Há momentos em que falar demais não é apenas excesso. É violência simbólica. O Brasil vive um desses momentos quando tenta discutir, em voz alta demais, aquilo que só pode ser compreendido com escuta, tempo e alguma reverência diante da dor social. No caso recente envolvendo Padre Júlio Renato Lancellotti e Dom Odilo Scherer, o falatório não apenas falha em esclarecer. Ele impede a compreensão do cenário, do drama humano envolvido e da história profunda que sustenta esse trabalho pastoral.
Fala-se muito, mas quase nada se escuta. Opina-se com rapidez, mas sem lastro. Produz-se indignação em série, mas raramente reflexão. O barulho cresce na mesma proporção em que o essencial desaparece. O que se perde nesse processo não é apenas a verdade factual.
Perde-se, sobretudo, a capacidade de compreender a dramaticidade da população de rua, dos desvalidos, dos corpos rejeitados por uma sociedade fundada sobre desigualdades históricas, coloniais e escravistas que jamais foram plenamente enfrentadas.
A população em situação de rua no Brasil não é um acidente urbano. Ela é produto histórico. É resultado direto de um país que aboliu formalmente a escravidão sem integrar os libertos à cidadania. De um país que urbanizou sem incluir. Que cresceu concentrando renda, terra, oportunidades e dignidade.
Os homens e mulheres que hoje dormem sob marquises, viadutos e calçadas são herdeiros de um processo secular de exclusão. São corpos que carregam a memória social do abandono, da segregação e do descaso que atravessam séculos de nossa história social.
É nesse território de dor que o trabalho do Padre Júlio, particularmente desde os anos 1990, se inscreve. Um trabalho cotidiano, silencioso, persistente, que não nasceu agora, não responde a modas e não depende de cliques.
Um compromisso pastoral construído ao longo de décadas como expressão concreta da opção preferencial pelos pobres, assumida pela Igreja Católica no Brasil desde as Conferências Episcopais Latino-Americanas de Medellín, em 1968, e Puebla, em 1979, reafirmada em Aparecida, em 2007, e vivida, no chão duro das cidades, por agentes pastorais anônimos e dedicados.
Transformar esse trabalho em espetáculo é uma forma sutil de esvaziá-lo. A exaltação midiática e a euforia das redes sociais, embora aparentemente elogiosas, acabam por ocultar a verdadeira grandiosidade da ação pastoral.
O Padre Júlio não é um herói solitário. Ele não atua contra a Igreja. Ele não é exceção. Ele é fruto de uma tradição institucional, teológica e pastoral que atravessa a Arquidiocese de São Paulo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e a própria história recente da Igreja Católica no país.
Enquanto isso, o escárnio dirigido a Dom Odilo cria um ambiente de terrorismo moral. Um clima em que se acusa sem informar, se ironiza sem compreender, se julga sem escutar. O cardeal de São Paulo é lançado ao centro de uma narrativa simplificada, como se fosse antagonista de uma causa que, na realidade, ele integra e supervisiona pastoralmente.
O ataque substitui a análise. A suspeita ocupa o lugar do fato. A gritaria dispensa a investigação. Este tipo de terrorismo moral não nasce do interior da Igreja. Ele vem, curiosamente, de fora, de observadores externos, muitas vezes alheios à vida eclesial e às práticas concretas que moldam o trabalho pastoral. Isso não invalida críticas. Mas exige honestidade intelectual.
Há uma diferença profunda entre crítica informada e ataque performático. Entre análise sociológica e linchamento simbólico. Entre discordância e escárnio. O falatório atual raramente respeita essa diferença. Ele prefere a caricatura à complexidade.
O mais revelador, porém, surge quando o ruído diminui. Quando se observa com atenção, percebe-se que a Igreja está unida. Unida com o Padre Júlio. Unida com Dom Odilo. Não há cisão dramática. Não há guerra interna. Há unidade pastoral, institucional e teológica em torno da centralidade dos pobres, dos descartados, dos que vivem à margem de um sistema social que os empurra para as margens físicas e simbólicas do país.
Essa unidade não se manifesta em gritos. Ela se manifesta em práticas. Em abrigos. Em sopões. Em acolhimento. Em escuta. Em presença.
É significativo lembrar que a CNBB definiu, ainda em 2024, o tema da Campanha da Fraternidade de 2026, que será vivida ao longo da Quaresma de 2026 com o tema Fraternidade e Moradia e o lema bíblico Ele veio morar entre nós (Jo 1,14), propondo um foco claro na moradia digna como direito humano fundamental e chamado à ação concreta em favor dos empobrecidos e sem teto do Brasil.
Essa escolha não foi resposta a um caso midiático. Ela vem sendo trabalhada, discernida e amadurecida no seio da Igreja desde 2024, como expressão de uma leitura crítica da realidade brasileira em que o drama dos sem-teto é urgência social e teológica e não epifenômeno de uma crise de imagem.
Ou seja, o compromisso da Igreja com os desvalidos não é oportunista. Ele é estrutural. Ele antecede o barulho. Ele sobrevive a ele. O falatório das redes tenta capturar esse compromisso, mas não o compreende. Porque compreender exigiria silêncio. Exigiria tempo. Exigiria reconhecer que a miséria não se resolve com indignação performática, mas com políticas públicas, presença institucional e trabalho cotidiano.
É nesse ponto que a frase de Louise Glück emerge como chave sociológica e ética: “Sou atraído pela elipse, pelo não-dito, pela sugestão, pelo silêncio eloquente e deliberado.”
O silêncio, aqui, não é ausência de posição. É método. É recusa a participar de uma lógica que transforma a dor em espetáculo. A elipse protege o humano da brutalidade da simplificação. O não-dito impede que a miséria seja instrumentalizada por narrativas fáceis.
A sugestão abre espaço para a escuta. O silêncio deliberado devolve densidade ao pensamento. Falar demais sobre os pobres costuma ser uma forma de não ouvi-los. Gritar em nome deles frequentemente encobre sua voz real. O trabalho pastoral sério sabe disso. Ele age mais do que proclama. Ele permanece mais do que viraliza. Ele constrói mais do que performa.
Talvez o maior equívoco do falatório atual seja imaginar um conflito onde há convergência. Imaginar uma oposição onde há unidade. Imaginar silêncio como omissão, quando ele é, na verdade, cuidado. Em um país marcado por desigualdades históricas profundas e por uma herança escravocrata nunca plenamente elaborada, a pressa em julgar revela mais sobre quem julga do que sobre quem é julgado.
O silêncio, nesse contexto, torna-se um gesto radical de responsabilidade social e intelectual. Ele não apaga o drama dos desvalidos. Ao contrário. Ele o respeita. Ele se recusa a transformá-lo em mercadoria discursiva. Ele protege aquilo que o barulho ameaça destruir: a possibilidade de compreender, com seriedade e humanidade, a dor dos que sempre foram empurrados para fora da história oficial.
Em um país que fala demais e escuta pouco, o silêncio não é fuga. É lucidez. É ética. É a última forma de cuidado diante dos desvalidos. Ele não nega o conflito. Ele o complexifica. Ele preserva a dignidade daqueles que, por multisseculares razões sociais, são frequentemente reduzidos a números, estatísticas e estereótipos.
O silêncio eloquente é, assim, um gesto de amor e, neste caso, o mais profundo gesto de compreensão diante da humanidade ferida que nos circunda.
Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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