decisão contrariou a posição dos investigadores e o parecer apresentado pela PGR.
O ministro, entretanto, autorizou medidas contra auxiliares e outros investigados. A estratégia permitiria, segundo a decisão, a obtenção de elementos que eventualmente pudessem confirmar ou afastar as suspeitas relacionadas a outras pessoas investigadas.
Na décima fase da Overclean, deflagrada em 17 de setembro, a PF cumpriu 24 mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Tocantins, Paraná e Espírito Santo. A investigação apura possíveis crimes de fraude em licitações e contratos, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
ACM Neto fala em interferência eleitoral
ACM Neto rejeitou as suspeitas apresentadas pela Polícia Federal e afirmou que a divulgação das informações às vésperas da votação teria finalidade eleitoral.
Em nota, sua assessoria afirmou que há uma clara “tentativa de interferir no processo eleitoral com a criação e divulgação de factoides e insinuações mentirosas e falsas”.
Segundo a equipe do candidato, vazamentos seletivos estariam sendo utilizados para associá-lo a episódios com os quais afirma não ter qualquer relação.
“Trata-se de uma nova tentativa de influenciar na eleição estadual da Bahia”, ressaltou.
Em manifestação divulgada anteriormente sobre a Overclean, ACM Neto também afirmou que não possui relação com os fatos investigados e citou a negativa de Nunes Marques ao pedido de buscas da PF como argumento para contestar as suspeitas.
A investigação da Operação Overclean permanece em andamento. A primeira fase foi deflagrada em dezembro de 2024, inicialmente para apurar irregularidades relacionadas a recursos públicos e emendas parlamentares. O caso posteriormente chegou ao STF em razão da presença de pessoas com prerrogativa de foro entre os investigados.







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