Em 1823, enquanto o jovem Império do Brasil tentava se equilibrar sobre as próprias pernas, um alemão visionário caminhava pelas margens da Lagoa de Araruama preparando-se para executar uma missão que mudaria a economia do país. Autorizado por Dom Pedro I, ele fundou no município de Cabo Frio a Companhia Salinas Perynas, registrada na história oficial do turismo e do patrimônio estadual como a primeiríssima indústria de sal em solo brasileiro. A iniciativa não era apenas um negócio promissor, mas um projeto de soberania nacional capaz de arrancar o país da dependência absoluta das importações que vinham de Portugal.
A capacidade de cristalização natural do sal na região de Perynas já era conhecida pelos povos originários desde antes da invasão europeia. Foram necessários séculos de monopólio colonial, uma independência nacional e um empresário alemão determinado para que aquele potencial viesse a se converter em indústria. O resultado foi uma operação que atravessou reinados, repúblicas e ditaduras, empregou centenas de trabalhadores e produziu, segundo a pesquisa do historiador João Christovão, do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, milhões de toneladas de sal ao longo de quase 180 anos de atividade.
Hoje a área de Perynas é propriedade particular, e para visitar o sítio histórico, é necessário autorização prévia dos proprietários. Mas o conjunto de edificações históricas que guarda, incluindo a casa, a capela e o casario que pertenceram à família do ex-governador Miguel Couto Filho, tornou-se objeto de um esforço crescente de preservação. Em 2024, o Conselho de Patrimônio de Cabo Frio encaminhou ao Instituto Municipal do Patrimônio Cultural um pedido de tombamento de toda a área da antiga companhia, abrangendo a antiga fábrica, o conjunto histórico da casa do ex-governador, a Capela Santa Rosa de Lima, os esquadros de salinas e o horto, com cinco mil espécies de restinga. O silêncio que agora domina os antigos casarios esconde as memórias de centenas de trabalhadores que passavam os dias sob o sol escaldante, manejando rodos de madeira para extrair o precioso mineral. Essa indústria pioneira estabeleceu as bases de uma identidade regional tão forte que, mesmo após a desativação da produção, o sal continua impregnado na história, na arquitetura e na alma dos cabo-frienses.
Qual a origem das Salinas Perynas?
A história das Salinas Perynas começa muito antes da chancela imperial. A capacidade de cristalização natural do sal na região da Lagoa de Araruama já era conhecida pelos povos originários desde antes da invasão portuguesa. Mas a produção em larga escala só se tornou possível após o fim do Contrato do Sal, que proibia a fabricação do produto no Brasil. Em 1824, Dom Pedro I concedeu ao empresário alemão Luís Lindenberg a posse das terras de Perynas e o direito de nelas produzir.
Luís Lindenberg morreu em 1850 deixando aos seus descendentes uma grande fortuna. Os 109 escravos que chegou a possuir foram responsáveis diretos pela construção e funcionamento da primeira salina comercial do Brasil, bem como pelo resto do seu patrimônio que, em grande parte, não foi mantido por seus herdeiros.
Em 1891 a maior parte de Perynas foi vendida ao Banco do Comércio e Indústria do Brasil e, em 1895, adquirida por José Caetano Jalles Cabral que, em 1923, a vendeu a seu genro, o médico e professor de medicina, Miguel Couto. Sob a gestão da família Couto, a empresa atravessaria suas décadas mais politicamente conectadas e prósperas.

