Uma conta criada do zero no Instagram, sem histórico de navegação ou preferências políticas declaradas, passou a receber uma quantidade expressivamente maior de conteúdos favoráveis ao bolsonarismo do que publicações ligadas ao presidente Lula (PT). O resultado faz parte de um experimento conduzido pela organização internacional Eko, que identificou uma predominância de recomendações associadas à direita na plataforma da Meta, mesmo após os pesquisadores demonstrarem interesse equivalente pelos dois candidatos à Presidência da República.
Segundo reportagem do UOL, o teste começou no dia 14 de outubro, em São Paulo, quando os pesquisadores abriram um perfil utilizando um endereço de e-mail e um número de telefone sem vínculos anteriores com Instagram, Facebook ou WhatsApp.
A conta foi configurada como pertencente a uma pessoa de 30 anos, sem identificação de gênero e sem outras informações pessoais. Em seguida, os responsáveis seguiram apenas quatro perfis: os de Lula e Flávio Bolsonaro e as páginas oficiais de seus respectivos partidos, PT e PL.
Para manter condições semelhantes de interação, os pesquisadores também visualizaram brevemente as principais publicações e os stories dos dois candidatos.
Apesar desse comportamento equilibrado, o conteúdo recomendado pelo Instagram apresentou uma diferença significativa entre os dois campos políticos.
Três em cada quatro publicações políticas favoreciam a direita
Entre as primeiras 50 publicações exibidas ao perfil recém-criado, 92% abordavam assuntos políticos. Desse total de posts analisados, 74% apresentavam conteúdo simpático ao bolsonarismo e à direita, enquanto 18% eram favoráveis a Lula e à esquerda.
Os demais 8% não foram classificados como conteúdos políticos.
Para os responsáveis pelo levantamento, a diferença indica um desequilíbrio no funcionamento das recomendações da plataforma.
A Eko classificou o resultado como “é uma evidência flagrante de viés de direita no sistema de recomendação do Instagram”.
A organização, sediada na Inglaterra e dedicada ao monitoramento de grandes empresas de tecnologia, documentou o procedimento com capturas de tela e gravações em vídeo.
O experimento completo foi disponibilizado pelos pesquisadores para consulta pública.
Conteúdos de Lula tinham engajamento superior
Outro dado identificado pelos pesquisadores chama atenção para a relação entre popularidade das publicações e frequência das recomendações.
Embora os conteúdos favoráveis ao campo político de Lula aparecessem em menor quantidade, eles registravam, em média, números superiores de interações.
As publicações simpáticas ao presidente apresentaram média de 398 mil curtidas, 64 mil comentários e 108 mil compartilhamentos.
Segundo o levantamento, esses resultados representavam mais que o dobro das curtidas registradas pelos conteúdos de direita, além de mais de sete vezes o número de comentários e nove vezes o volume de compartilhamentos.
Instagram também sugeriu perfis ligados ao bolsonarismo
A predominância de conteúdos associados à direita não ficou restrita às publicações exibidas no feed.
Durante a navegação, o Instagram recomendou cinco perfis para acompanhamento. Dois deles pertenciam a figuras identificadas com a extrema direita: o religioso Frei Gilson e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Depois de percorrer as primeiras 30 publicações e retornar à página inicial, os pesquisadores receberam uma nova lista com cinco sugestões.
Dessa vez, dois dos perfis recomendados eram os do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e do deputado eleito Lucas Pavanato, ambos do PL.
O experimento também identificou diferenças na facilidade de localização das contas dos candidatos por meio da ferramenta de busca.
Segundo os pesquisadores, o perfil de Lula não foi encontrado com termos aproximados, sendo necessário digitar exatamente @lulaoficial.
Já a conta de Flávio Bolsonaro apareceu imediatamente quando foi pesquisada a palavra “Bolsonaro”.
Meta nega favorecimento a candidatos na eleição
Procurada para comentar especificamente os resultados do experimento, a Meta informou que não se manifestaria sobre o levantamento.
Em uma ocasião anterior, quando questionada sobre possíveis preferências políticas de seus sistemas durante a eleição presidencial brasileira, a empresa rejeitou qualquer acusação de favorecimento.
“A Meta não toma partido nesta nem em nenhuma outra eleição. Alegações de que favorecemos qualquer uma das campanhas na disputa presidencial no Brasil não têm fundamento. Continuaremos a aplicar nossas regras, cumprindo a legislação eleitoral brasileira e corrigindo erros quando ocorrerem”, afirmou a empresa em nota.







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