Inaugurado em janeiro de 2022 pelo governador Cláudio Castro, o programa Cidade Integrada prometeu levar aos mais de 4,5 mil moradores da Favela Muzema, no Itanhangá, na Zona Oeste, desenvolvimento econômico, infraestrutura e principalmente segurança pública. Na época, a comunidade já contava com negócios irregulares explorados pela milícia, como a venda de sinal clandestino de tv cabo e edificação de prédios em loteamento clandestinos. Passados quase dois anos, a paz continua longe de ser alcançada. Em vez disso, uma guerra explodiu pela disputa de territórios na localidade, envolvendo milicianos e traficantes.
O embate que se estende a comunidades vizinhas como Rio das Pedras e Vargem Grande e Pequena, além da Gardênia Azul, ajudou a impulsionar o índice de homicídios na 31ª Área Integrada de Segurança Pública (Aisp), que engloba às favelas citadas, oito bairros ( incluindo Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Pedra de Guaratiba), e a própria Muzema. De janeiro a setembro, foram registrados na 31ªAisp um total de 69 assassinatos, contra 26 dos nove primeiros meses de 2022, um acréscimo de 165,4% na comparação entre os dois períodos.
Entre o fim da noite de domingo (5/11) até a madrugada da última segunda-feira (6/11), a Muzema voltou a ser palco da violência. Paramilitares que controlam a maioria da favela teriam tentando retomar áreas nas localidades conhecidas como Mirante e Quarenta e Oito, estas sob controle de traficantes da maior facção criminosa do Rio. Câmeras de segurança flagraram homens armados de fuzis correndo pelas ruas da comunidade. Em alguns registros, era possível ouvir gritos de “Vai morrer Urso” (apelido do traficante Edgar Alves de Andrade, também conhecido como Doca)”. Apesar do tiroteio, não houve feridos, mortos ou presos.
Segundo a polícia, partiu de Doca a ordem para que os bandidos conhecidos como Matiê, Gardenal e Tiriça tomassem toda a comunidade da Muzema e as favelas vizinhas. Quem mora no local diz que é difícil viver em uma comunidade disputada por traficantes e milicianos. E que a paz prometida com o Programa Cidade integrada ainda não chegou.
— É difícil (viver na Muzema). Há milícia e o tráfico também avançou. Praticamente toda semana uma pessoa desaparece. Basta deixar de pagar o que é exigido por eles ou que um lado ache que a pessoa é ligada a um dos bandos — disse um morador, reconhecendo que a infraestrutura melhorou com o programa.
— Tem muita rua com asfalto e algumas áreas que alagavam passaram por obras e agora não alagam mais. Porém, falta muita coisa. Por exemplo, precisei de quase três meses para marcar uma consulta para meu filho — alegou.
Uma moradora disse que no início do Cidade Integrada, uma viatura costumava ficar 24 horas em um dos pontos da comunidade. Há três meses isso teria mudado.
— A viatura ficava num dos pontos e tinha também um policiamento ostensivo. Agora não tem mais a patrulha 24 horas e só de vez passa uma ronda — disse.
No dia 5 de maio, três pessoas foram mortas a tiros na Muzema. As vítimas trabalhavam na construção de um prédio, próximo a uma área de mata na localidade conhecida como Siri, quando de 15 a 20 traficantes cercaram o local. O bando vasculhou os celulares dos trabalhadores e executou o trio a tiros. O caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios da capital.
Procurado, o governo estadual disse que o programa Cidade integrada tem proporcionado melhorias na vida dos moradores da Muzema. Entre elas estão, a instalação de um posto do Detran para a emissão de documentos, desenvolvimento de ações culturais, instalação de uma base do Samu pra atendimento móvel de urgência e construção de uma escola modular de ensino médio, em Rio das Pedras, que vai atender também aos alunos da Muzema.
O governo também informou que a Polícia Militar tem atuado para conter os efeitos da disputa de facções. Sobre a demora para marcação de consulta médica, a Secretaria municipal de Saúde disse que há um processo seletivo para contratação de dois profissionais para completar a carga horária da Clínica de Família padre Marcos Vinicius Miranda Vieira, que atende a região. Abaixo, as notas enviadas pelo governo estadual e Secretaria de Saúde do município.
Com informações do GLOBO.





