Os sucessivos problemas na operação do sistema de ônibus do Rio voltaram a impactar a rotina dos passageiros nesta semana. Na quinta-feira (15), linhas das viações Real e Vila Isabel ficaram fora de circulação após um ato de rodoviários motivado por atrasos no pagamento de benefícios trabalhistas. O episódio se soma a uma sequência de paralisações, reduções de frota e falhas operacionais registradas desde o segundo semestre do ano passado, envolvendo diferentes empresas do sistema municipal.
A mobilização de quinta-feira foi o segundo registro de interrupção no serviço em apenas quatro dias. Na segunda-feira (12), as mesmas empresas já haviam reduzido a frota alegando falta de combustível para o abastecimento.
O histórico recente mostra que as paralisações tornaram-se recorrentes, principalmente no segundo semestre do ano passado: em dezembro de 2025, uma greve de três dias afetou 24 linhas às vésperas do Natal. Em setembro, a crise atingiu a Zona Oeste, onde funcionários das viações Palmares e Pégaso paralisaram as atividades por mais de 24 horas, afetando 26 linhas em bairros como Campo Grande e Santa Cruz.

Paralelamente, o Ministério Público do Rio instaurou na quinta-feira, dia da última paralisação, um inquérito para apurar irregularidades na prestação de serviço da Real Auto Ônibus. A investigação foi motivada por denúncias de passageiros sobre o mau estado de conservação dos veículos, que incluem problemas mecânicos, falta de climatização e até relatos de infestações de insetos e falta de higiene.
O MPRJ oficializou a empresa e o Consórcio Intersul — que opera empresas como a Real e a Vila Isabel — para que apresentem documentos de manutenção, além de cobrar da Secretaria de Transportes um detalhamento das multas aplicadas e das linhas que seguem efetivamente em operação.
Rodoviários cobram pagamento de benefícios atrasados
O Sindicato dos Rodoviários afirma que as paralisações realizadas pelos profissionais têm como motivação o descumprimento de obrigações trabalhistas por parte das empresas. A categoria reivindica o pagamento de férias, 13º salário, vale-alimentação, verbas rescisórias, além da regularização de depósitos de FGTS e INSS.
Segundo o presidente do sindicato, Sebastião José, parte das empresas que acumulam atrasos trabalhistas está em recuperação judicial, o que agrava a insegurança dos funcionários quanto ao cumprimento dos direitos.
“A Viação Real está desde abril sem recolher o Fundo de Garantia e INSS. Ela colocou mais de sessenta trabalhadores que foram demitidos para aguardarem em casa uma ligação da empresa para receberem a verba rescisória; e os trabalhadores que ainda continuam na empresa veem que ela não irá cumprir nada”, afirmou o sindicalista após o ato dos trabalhadores em frente à garagem da empresa, na quinta-feira.

O grupo sustenta ainda que, por se tratar de um serviço subsidiado com recursos públicos, a prefeitura deveria exigir das concessionárias o cumprimento das obrigações trabalhistas.
Como funciona o pagamento de subsídios
A estrutura financeira do transporte no Rio baseia-se em um acordo judicial firmado em 2022 entre o município, os consórcios e o Ministério Público Estadual. Pelo modelo, que já teve algumas alterações ao longo dos anos, as empresas recebem um subsídio pago por quilômetro rodado. O pagamento, porém, está condicionado ao cumprimento de metas operacionais e à transparência de dados definidos pela Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), como a circulação da frota prevista, o respeito aos itinerários e, mais recentemente, o funcionamento do ar-condicionado.
Caso uma linha deixe de operar, tenha frota reduzida sem autorização ou apresente falhas recorrentes, a prefeitura pode aplicar descontos diários no subsídio ou multas contratuais.
Fiscalização, bilhetagem e mudanças no controle do sistema
A recorrência das crises operacionais ocorre em paralelo à ampliação dos mecanismos de controle do sistema por parte do município. No último semestre, a prefeitura implementou o Jaé, novo sistema de bilhetagem digital controlado pela gestão municipal, e expandiu o uso de dados de GPS e sensores instalados nos veículos, incluindo equipamentos para monitorar a climatização da frota.

O objetivo dessas medidas, segundo a Secretaria de Transportes, foi ampliar a transparência da operação e permitir um acompanhamento mais preciso do serviço prestado pelas concessionárias. Desde novembro, por exemplo, ônibus que circulam sem ar-condicionado em funcionamento adequado podem ter o subsídio suspenso, com base em dados transmitidos em tempo real pelos sensores instalados nos veículos.
Na ocasião da implementação das regras, a secretária municipal de Transportes, Maína Celidonio, afirmou que os novos instrumentos permitiram um monitoramento mais detalhado do sistema.
Divergência entre empresas e poder público
Do lado das empresas, a Rio Ônibus informou, em notas divulgadas durante paralisações recentes, que mantém diálogo com o Sindicato dos Rodoviários para tentar resolver os impasses trabalhistas. Em episódios como a greve das viações Palmares e Pégaso, em setembro, a entidade chegou a atribuir a paralisação a divergências relacionadas a acordos judiciais envolvendo o poder público.
Já a prefeitura sustenta que os repasses de subsídios estão em dia e que questões trabalhistas são de responsabilidade exclusiva das empresas, além das fiscalizações serem necessárias para preservar a qualidade do serviço. Como resposta à reincidência de problemas, o município chegou a aplicar, em dezembro de 2025, uma multa de R$ 4,93 milhões ao Consórcio Intersul como punição decorrente da greve que paralisou as viações Real e Vila Isabel por três dias no fim do ano.
O acordo judicial firmado em 2022 reduziu o prazo das concessões, que agora se encerram em 2028. Até lá, o sistema segue operando sob um modelo que combina subsídios públicos, monitoramento tecnológico e disputas administrativas e judiciais entre empresas, trabalhadores e poder público.


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