Opinião: Candidatura do Psol no Rio prejudica o projeto de Lula, que é Eduardo Paes

Decisão da federação Psol-Rede é incompreensível do ponto de vista da reeleição do presidente; soa como ingratidão e divisionismo

Marco Damiani*

Em sintonia com o que apontam as pesquisas de opinião, a candidatura do ex-prefeito Eduardo Paes ao governo do Rio de Janeiro está colocada, no plano nacional, como uma das principais favoritas a vencer as eleições estaduais. Aliado de primeira hora do presidente Lula, que apoiou com recursos e parcerias diversos projetos de suas gestões na Prefeitura da capital fluminense, Paes está em condições de retribuir, no campo eleitoral, a aliança estratégica firmada com o governo federal.

Na pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira, 27, o ex-prefeito lidera a corrida eleitoral com uma margem de nada menos que 28 pontos percentuais sobre os segundos colocados, o ex-governador Anthony Garotinho e o presidente da Assembleia Legislativa do estado, Douglas Ruas. A perspectiva é de vitória já no primeiro turno, que será alcançada se Paes obtiver 50% dos votos válidos mais um, excluídos, portanto, os brancos e nulos. Esta tarefa será facilitada caso o candidato do PSD firme alianças táticas com as forças que apoiam Lula no plano nacional.

Nesta quinta-feira, 29, a federação PSOL-Rede lançou o nome do economista e vereador na cidade do Rio de Janeiro, William Siri, na disputa ao governo do estado. Na medição da Quaest, ele larga com 2% das intenções. As chances reais de Siri decolar nas preferências populares são, reconhecidamente, muito baixas.

O papel que Siri pretende desempenhar na eleição está mais ligado à maior exposição das duas legendas no pleito, à procura de ativar as chances da chapa à Câmara Municipal. Há, ainda, a intenção de mostrar oposição a todos os demais candidatos, inclusive Paes. Um dos riscos da escolha por candidato próprio está em somar para a possibilidade de a projetada eleição de Paes, que interessa diretamente à reeleição de Lula, ser protelada para o segundo turno. Neste medida, lançar Siri como candidato se torna um gesto temerário, incompreensível à luz do quadro nacional.

No governo federal, o Psol tem no ministro Guilherme Boulos, secretário-geral da Presidência da República, o seu quadro mais destacado. Homem de confiança de Lula, que bancou politicamente a sua candidatura à Prefeitura de São Paulo, em 2024, Boulos tem desempenhado um papel de aglutinação de movimentos populares e grupos políticos que têm sintonia com as diretrizes da administração federal e, ao mesmo tempo, atuam para preservar a sua identidade partidária. A julgar pelo resultado da convenção da federação Psol-Rede, Boulos fracassou, no Rio, em seu trabalho.

Em São Paulo, Lula em pessoa tratou das articulações que fizeram da ex-ministra Marina Silva, do Rede Sustentabilidade, a sua candidata ao Senado Federal. Hoje, ela é a favorita da eleição, liderando as pesquisas ao lado da também ex-ministra Simone Tebet, do MDB e igualmente incensada pelo presidente. À sua maneira, o presidente construiu no estado uma frente de centro-esquerda em torno do projeto de reeleição que une a todos os partidos que orbitam a administração federal.

Na ótica de fortalecimento, no Rio de Janeiro, do projeto de reeleição de Lula, o lançamento da candidatura de Siri é incompreensível em termos políticos e eleitorais. No primeiro caso trata-se, no mínimo, de uma ingratidão frente ao prestígio que Lula tem emprestado às legendas do Psol e da Rede em sua administração, valorizando os seus principais quadros. Reciprocidade, em política, é sempre uma regra de ouro.

Na frente eleitoral, a presença do Psol-Rede na disputa tem potencial, no pior cenário, para causar um estrago de grandes proporções. Isso seria concretizado se faltarem a Paes, para vencer em primeiro turno, os votos que venham a ser dados à federação bipartidária.
Está claro que o interesse maior do campo democrático e popular na arena eleitoral nacional que se forma, com a extrema-direita mostrando, ainda, grande resiliência no próprio Rio de Janeiro, é a reeleição do presidente. Segundo alguns levantamentos, Lula ainda está em situação de empate técnico com o ultradireitista Flávio Bolsonaro, do PL.

Para combatê-lo, o melhor que a federação Psol-Rede poderia fazer seria estabelecer uma aliança formal com Paes, em nome do fortalecimento de Lula, que lhes dá apoio e guarida. A alternativa de chapa própria, aprovada em convenção, é uma vitória dos interesses menores, a antítese da proposta de unidade no campo da centro-esquerda. Trocando em miúdos, prejudica o presidente.

*Marco Damiani é editor especial do Brasil 247 no Rio de Janeiro

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