Drielli* cronometrou em quanto tempo já conseguiu chegar ao orgasmo sozinha: menos de um minuto. Numa relação sexual com parceiros, garante a professora de 31 anos, atingir o clímax demora muito mais. Às vezes, sequer acontece. “Já fingi muito, principalmente com meu ex-marido, que fazia comentários indelicados sobre meu corpo e me deixava insegura”, conta a carioca. “Hoje, meu prazer é uma exigência, sei o que funciona, mas ainda é difícil encontrar alguém que termine o trabalho ou me dê vontade para isso.”
O caso de Drielli está longe de ser algo incomum, principalmente numa relação heterossexual. De acordo com o Censo do Sexo, pesquisa realizada pela sextech Pantynova divulgada este ano, 68% das mulheres chegam ao orgasmo sozinhas, número que cai para 19% quando estão acompanhadas de seus parceiros.
E o que, afinal, faz da solitude a principal aliada do prazer feminino: carência de intimidade, medo de não agradar ou falta de noção dos homens? Segundo a psicóloga Daniela de Oliveira, tudo isso e muito mais. “A mulher vive sob interferências externas que acabam sendo internalizadas na hora do sexo, o que pode dificultar a chegada ao clímax a dois”, explica a profissional. “As exigências sobre nós são maiores em termos de aparência, por exemplo. Nem todo corpo é socialmente aceito. Isso mina a confiança necessária para se entregar e relaxar.” A psicóloga também aponta fatores históricos e culturais como empecilhos: “Fomos criadas para sempre agradar aos homens. Sozinhas, podemos ser e gozar como quisermos.”
É fato que o aumento das discussões sobre sexualidade feminina nos últimos anos jogou luz ao direito da mulher sobre o próprio prazer, mas, de certa maneira, gozar também se tornou uma espécie de pressão, como enxerga a sexóloga Mariah Prado. “Não é raro ouvir pacientes que se sentem obrigadas a chegar ao orgasmo. Os homens pressionam por autoafirmação, querem ver-se capazes de fazer uma mulher gozar”, diz Mariah, fundadora da comunidade feminina Share Your Sex.
Foi esse um dos motivos que já dificultou o caminho da estudante de Engenharia de Produção Vitória*, de 25 anos, até o orgasmo. “Tive um ex-namorado na adolescência que parecia quase me forçar a gozar, como se fosse uma obrigação dele e minha ao mesmo tempo. Na época, mal conhecia meu corpo, pensei que tivesse alguma coisa de errado comigo”, relembra a paulista. Hoje, apesar de estar em outro relacionamento sério e que considera saudável, Vitória ainda diz não conseguir atingir o clímax durante as transas. Isso acontece apenas quando está sozinha, com o auxílio de um vibrador ou de conteúdos eróticos. “Parece que meu cérebro entende que só sei sentir prazer dessa maneira.”
Lívia Lima, de 31 anos, consegue atingir o orgasmo no sexo a dois, mas salienta que durante a masturbação é “muito mais fácil”, principalmente por ter o costume de usar vibradores. “Os brinquedinhos me ajudaram a conhecer melhor o meu corpo e os lugares onde o toque é mais eficaz. Com os rapazes, preciso orientar. A menos que eu já tenha intimidade”, conta a psicóloga mineira, que revela ainda uma tática para “chegar lá”, na hora H: “Existe o mito do ‘relaxa e goza’. O que entendi é que meu corpo não pode estar completamente relaxado. No sexo oral, por exemplo, a forma como vou me movimentando e contraindo facilita mais o processo”.
Outra dica importante da sexóloga Mariah Prado para o prazer a dois é “preparar e aquecer o corpo e a mente” antes de ir para o toque genital. “Há quem acredite que preliminar seja o sexo oral, mas essa fase já é muito avançada. O corpo da mulher responde ao estímulo sexual de uma forma mais lenta do que o do homem. Então, são precisos beijos, abraços, carinhos e afeto”, indica a profissional.
Assim, todo mundo sai ganhando.
*Os sobrenomes foram preservados a pedido das entrevistadas.
As informações são de reportagem de O Globo