O que ela representou para a Região dos Lagos?
O Ciclo do Sal, como ficou conhecido, foi a principal atividade econômica da região por mais de um século, antes de ser gradualmente substituído pelo turismo e pela especulação imobiliária a partir dos anos 1980. Apelidado de “ouro branco” pelo seu poder de circulação econômica, o sal gerou uma cadeia produtiva que envolvia desde a extração nas salinas até o transporte lacustre e marítimo, passando pela criação de bairros inteiros formados por trabalhadores e suas famílias.
Em 1930, já havia cerca de 120 salinas entre Cabo Frio, São Pedro da Aldeia e Araruama, ocupando aproximadamente 19 milhões de metros quadrados e produzindo 80 mil toneladas de sal. A pioneira de Lindenberg havia criado, décadas antes, o modelo de negócio que todos os outros seguiriam.
Segundo o pesquisador João Christovão, a Salinas Perynas chegou a ter cerca de 500 trabalhadores fixos registrados, exercendo enorme influência local. A empresa desenvolveu um sistema paternalista de relações com sua força de trabalho, que incluía uma série de benesses e mecanismos de controle. Foi a primeira salina da região a ter uma taverna onde seus trabalhadores podiam comprar gêneros de primeira necessidade. Em 1928 foi inaugurada uma escola de ensino primário para os filhos dos trabalhadores. Havia ainda uma capela católica, um posto de saúde e um campo de futebol. Era uma “Cidadela do Sal”, inteiramente dependente de um único mineral e de um único patrão.

Por que ter uma indústria do sal no século XIX era tão importante?
Para o leitor do século XXI, acostumado a esquecer no bolso da calça os sachês que pegou na lanchonete do cinema para salgar a pipoca, pode parecer difícil compreender o peso político e econômico do sal no Brasil oitocentista. Desde 1690 um édito real proibia que os brasileiros produzissem sal. Portugal não queria nem pensar em concorrência para aquilo que ela própria vendia caro para a colônia.
No mundo anterior à refrigeração industrial, o sal era um produto de valor estratégico. Ele permitia conservar alimentos por longos períodos, garantindo o abastecimento de cidades, navios e tropas militares. Carnes salgadas, peixes secos e outros produtos conservados dependiam diretamente desse recurso.

Como funcionava a produção?
A produção de sal em Perynas seguia o método tradicional de evaporação solar. A água do mar era conduzida para grandes tanques rasos, onde permanecia exposta ao sol e ao vento. Com a evaporação gradual da água, os cristais de sal começavam a se formar até atingirem o “ponto de colheita”.
O processo exigia monitoramento constante. Trabalhadores controlavam a circulação da água entre diferentes tanques, acompanhavam os níveis de salinidade e realizavam a coleta manual dos cristais. Era um trabalho pesado, realizado sob forte calor e refletido pelo brilho intenso das salinas. Apesar da simplicidade tecnológica, o sistema era extremamente eficiente graças às condições climáticas privilegiadas da Região dos Lagos.
O que é o conjunto histórico da casa de Miguel Couto?
Dentro da área de Perynas, além das salinas desativadas e da paisagem de restinga, sobrevive um conjunto de edificações que funcionou como sede social e residencial da família que comandou a empresa por décadas. O Conjunto Histórico da Casa de Miguel Couto é formado por um Marco, o Casario Miguel Couto, a Capela Santa Rosa de Lima e a Casa anexa. A área é propriedade particular e é necessário autorização para visitação.
Um projeto de lei aprovado pela Câmara Municipal de Cabo Frio incluiu no tombamento municipal o conjunto histórico da casa do ex-governador Miguel Couto, o casario, a piscina e a Capela Santa Rosa de Lima, além do portal de acesso à área de Perynas. A justificativa do tombamento reconhece que as salinas representam parte fundamental da identidade de Cabo Frio, não apenas pelo aspecto econômico, mas também pelo seu valor cultural, arquitetônico e social, marcando a formação histórica do município.

O sonho do Museu do Sal
A Perynas encerrou suas atividades industriais na primeira década do século XXI, derrotada por uma combinação que não perdoa: a concorrência do sal do Rio Grande do Norte, que ganhou impulso com a inauguração do portoem Areia Branca em 1974, e o aumento do turismo favorecido pela inauguração da Ponte Rio-Niterói.
Em 1983, a companhia tornara público seu interesse em deixar a produção de sal para atuar no turismo, mudança que nunca chegou a se concretizar. Perynas encerrou suas atividades abandonando ruínas e marcas cristalizadas como sal na memória dos trabalhadores que lutam até hoje na justiça para receber seus direitos.
Mas segundo ativistas e pesquisadores locais, hoje o sonho é que a área venha a abrigar futuramente um Museu do Sal em uma salina em funcionamento, integrando preservação histórica e turismo de forma permanente.


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