Há quase 20 anos, quem olhasse para a comissão de frente da Unidos de Vila Isabel veria um espetáculo grandioso assinado por Marcelo Misailidis em homenagem ao Theatro Municipal. O que ninguém via era quem estava por baixo da estrutura. Carregando o peso do cenário, invisível aos olhos do público e dos jurados, estava um jovem que, segundos antes da audição, havia decidido: “eu quero”.

O jovem era Patrick Carvalho, coreógrafo que hoje, aos 41 anos, acumula diversos prêmios do Carnaval — incluindo dois Estandarte de Ouro — e dispensa apresentações para os mais familiarizados com o mundo do samba. Seja brilhando no palco do “Domingão”, na TV Globo, onde foi destaque no quadro “Dança dos Famosos”, ou assinando espetáculos para diferentes escolas, ele construiu uma carreira que extrapola as fronteiras do Sambódromo. 

É na Avenida, porém, onde tudo começou, que ele prepara seu próximo grande ato: traduzir a alma de Ney Matogrosso na comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense, que homenageia o músico com o enredo Camaleônico no domingo de Carnaval, no dia 15, no Sambódromo. 

Ensaio da comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense | Crédito: Reprodução / Redes sociais

Multifacetado, Patrick transita entre o erudito e o popular com a mesma naturalidade com que sobe e desce o Morro do Cantagalo, na Zona Sul, onde nasceu e hoje forma novos talentos. Para o Carnaval 2026, ele une essa bagagem técnica à ousadia que virou sua marca registrada em passagens por escolas como Porto das Pedras, Inocentes de Belford Roxo, Vila Isabel, Paraíso do Tuiuti, Salgueiro, União de Maricá e Imperatriz — como conta em entrevista ao Agenda do Poder na série especial “Artistas da Avenida”.

‘Meu Carnaval começa no lugar de onde venho’

Engana-se quem pensa que a inspiração do coreógrafo vem somente das incontáveis horas de estudo técnico. A base é também construída na vivência de quem cresceu respirando a cultura popular desde o berço. Nascido e criado na comunidade no bairro de Copacabana, ele conta que cresceu em um território onde o samba, a dança e a espiritualidade dividem o mesmo chão. 

“Minha família foi uma das primeiras a chegar no morro. Sempre foi um lugar muito dançante, muito vibrante com a coisa do samba”, conta Patrick Carvalho. Ao lado de casa, a avó mantinha um centro religioso que recebia a vizinhança e fornecia cura espiritual — e que teve grande influência na trajetória do artista. “Minha avó curava as pessoas do morro. Então essa energia ancestral já corre na minha veia”.

A infância foi atravessada por projetos sociais que apresentaram ao então pequeno Patrick o Carnaval como linguagem e possibilidade de carreira. Ainda menino, integrou iniciativas ligadas à folia, como o projeto Golfinhos da Guanabara, onde aprendeu a mexer em fantasia, tocar instrumentos e compreender a engrenagem de uma escola de samba. 

“Meu Carnaval começa já no lugar de onde eu venho, no terreiro que eu nasci, que é a minha comunidade do Cantagalo. É um privilégio nascer numa comunidade que oferece isso para uma criança”, afirma.

Patrick Carvalho em entrevista ao Agenda do Poder | Crédito: Gabriel Damião / Agenda do Poder

O primeiro posto foi a bateria — espaço que o atraía pela força e pelo ritmo —, mas o percurso não se limitou a ela. “[No projeto] A gente fazia um pouquinho de aula de tudo ligado ao Carnaval”, lembra. 

Patrick também se formou na luta: faixa-preta de jiu-jitsu, cresceu sob uma disciplina rígida, que mais tarde se converteria em método de criação. A dança entrou pela mesma porta dos projetos sociais. E, embora ainda não soubesse qual seria seu lugar definitivo no Carnaval, ele já observava, com atenção quase obsessiva, os grandes nomes do samba. “Eu nem chamo de ídolos. Chamo de super-heróis”, diz, ao citar Laíla e outros mestres que marcaram sua formação.

