Pesquisador brasileiro perseguido por comprovar que cloroquina é ineficaz para Covid-19 assume direção na OMS

O infectologista Marcus Lacerda é nomeado diretor do TDR, programa estratégico da Organização Mundial da Saúde, e retoma protagonismo internacional

O infectologista brasileiro Marcus Lacerda, que esteve à frente do primeiro estudo no país a comprovar a ineficácia da cloroquina no tratamento da Covid-19 e foi alvo de perseguições durante a pandemia, foi nomeado diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial da Saúde (OMS). A indicação marca a segunda vez que um pesquisador brasileiro assume a liderança do programa, criado para fortalecer a pesquisa em doenças que afetam populações vulneráveis. O primeiro foi o médico e biofísico Carlos Morel, ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A nomeação representa o reconhecimento de uma trajetória científica consolidada internacionalmente e também simboliza a revalorização de pesquisadores que enfrentaram forte hostilidade política no Brasil durante a crise sanitária provocada pelo coronavírus. As informações são do jornal O Globo.

Trajetória acadêmica e atuação internacional

Marcus Lacerda nasceu em Taguatinga, no entorno de Brasília. Graduou-se em Medicina pela Universidade de Brasília (UnB) e se especializou em Infectologia pela Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), no Amazonas. Atualmente, é professor do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da Universidade do Estado do Amazonas e professor adjunto da University of Texas Medical Branch (UTMB), nos Estados Unidos.

O pesquisador também atua como especialista em Saúde Pública da Fiocruz, onde coordena o Laboratório Instituto de Pesquisas Clínicas Carlos Borborema (IPCCB), vinculado à Fiocruz Amazônia, em Manaus. Além disso, presidiu a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), entidade de referência no estudo de doenças infecciosas no país.

Referência mundial em doenças tropicais

Ao longo da carreira, Lacerda se consolidou como uma das principais referências internacionais em pesquisas sobre malária, com destaque para o manejo clínico e a eliminação do Plasmodium vivax, um dos parasitas responsáveis pela doença. Seu trabalho também abrange outras enfermidades de grande impacto em regiões tropicais, como HIV, histoplasmose, arboviroses, acidentes ofídicos, Covid-19 e doenças emergentes.

Em nota divulgada após a nomeação, o pesquisador afirmou: “Estou ansioso para avançar com a Estratégia TDR 2024-2029 e apoiar esforços para traduzir evidências em impacto, especialmente onde as necessidades são maiores. Estou ansioso para fazer parcerias com países e comunidades para fortalecer a capacidade, apoiar a liderança local e construir sistemas sustentáveis que perdurem”.

Cloroquina, ciência e perseguição política

Apesar do reconhecimento internacional, Marcus Lacerda se tornou alvo de ataques no Brasil durante a pandemia da Covid-19. Ele liderou um dos primeiros ensaios clínicos que comprovaram a ineficácia da cloroquina no tratamento da doença. O estudo, publicado na revista científica JAMA, também indicou que doses mais elevadas do medicamento estavam associadas a arritmias cardíacas.

Naquele contexto, a equipe de pesquisa passou a ser atacada por defensores do chamado “tratamento precoce”. Lacerda e seus familiares receberam ameaças de morte e precisaram circular com escolta armada.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do então presidente Jair Bolsonaro, chegou a publicar uma postagem alegando, sem provas, que o estudo teria sido feito para “desqualificar” a cloroquina e que teria provocado mortes entre os participantes, o que foi posteriormente desmentido.

Durante o mesmo período, o governo federal revogou a concessão da Ordem Nacional do Mérito Científico (ONMC) ao pesquisador. A honraria só foi restituída anos depois, em 2023, já sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva.

Reconhecimento após a crise

A nomeação de Marcus Lacerda para um dos programas mais estratégicos da OMS ocorre em um momento de revalorização da ciência e do papel dos pesquisadores no enfrentamento de crises sanitárias globais. À frente do TDR, ele será responsável por coordenar iniciativas internacionais voltadas ao desenvolvimento científico, à formação de pesquisadores e à tradução do conhecimento em políticas públicas, especialmente em países de baixa e média renda.

O retorno de um cientista brasileiro ao comando do programa reforça o protagonismo do país na pesquisa em saúde global e encerra, ao menos simbolicamente, um ciclo marcado por ataques à ciência durante a pandemia.

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