Se você acha que o Rio de Janeiro é só berço do samba e da malandragem, prepare-se para conhecer a versão John Wick da capoeira criada às margens da Guanabara. Nada de floreios, saltos mortais, frufrus, ou gingas estilizadas. Aqui o negócio era direto ao ponto. Um chute bem dado, uma rasteira certeira e pronto: o adversário já estava no chão, muitas vezes sem nem entender o que aconteceu. Era a luta preferida dos estivadores, trabalhadores e malandros que precisavam se defender nas ruas e cortiços da cidade.

Diz a lenda que o primeiro registro oficial aconteceu em um contexto imperial, quando Francisco Gomes da Silva, o famoso Chalaça, aplicou uma pernada olímpica em um guarda-costas de Dom Pedro I. O golpe foi tão rápido e elegante que terminou com uma reverência ao príncipe, garantindo ao alcoviteiro do imperador um lugar de confiança na corte. Desde então, a Pernada Carioca virou marca registrada da malandragem, capaz de derrubar inimigos e conquistar respeito em um só movimento. Rápido, fulminante.

Mas, como tudo que é muito carioca, a pernada acabou perseguida pelo projeto de “civilização” da cidade no início do século XX. O prefeito Pereira Passos queria transformar o Rio numa “Paris tropical” e não havia muito espaço para malandros aplicando rasteiras em brigas de rua na região portuária. Criminalizada e sem a aura cultural da capoeira baiana, que vinha embalada por berimbau, cantos e ginga, a pernada foi desaparecendo das ruas. Restou o legado: um estilo de luta que influenciou até o jiu-jítsu brasileiro e deixou no vocabulário popular a expressão “dar uma pernada”, sinônimo de esperteza tipicamente carioca.

O que era a Pernada Carioca?

A Pernada Carioca era uma técnica de luta corporal praticada nas ruas do Rio nos séculos XIX e início do século XX, principalmente por trabalhadores, estivadores, malandros, e membros das antigas maltas de capoeira: grupos organizados que dominavam territórios e se envolviam em disputas políticas, apoiando partidos conservadores ou liberais.

Era uma variação da capoeira, mas com identidade própria. Muito mais direta, objetiva e certeira, com movimentos menos acrobáticos que a capoeira baiana.

Ela ficou muito conhecida como “luta de pernada”, porque priorizava golpes de perna para desequilibrar, derrubar ou imobilizar o adversário, e até certas movimentações que lembram luta-livre e o jiu-jítsu brasileiro.

Carlson e Hélio Gracie, fundadores do jiu-jítsu brasileiro | Crédito: Reprodução

Qual a sua origem?

Ela nasceu no século XIX de uma variação da capoeira tradicional adaptada à vida bandida de malandros carioca e lutas trabalhistas contra a repressão do governo.

Mas o primeiro episódio em que ela é mencionada tem origem imperial. Se você não faltou a essa aula na escola deve ter aprendido que Dom Pedro I tinha um secretário/alcoviteiro/faz-tudo chamado Francisco Gomes da Silva, o Chalaça.

Chalaça não tinha nenhuma relação com o príncipe. Até que um dia o viu bebendo e uma estalagem do Centro da cidade e resolveu se aproximar. Um dos guarda-costas de Dom Pedro interveio e levou uma pernada olímpica de Chalaça, que finalizou o golpe e num só movimento fez ao príncipe uma mesura: “Francisco Gomes da Silva, a seu dispor”.

Quem nunca levou uma “pernada” levante a mão.

Mas qual a diferença entre a Pernada Carioca e a capoeira baiana?

A Pernada Carioca tinha muito menos acrobacia e mais pragmática. Não tinha floreios, saltos mortais, nem ginga estilizada. Era uma prática mais pé-no-chão, mais agressiva, mais urbana, com ênfase total em derrubar rápido o adversário — daí o nome “pernadas”.

Era o golpe preferido entre a malandragem para ganhar uma briga sem levantar suspeita, porque derrubava tão rápido que parecia até acidente. Ela era praticada especialmente na Região Portuária da Guanabara, em estalagens e cortiços.

O estilo de capoeira consolidado na Bahia e posteriormente difundido pelo Brasil, incorporava elementos como a ginga, os cantos e o uso do berimbau, transformando o jogo em uma expressão cultural completa que unia luta, dança e música.

Seus golpes eram mais variados e incluíam chutes circulares, acrobacias e esquivas, sempre guiados pelo ritmo da música. Assim, enquanto a pernada carioca era uma luta urbana mais seca, a capoeira baiana se afirmava como uma arte marcial e cultural, com forte ligação à identidade afro-brasileira e à tradição comunitária.

Por que quase ninguém fala mais dela?

Porque foi gradualmente apagada pela repressão oficial e pela ascensão da capoeira baiana como forma dominante da arte no Brasil.

No início do século XX, o Rio de Janeiro passava por um processo de modernização e “civilização” conduzido pelo prefeito Pereira Passos, que buscava transformar a cidade em uma “Paris dos Trópicos”.

Nesse contexto, práticas populares associadas à malandragem, como a pernada carioca, foram criminalizadas e perseguidas, sendo vistas como símbolos de atraso e desordem.

A ausência de uma estrutura ritualizada e legitimada, como a música e a roda da capoeira baiana, também contribuiu para que a pernada fosse considerada apenas uma briga de rua, sem valor cultural, o que facilitou sua marginalização e esquecimento.

Com a perseguição oficial e a falta de reconhecimento cultural, a Pernada Carioca foi desaparecendo, enquanto a capoeira baiana, mais estruturada e posteriormente institucionalizada, se consolidou como a forma de capoeira que se difundiu pelo país.

Capoeira baiana ‘substituiu’ a Pernada Carioca | Crédito: Manu Dias / Divulgação

O legado da malandragem

Mas apesar dos pesares, a Pernada Carioca é peça importantíssima da história cultural do Rio, da malandragem clássica e da própria formação da capoeira como conhecemos.

Mesmo não sobrevivendo como “estilo”, ela influenciou o jogo mais rasteiro de algumas capoeiras contemporâneas, muitas de suas técnicas foram readaptadas e reintroduzidas por um certo Hélio Gracie no desenvolvimento do que viria a ser o jiu-jítsu brasileiro, e até no linguajar popular de cariocas e simpatizantes, onde “dar uma pernada” virou metáfora de esperteza.

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