No coração de Cabo Frio, entre o sal das praias e o sal das mãos que tingem o chão em nome da fé, ergueu-se neste ano um sinal. Um gesto simples, mas poderoso. O atual prefeito da cidade, Dr. Serginho, não apenas compareceu à confecção dos tapetes de Corpus Christi. Ele se inclinou sobre eles. Puxou a tinta com as mãos, tocou o chão, fez parte da composição que por séculos traduz o sagrado em cor e forma. Participou daquilo que não se aprende em gabinete: o rito que conecta a cidade à sua memória profunda. Não é um gesto novo. É um gesto ancestral. Mas sua presença, ali, no alvorecer de um feriado, carrega algo que há muito não se via na paisagem simbólica da cidade. A ideia de que o poder público pode, ao menos, começar a se reconciliar com a alma popular.
Porque Cabo Frio, mais que sol, mar e brisa, é também silêncio. Um silêncio urbano. O silêncio da espera. Da promessa que não vem. É cidade marcada por um crescimento que foi rápido demais, desordenado demais, desigual demais. Com mais de duzentos mil habitantes permanentes e um fluxo turístico sazonal que dobra a população nos feriados e verões, tornou-se ao longo das últimas décadas uma metrópole sem estrutura. Uma capital informal das carências. E há um dado geográfico fundamental que agrava e singulariza essa trajetória: Cabo Frio é uma cidade assentada sobre uma imensa planície, com poucas elevações, poucas encostas, cercada por dunas e manguezais. Uma paisagem plana e aberta, onde a ocupação humana se expandiu sem os freios naturais de relevo. Onde a urbanização desordenada encontrou terreno fértil para avançar sem planejamento, sem limites, sem freios. É uma cidade em que o traçado urbano não encontra resistências naturais. Por isso mesmo, as consequências da ausência de planejamento são ainda mais graves.
A favelização que se espalha em ritmo crescente pelas margens da cidade, ora sobre os mangues, ora entre as dunas, ora em zonas antes desabitadas, tende, caso não haja intervenção imediata e consistente, a se tornar irreversível. Bairros inteiros nascem da improvisação. Ruas sem nome. Casas sem número. Vidas sem política. E o que hoje é precariedade, amanhã será permanência. Uma permanência marcada pela exclusão. Uma cidade paralela à cidade formal. E é preciso dizer isso com toda clareza: a favelização não é apenas ausência de urbanização. É, sobretudo, a presença da negligência. A institucionalização do abandono.
A cada ano, a população cresce. Atraída pelo apelo turístico, pela economia do verão, pelas promessas de trabalho, renda, moradia acessível. Gente que chega de todos os cantos do estado, do país. Gente que sonha uma vida digna à beira-mar. Mas o mar, embora belo, não oferece respostas sozinho. E quanto mais cresce a população, mais crescem as demandas por políticas públicas de cuidado, assistência e proteção. Mais se exige da prefeitura presença, estrutura, planejamento. Mais se exige do poder público a coragem de governar a cidade real. Não aquela do cartão-postal, mas aquela das filas no posto de saúde, dos ônibus lotados, das ruas alagadas, dos jovens sem escola, dos bairros esquecidos.
Durante anos, a participação da prefeitura nas grandes celebrações da cidade foi apenas isso: participação. Formal, fria, simbólica demais para ser concreta. Cumpria-se o protocolo, tirava-se a foto, abria-se a missa, mas a cidade continuava intocada em suas dores cotidianas. A beleza do Corpus Christi, com seus tapetes pintados por mãos de fé e cor, era deixada à população, às igrejas, aos voluntários. O poder público assistia de longe. E a cidade assistia de longe o poder público se afastar.
Neste ano, algo parece ter mudado. Talvez ainda timidamente. Talvez de forma ainda inicial. Mas mudou. O prefeito não apenas compareceu. Participou. Misturou-se. Declarou que se tratava do resgate da identidade cabo-friense. E, ao dizer isso, tocou em algo maior do que a tradição. Tocou naquilo que a cidade inteira espera: o resgate de si mesma. E a pergunta que se desenha, entre a fé e a política, é se o gesto será símbolo ou continuidade.
Não se trata de endeusamento. Não cabe à análise sociológica ou jornalística conceder louros precoces. Mas é necessário registrar: aparentemente, Dr. Serginho está levando a sério os problemas estruturais da cidade. Sem a retórica das gestões anteriores. Sem a burocracia cínica de quem cumpria cerimônias, mas evitava compromissos. Ele parece querer tratar a cidade como um organismo complexo e ferido, que precisa de mais que slogans. Precisa de ação.
Sua eleição, em 2024, com ampla margem de votos, veio sob a promessa de reconstrução. Promessa que carrega em si o peso do fracasso anterior. E para que não seja apenas mais uma, exige coragem. Cabo Frio precisa de uma política que enfrente, sem ilusões, os problemas crônicos que a transformaram numa cidade com demandas metropolitanas, mas com respostas municipais insuficientes. Mobilidade urbana travada. Estradas estaduais perigosas. Ausência de um sistema público de transporte eficiente. Saneamento ainda deficitário, sobretudo nas periferias. Violência crescente nas áreas abandonadas. Infraestrutura precária em bairros afastados. Ausência de regularização fundiária. Favelização crescente, avançando por mangues e dunas. A lista é longa. E conhecida. Mas por muito tempo foi ignorada.
A cidade precisa de mais que solenidades religiosas. Precisa de um calendário ativo, comprometido, sério. Que inclua ações culturais, eventos turísticos sustentáveis, valorização da identidade local, estímulo à economia criativa, arte, música, teatro, festa, sim. Mas com propósito, com inserção social, com planejamento. Um calendário vivo que não apenas represente a cidade, mas a modifique. Que una as forças vivas de Cabo Frio: sua juventude, seus artistas, suas comunidades, seus professores, seus pescadores, seus idosos, seus servidores, seus comerciantes, sua memória, sua promessa.
A cidade precisa de ruas pavimentadas, mas também de livros nas escolas. De drenagem urbana, mas também de orquestras juvenis. De coleta de lixo eficiente, mas também de arte de rua e feiras populares. De fiscalização urbanística, mas também de educação crítica. Tudo isso é política pública. E tudo isso pode começar com um gesto simples, como o de tingir o sal com as próprias mãos.
É cedo para conclusões. É cedo para certezas. Mas há símbolos que anunciam mudanças. E a política, que tantas vezes é vista como território do engano, também pode ser território do gesto inaugural. Se esse gesto será o início de um novo tempo ou apenas uma nota de rodapé em mais um ciclo de promessas, só o tempo dirá. Mas a cidade, que carrega séculos de história e décadas de abandono, começa a esboçar uma nova forma de olhar para si.
Talvez tudo comece mesmo com um tapete de sal. Talvez o chão, enfim, esteja sendo preparado para que algo verdadeiro passe sobre ele. E que a cidade, feita de fé, sal, dunas, mangues, povo e mar, encontre enfim um caminho de volta para si mesma.
Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor da UFRJ