O pacto sob o viaduto

Foi nesse período que o sambista passou a estudar a comissão de frente como poucos. “Já desfilei em bateria desde criança, com carro de som e tudo mais. Só mestre-sala que não fui — mas ainda assim já fiz aula. Mas o quesito que despontei foi a comissão de frente”.

Ele fala sobre como nasceu essa paixão. “Meus ídolos da dança, como Carlinhos de Jesus, Marcelo Chocolate, Carlos Bolacha e Álvaro Reis, que são os profissionais da dança de salão, eram da comissão de frente da Mangueira. Então aquilo dali me deixava muito atiçado. E aí eu comecei a estudar o quesito loucamente. Tinha ensaio na Sapucaí, eu ia pra lá”.

Sem acesso aos bastidores, ele e outros jovens do projeto social se acomodavam sob um viaduto para observar, madrugada adentro, a movimentação dos carros alegóricos. “A gente ficava ali a noite inteira assistindo. Meus pais nem sabiam onde eu estava”, relembra.

Entorno do Sambódromo | Crédito: Reprodução / Prefeitura do Rio

Ali, assistindo aos desfiles, ele fez uma promessa silenciosa. “Eu fiz um pacto comigo de que um dia estaria dentro daquela avenida impactando as pessoas com a minha energia”, conta. “Toda vez que eu entro na avenida, qualquer movimento que meu corpo faz tem a ver com aquilo que eu prometi para mim naquele viaduto”.

Faculdade do samba

O caminho até o centro da cena foi longo. Patrick recorda que bateu à porta de diferentes profissionais e ouviu, repetidas vezes, que os grupos já estavam fechados. Em 2007, surgiu a primeira brecha: integrar a comissão de frente da União da Ilha, mesmo sem remuneração. “Eu falei: ‘não quero receber, eu só quero fazer’. Eu precisava entender como aquilo funcionava”.

A experiência seguinte seria ainda mais emblemática. Na Vila Isabel, dois anos depois, integrou a comissão de frente de Marcelo Misailidis carregando, invisível ao público, a estrutura cenográfica inspirada no Theatro Municipal. “Você ficava embaixo da mesa, ninguém te via. Eu demorei dois segundos para falar assim: ‘quero’. Eu precisava entender como é que fazia aquilo. Minha faculdade foi essa”, afirma. “Aquilo dali me fez sentir que eu fazia parte daquela comissão de frente. Era tudo o que eu precisava”, completa.

Ele lembra que chegou a quebrar o pé na Avenida e precisou ser carregado pelos bombeiros e colegas. Mesmo diante das dificuldades, seguiu até onde deu. 

Em 2010, veio a virada: foi convidado a coreografar a comissão de frente do Alegria da Zona Sul, escola da comunidade onde nasceu. “Nesse momento eu uso toda essa experiência que eu pego ali do Misailidis, da Vila, e começo a fazer comissão de frente. Mas uma coisa é certa e eu não tenho dúvida: eu tinha a sensibilidade pra coisa”, sublinha. O trabalho rendeu título e abriu caminho para novos convites.

‘Vim nesta vida para brincar Carnaval’

A sequência foi rápida. Pouco depois ele foi convidado para trabalhar na Inocentes de Belford Roxo, na qual também foi campeão e garantiu o passaporte para a elite. Foi nesse momento, já no Grupo Especial, que o caminho do coreógrafo se cruzou com o de Laíla. Patrick conta que passou uma temporada na Beija-Flor absorvendo tudo o que podia do lendário diretor antes de assumir a responsabilidade de comandar a comissão de frente da União da Ilha sob a batuta do mestre.

No convívio diário, Patrick absorveu não só técnica, mas filosofia de vida. “Onde ele estava, eu estava. Se ele chegava no barracão às 8h da manhã, eu estava lá. Foi meu maior aprendizado”, conta. 

Foi de Laíla que ouviu a frase que tomou como norte: “Uma vez ele me disse: ‘Patrick, eu vim nessa vida só pra brincar Carnaval’. E eu tomei isso para mim. É o Carnaval que sustenta minha família, minha saúde e a minha aura”.

