Gaúchos, catarinenses e moradores daquela estranha cidade cinza ao sul do Brasil costumam gozar cariocas e simpatizantes dizendo que basta o termômetro bater os 25°C, que a turma resolve fazer um fondue. Para justificar essa marra toda, eles apresentam números como o o dia mais frio registrado na história do Brasil: -11,6 °C.
Esse recorde é da cidade catarinense de Xanxerê, atingido no dia 25 de junho do distante ano de 1945. A segunda menor temperatura da história do Brasil foi aferida no dia 14 de julho de 1933, em Palmas (não a de Tocantins, claro, mas do Paraná), quando o termômetro atingiu -10 °C. E o terceiro lugar no pódio ficou com Valões (Santa Catarina) que registrou -9,8 °C em 14 de julho de 1947. E se você acha isso frio, sabe de nada, inocente. Relaxe e pegue a visão, porque vai levar um tempo para a Primavera florescer.
Portanto, imagine um hotel sem calor, sem conforto, sem hóspedes (óbvio) com vistas panorâmicas de imensos campos de gelo e a decoração predominante em tons de branco polar. E o staff? Uma equipe espartana de cientistas russos. Porém não se engane: o lugar não é turístico, é antes de tudo um bravo, um recordista.
Afinal, quem mais pode se orgulhar de registrar a temperatura mais fria já anotada oficialmente em um local habitado pelo homem: –89,2°C registrados 42 anos atrás, no dia 21 de junho de 1983, em uma estação de pesquisas na Antártica. Para azar daqueles cientistas, curiosamente esse mesmo ano foi marcado por um dos verões mais quentes do Hemisfério Norte, com temperaturas médias de 33°C na Europa. Mas ainda assim alguns deles seguem lá, felizes da vida (ou não). Brrrr…

Onde fica
A Estação Vostok está situada no interior da Terra da Princesa Elizabeth, na Antártida Oriental, a aproximadamente 1.301 km do Polo Sul Geográfico, sobre o manto de gelo. Ela se encontra a cerca de 3.488 m acima do nível do mar — ou seja, num lugar onde pinguim usa gola rolê e calça pantufas de lã.
Lá não há sinal de vida urbana, além da estação fundada pela União Soviética em 1957. Existe apenas o céu límpido, cerca de 120 dias de céus sem sol (a famosa noite polar) e ventos frios constantes. A estação é até hoje operada pela Rússia e virou praticamente um enclave congelado e autossuficiente no coração do gelo.

Quantas pessoas vivem lá?
Durante o verão antártico, Vostok abriga cerca de 30 cientistas e engenheiros; e no inverno, esse número despenca para aproximadamente 15. O inverno lá é tão brutal que poucos se arriscam a pôr o nariz para fora: equipamentos congelam, oxigênio rarefeito (devido à altitude), e o isolamento chega ao extremo. Sobra aquela camaradagem forçada entre o grupo reduzido — fora o consumo industrial de vodka.
Alguma coisa sobrevive a essa temperatura?
Fauna e flora na região da Vostok praticamente não existem. O lugar é um deserto polar, com precipitação anual mínima (cerca de 22 mm de neve) e as temperaturas médias ao redor de –50 °C impedem qualquer vida visível. Nenhum vegetal sobrevive.
A estação nem sequer vê insetos. A única chance de alguma forma de vida ser encontrada são microrganismos em lagos subglaciais, como o Lago Vostok, isolado há milhões de anos.
O que acontece com o corpo humano numa temperatura dessas?
Atletas de vários esportes costumam mergulhar em banheiras de gelo após exercícios intensos para auxiliar na recuperação muscular e reduzir a inflamação e dor. A imersão em água fria pode ajudar a diminuir o inchaço, reduzir a dor muscular e acelerar a recuperação.
Mas para sobreviver em Vostok, é preciso muito mais do que agasalhos. Normalmente, a aclimatação ao frio extremo leva de uma semana a até dois meses para os recém-chegados. No período de adaptação, sintomas como dores de cabeça, falta de ar, aumento da pressão arterial e sangramentos nasais são comuns. E ainda fica pior.
O dia a dia é uma luta mental. O isolamento total por até 8 meses, a escuridão polar constante (com direito a uma aurora boreal de quando em quando) e ausência de qualquer contato com o mundo exterior causam tontura, insônia, depressão e até alterações comportamentais conhecidas como winter-over syndrome. No ano passado, jornais russos relataram que dois pesquisadores chegaram as vias de fato após uma discussão durante uma singela partida de xadrez.

A base brasileira na Antártida já enfrentou um frio desses?
Na Estação Comandante Ferraz (base brasileira na Ilha Rei George), o registro mais baixo documentado foi de –28,5 °C, ocorrido em 5 de agosto de 1991. Nossa base está localizada numa região de tundra, um bioma caracterizado por temperaturas muito baixas, ventos fortes e solos permanentemente congelados, conhecidos como permafrost, que impedem o crescimento de árvores.
A vegetação, adaptada a essas condições, consiste principalmente de musgos, líquens, gramíneas, arbustos anões e outras plantas rasteiras. A temperatura média anual é próxima de –1,8 °C, ou seja, frio intenso, mas não chega aos extremos das regiões interiores do continente. Ainda bem.


Deixe um comentário