Pastor Henrique Vieira chama criação de bancada cristã na Câmara de ‘retrocesso civilizatório’

Deputado do PSOL diz que tentativa de representar todos os cristãos desrespeita o Estado laico e a pluralidade religiosa; Câmara aprovou urgência na tramitação do projeto

O deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) classificou como um “retrocesso civilizatório” a aprovação do regime de urgência para o projeto que cria a chamada bancada cristã na Câmara dos Deputados. A proposta, aprovada nesta quarta-feira (22) por ampla maioria — 398 votos a favor e 30 contrários —, prevê a formação de uma nova liderança parlamentar com direito a voto no colégio de líderes da Casa.

Segundo o parlamentar fluminense, a medida representa “um desrespeito à democracia e ao Estado laico” e tenta atribuir a um grupo político o poder de “falar em nome de todos os cristãos”, o que, em suas palavras, é “no mínimo estranho”.

— A criação de uma bancada cristã que pretende falar o nome de todos os cristãos é um desrespeito à democracia, ao Estado laico, à pluralidade religiosa, à não-crença religiosa e também aos próprios cristãos — criticou Vieira, em entrevista ao Canal UOL. — Um retrocesso civilizatório e democrático que pode abrir precedentes gravíssimos.

Diversidade religiosa e privilégio histórico

Os defensores da proposta justificam a criação da bancada com base no argumento de que cerca de 80% da população brasileira se identifica como cristã, o que, segundo eles, exigiria uma representação formal no Congresso. Para Henrique Vieira, no entanto, essa premissa não se sustenta.

“O cristianismo é muito diverso”, afirmou. “Nenhuma pesquisa indica que se trata de um bloco uniforme que tem os mesmos pensamentos.”

O deputado, que também é pastor, destacou que a iniciativa tenta espelhar as bancadas feminina e negra, que possuem assento no colégio de líderes, mas lembrou que esses grupos foram criados para corrigir desigualdades históricas e dar voz a segmentos sub-representados — algo que, segundo ele, não se aplica aos cristãos.

— Eu sou cristão, mas não dá para dizer que na história do Brasil as liberdades cristãs foram interditadas, suprimidas ou proibidas. Até 1888, o Brasil era oficialmente católico. Mesmo depois da proclamação da República, sabemos que o cristianismo enquanto religião tem uma certa prevalência e privilégio nas estruturas de poder — afirmou.

Crítica ao desequilíbrio religioso

Henrique Vieira também comparou o cenário atual à realidade enfrentada por religiões de matriz africana, frequentemente alvo de intolerância. Ele ressaltou que nunca sofreu hostilidade por sua fé cristã, ao contrário de praticantes de outras tradições religiosas.

— Eu, andando com a minha Bíblia na rua, não sinto medo. Mas as pessoas com seus fios de conta e guias sofrem algum nível de hostilidade em tantos espaços — disse. — Haverá bancada do islamismo, do judaísmo, do espiritismo, das religiões de matriz africana, ou vai ser uma bancada exclusivamente cristã?

O deputado destacou ainda que se licenciou de suas funções como pastor ao ingressar na vida política para não confundir religião e Estado. “Não estou no parlamento para transformar a tribuna do plenário da Câmara em uma extensão do púlpito da igreja”, afirmou.

Proposta de unificação das frentes evangélica e católica

A criação da bancada cristã é uma iniciativa conjunta de integrantes das frentes parlamentares evangélica e católica. O texto prevê a unificação das duas frentes em uma representação institucional, com direito a indicar um líder para participar do colégio de líderes — órgão responsável por definir a pauta de votações e conduzir as negociações políticas no plenário.

Os deputados Gilberto Nascimento (PSD-SP), presidente da Frente Parlamentar Evangélica, e Luiz Gastão (PSD-CE), líder do grupo católico, articulam a proposta, que foi celebrada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Com o novo status de liderança, o futuro representante da bancada cristã poderá votar nas reuniões do colégio de líderes, negociar tempo de fala, participar de acordos de procedimento e ter acesso direto à Mesa Diretora da Câmara.

A proposta ainda precisa ser analisada pelo plenário, mas a aprovação do regime de urgência acelera a tramitação e indica amplo apoio político entre os parlamentares.

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