Laíla influenciou a trajetória de Patrick Carvalho no mundo do samba e do Carnaval | Foto: Reprodução / Agência Brasil

Desfile histórico na Paraíso do Tuiuti 

Todo esse aprendizado culminou, em 2018, em um dos momentos mais marcantes da história recente da Sapucaí. Responsável pela comissão de frente da Paraíso do Tuiuti, no enredo Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?, Patrick levou para a Avenida “um grito de liberdade”, com membros da escola interpretando negros escravizados sendo açoitados por um capataz. 

Segundo o coreógrafo, a criação não nasceu de um conceito abstrato, mas da própria vivência. “Eu só consegui contar aquela história porque é a minha história de vida”, afirma. “Eu, em cima da minha laje, com o conceito da comissão de frente, só conseguia pensar: ‘cara, eu vivo numa senzala. Quando eu tenho que entrar e sair [da favela], perguntam pra onde eu vou. Isso não é normal. Isso aqui é uma senzala. Sou um escravo”.

A leitura virou estrutura cênica. “Pensei: meu tripé vai ser uma senzala. Vai ter um personagem do escravo. Mas quem está batendo na gente? Quem faz tudo isso acontecer? Isso é invisível”, diz. “Então eu coloquei o capataz”.

Comissão de frente da Tuiuti em 2018 | Foto: Reprodução / G1

A resposta à violência, no entanto, não viria apenas pelo confronto. Patrick recorreu à memória afetiva e espiritual para encerrar a narrativa. “Eu coloquei a cura do Preto Velho porque a vida inteira eu fui curado no centro da minha avó. Eu me machucava, ia lá, o Preto Velho botava a plantinha e dizia ‘segura a onda, menino’. Isso eu não inventei. Isso é presente”.

Na Sapucaí, o impacto foi imediato. A comissão de frente do Tuiuti se tornou um marco daquele Carnaval e rendeu ao coreógrafo mais diversos prêmios, incluindo um Estandarte de Ouro. “Ali eu consigo trazer esse ‘boom’ tão desejado por todos os coreógrafos pra dentro da avenida e consigo me firmar como coreógrafo do Carnaval carioca”, crava Patrick, que já acumulava premiações de outros carnavais.

Imperatriz e a homenagem a Ney Matogrosso

Agora, em 2026, o desafio é outro, mas a intensidade é a mesma. Na Imperatriz Leopoldinense, Patrick tem a missão de traduzir a “camaleônica” alma de Ney Matogrosso. A parceria com o carnavalesco Leandro Vieira flui em sintonia fina. “A gente resolve comissões em dez minutos”, brinca. Mas foi o aval do homenageado que deu a certeza do caminho.

Durante uma conversa entre os dois, Patrick perguntou se Ney tinha alguma exigência para a comissão de frente. Ouviu o que todo criador sonha ouvir: “Ele falou: ‘eu confio no artista. O que vocês quiserem fazer, eu sei que vai ser especial’. Aquilo me deixou muito tranquilo”, revela.

“O Ney é o corpo que dança de frente, de costas, e faz você sentir que está ali diante dele. Isso facilita muito. A gente vai levar para a avenida uma comissão que o público vai ver dançando de todos os pontos”, adianta.

Quando o filho ganha o mundo

Quando a Quarta-Feira de Cinzas chega, Patrick confessa que o sentimento não é apenas de alívio, mas de um luto peculiar. “A sensação é: você criou um filho, e ele foi embora, acabou, não vai voltar. E às vezes o seu filho é mal interpretado, e aí te dói. Só você sabe como você criou aquele filho”.

Fora do Carnaval, Patrick atua em outros projetos artísticos, mas mantém como prioridade a devolução ao território que o formou. No Cantagalo, coordena o projeto social “Filhos do Samba”, voltado à formação artística de centenas de jovens. “Eu invisto meu dinheiro, o meu tempo, porque eu preciso alimentar as pessoas com isso que me alimentou e me profissionalizou”.

Ao olhar para trás, do menino que sonhava no viaduto perto do Cantagalo ao coreógrafo que hoje dialoga com ícones da cultura nacional, ele resume a própria trajetória com uma frase que leva como mantra. “Os pássaros ousados voam alto”, sublinha. “Acho que aquele moleque está de parabéns por ter sonhado tão alto assim”, completa.

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