Orquestra Jovem Chiquinha Gonzaga leva talento feminino do Rio ao Carnegie Hall

Grupo formado por jovens de comunidades e escolas públicas se prepara para representar o Brasil em Nova York com repertório que celebra grandes nomes da música nacional

São 25 meninas, cada uma com um instrumento nas mãos e um sonho em construção. Nathaly, Mavi, Vanessa, Ana Clara, Clarysse, Jhennifer, Stephanie — ou simplesmente “as Chiquinhas”, como elas mesmas se chamam com orgulho.

Unidas pela música, as integrantes da Orquestra Sinfônica Jovem Chiquinha Gonzaga embarcam na próxima quinta-feira (30) para uma viagem histórica: a primeira apresentação no palco do Carnegie Hall, em Nova York, um dos mais prestigiados do mundo.

A violinista Clarysse Amaral, de 21 anos, moradora da Mangueira, na Zona Norte do Rio, resume o sentimento de quem vê a música transformar sua trajetória.

“Estava meio perdida, sabe? Tentei ser atendente, trabalhar com administração e até como trancista, mas não conseguia me encaixar. Entrar para a orquestra mudou tudo. Nada se compara à música”, conta a jovem, que agora se prepara para o teste de canto da UFRJ.

As integrantes da OSJ Chiquinha Gonzaga têm entre 16 e 22 anos e nasceram de projetos sociais do Instituto Brasileiro de Música e Educação (IBME) em escolas públicas do estado. O grupo completo reúne 52 jovens musicistas com histórias de superação, talento e determinação.

As irmãs Jhennifer e Stephanie Costa, de Duque de Caxias, encontraram no violino uma vocação inesperada. “Foi num concerto de Natal, quando vimos um menino pequeno fazer um solo lindo. Ali, o violino escolheu a gente”, lembra Jhennifer, que pretende cursar licenciatura em Música na Unirio.

Inspiração em Chiquinha e nas mulheres do samba e da história

O concerto “Sons do Brasil – New York” terá repertório inteiramente brasileiro, com obras de Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi e, claro, Chiquinha Gonzaga — a pioneira que inspira o nome e o espírito do grupo.

“Eu fui conhecer mais a fundo a história da Chiquinha Gonzaga quando entrei na orquestra. Ela foi muito importante para nós. Ajudou a conquistar direitos autorais, o que para os músicos é essencial. Para nós mulheres, a importância dela vai além da música. Acho que não tinha nome melhor para representar a nossa orquestra”, afirma a contrabaixista Mavi Vasconcelos, de 20 anos, nascida em Petrópolis.

No comando da regência, Priscila Bonfim acompanha de perto o amadurecimento das jovens musicistas. “É estimulante ver essas meninas, que entraram muito jovens na orquestra e hoje já colhem os frutos de tanto trabalho. São fortes musical e artisticamente, e isso transparece dentro e fora do palco”, elogia.

De Nova York para o futuro

A apresentação no Carnegie Hall contará com participações especiais da soprano Manuela Korossy, brasileira bolsista da Juilliard School, e da cantora Flor Gil. “O Carnegie Hall é um lugar histórico. Estar ali com uma orquestra formada apenas por meninas brasileiras deixa tudo ainda mais especial”, afirma Flor.

Manuela, que também se apresentará, destacou o caráter simbólico da ocasião. “Vai ser um evento histórico. A música clássica em espaços tradicionais é dominada por estruturas masculinas e elitizadas. Este concerto será o oposto disso”, analisa.

Durante a passagem pelos Estados Unidos, as Chiquinhas participarão de masterclasses na Juilliard School e na Universidade de Columbia, visitarão o Metropolitan Opera e se apresentarão no Consulado Brasileiro em Nova York e em Washington. Entre uma apresentação e outra, também haverá tempo para explorar a cidade — uma pausa merecida em uma jornada marcada por talento, disciplina e sonhos que ecoam muito além das partituras.

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