Sob o asfalto movimentado e o calor senegalês da Guanabara, existe uma cidade paralela e com visitação proibida. Diferente dos túneis do metrô, ela é composta por uma rede de galerias históricas construídas desde século XVIII, que desempenharam papel crucial no abastecimento de água, na drenagem e no desenvolvimento da futura capital do Império. Não chega a ser um cenário de histórias do Batman, nem permite passeios teatralizados como os que acontecem nos subterrâneos de Edimburgo, na Escócia. Estas estruturas, hoje em grande parte esquecidas, seladas, ou integradas a sistemas modernos, são vestígios materiais de uma sofisticada e árdua engenharia voltada para domar a natureza e abastecer uma metrópole em crescimento. E mesmo que não possam ser visitadas, podem ser lidas e vivenciadas nos relatos de historiadores, pesquisadores e servidores dedicados.

Mas as galerias subterrâneas históricas do Rio de Janeiro são muito mais do que relíquias arquivadas em plantas antigas. Elas formam uma segunda geografia, uma cidade que das águas dos pântanos, mangues lagoas, moldou e permitiu a cidade do asfalto. De Botafogo a São Cristóvão, da Carioca a Laranjeiras, a história da Guanabara se desenhou também na luta para controlar, conduzir e distribuir este recurso vital.

Conhecer este “Rio invisível” é entender que a verdadeira sustentação de uma cidade muitas vezes reside não no que se vê, mas no que, há séculos, funciona diligentemente nas entranhas da terra. A próxima vez que a chuva cair forte e você der a sorte das águas desaparecerem rapidinho pelas bocas de lobo, lembre-se que elas devem estar seguindo o mesmo caminho que há séculos, as mãos dos escravizados lhes designaram.

Mapa do Rio de Janeiro, em 1831 | Crédito: Reprodução

As águas do Carioca

Quando se fala em água na Guanabara, o nome que imediatamente vem à mente de qualquer carioca ou simpatizante é o dos Arcos da Lapa, parte de um sistema bem mais amplo. Mais do que o famoso aqueduto elevado, o complexo começava nas nascentes do Rio Carioca, em Santa Teresa. Lá, a água era captada e conduzida por uma canoa de pedra (como se chama uma galeria subterrânea de alvenaria) que percorria o morro em declive. Esta obra monumental é minuciosamente descrita por Júlio Cesar Bandeira em Água do Rio: O aqueduto da Carioca e seus chafarizes.

Esse conduto subterrâneo, com seções de até dois metros de altura, seguia coletando águas de outras nascentes menores ao longo do caminho, antes de chegar aos Arcos da Lapa. A galeria era periodicamente limpa e inspecionada por escravos e, posteriormente, por trabalhadores assalariados. Era, portanto, um verdadeiro rio artificial e controlado, construído no subsolo para preservar a qualidade da água e garantir seu fluxo por gravidade até os chafarizes públicos.

Pequena cachoeira que faz parte do Rio Carioca, patrimônio da cidade | Crédito: Reprodução

Começo da expansão

Iniciado no século XVIII, o aqueduto levava água desde a nascente do Rio Carioca até os reservatórios e chafarizes do centro, com cerca de oito km de extensão. Mas após descer os Arcos, a água não terminava seu percurso. Uma extensa e intrincada rede de canoas mestras e galerias de distribuição formava um verdadeiro sistema circulatório urbano.

Canos de ferro e túneis de pedra seguiam sob as ruas para alimentar chafarizes, fontes públicas e, posteriormente, as residências mais abastadas. Jaime Larry Benchimol, em Pereira Passos: um Haussmann tropical (1990), detalha como a reforma urbana do início do século XX encontrou e precisou reorganizar essa rede imperial, muitas vezes obsoleta, medieval e insuficiente.

Essas galerias subterrâneas eram integradas a estruturas maiores de drenagem de águas pluviais, também antigas. O crescimento da cidade sobre aterros e mangues exigiu uma complexa rede de drenagem, parte da qual foi sendo construída desde o período colonial. O livro Túneis urbanos do Rio de Janeiro, de Maria Lopes da Silva (2008), embora focando em túneis, contextualiza essas obras de infraestrutura hídrica que criaram um verdadeiro emaranhado sob o solo do Centro histórico, muitas vezes reutilizado e adaptado ao longo dos séculos.

As gambiarras da Zona Sul

Após levar água até o Centro, o sistema foi expandido, e ramais secundários, utilizando tubulações de ferro e condutos subterrâneos, buscavam atender às chácaras e residências da Zona Sul. Um relatório do prefeito Pereira Passos no início do século XX já indicava a necessidade de melhorias nessa antiga rede herdada do Império, que se estendia para bairros como Botafogo.

Estudiosos como Eloisa Pinheiro, em Botafogo: tempos de outrora, citam também a existência de uma infraestrutura hídrica que percorria o eixo da rua São Clemente, progressivamente canalizado no final do século XIX, transformando-se em uma longa galeria subterrânea, onde um homem poderia percorrer agachado. Paralelamente, o Rio D’ouro, que nascia no Corcovado, foi objeto de grandes obras. Sua canalização é documentada em plantas da Câmara Municipal, analisadas em obras como Evolução urbana do Rio de Janeiro, de Maurício de Abreu.

Já em Laranjeiras, as chácaras e palácios na bacia do Rio Carioca possuíam sistemas particulares de captação. Podiam ser tanto cisternas para armazenar água da chuva e evitar enchentes ou mesmo elaboradas galerias de drenagem para escoar o excesso de água dos terrenos acidentados que podiam ter até 1,5 m de altura. A Fundação Casa de Rui Barbosa possui estudos sobre a história da região que abordam essas soluções particulares de infraestrutura.

Além disso, o Rio Carioca em si, ao cruzar o bairro, foi sendo canalizado e retificado por escravizados ao longo do tempo para controle de enchentes e ganho de espaço urbano, criando galerias subterrâneas que são a continuação da obra imperial. E todo mundo sabe como são feitas obras públicas no Brasil. Todo o processo e plantas fazem parte de um processo documentado nos relatórios da Comissão de Saneamento das Freguesias Rurais do final do século XIX.

Do Maracanã para as torneiras da Corte

Uma obra menos conhecida, mas de grande importância para o abastecimento da Zona Norte imperial, foi o Aqueduto do Maracanã, que captava água do Rio que apelidou o estádio Mário Filho para abastecer a Quinta da Boa Vista e o Palácio Imperial.

Evidências históricas mencionam a existência de canais e condutos ligados a esse sistema irrigador e de abastecimento, embora a documentação arquitetônica detalhada sobre galerias subterrâneas específicas seja menos difundida nos poucos registros acessíveis amplamente hoje.

Aqueduto do Maracanã foi utilizado para abastecer o Palácio Imperial | Crédito: Reprodução

O Aqueduto do Maracanã utilizava tanto trechos elevados (pequenos aquedutos sobre arcos) quanto trechos em galeria subterrânea de alvenaria de pedra. Essas galerias foram construídas para seguir a topografia do terreno de forma mais eficiente e econômica, conduzindo a água por gravidade desde as captações no rio até os reservatórios e fontes da Quinta da Boa Vista.

A existência dessas galerias de pedra é atestada em estudos históricos sobre São Cristóvão, como o livro História dos bairros: São Cristóvão, de Mário de Oliveira (1990), e em plantas históricas do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). É um sistema paralelo e de escala menor ao da Carioca, mas igualmente representativo dos esforços de engenharia hídrica do período.

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