Vamos ser honestos: cariocas e simpatizantes vivem uma relação esquizofrênica com a água. A gente passa o verão reclamando que a água da torneira está com gosto de terra (alô, geosmina!) e paga cinco reais numa garrafa de “água mineral” no sinal de trânsito, suando em bicas debaixo de uma canícula de quase 50ºC. Mas a ironia suprema é que, enquanto você reclama da sede ou do calor no engarrafamento da Dutra, é bem provável que esteja literalmente “boiando” sobre um tesouro líquido inestimável. É como morrer de sede sentado em cima de um frigobar trancado.
Localizado sob o distrito de Piranema, no município de Seropédica, na Baixada Fluminense, o aquífero homônimo é uma reserva subterrânea de água doce com qualidade reconhecida por especialistas e capacidade estimada para abastecer emergencialmente toda a população da Guanabara. Descoberto há décadas, o manancial permanece, no entanto, em uma espécie de limbo estratégico: nunca foi integrado de fato ao sistema de abastecimento público e hoje jaz sob a sombra de uma das maiores centrais de tratamento de resíduos (vulgo lixão) da América Latina.
Pois é. Enquanto as big techs correm para instalar data centers no Brasil e o mundo descobre que cada selfie gerada por inteligência artificial custa uma garrafinha d’água, o aquífero Piranema ganha um valor que nem os mais otimistas geólogos dos anos 1980 poderiam prever. Ele não mudou. O mundo é que ficou com mais sede.
Mas cá entre nós: tentar entender o aquífero Piranema é como montar um quebra-cabeça em que metade das peças está soterrada, a outra metade está num processo judicial e alguém derrubou café no manual de instruções. Não há placa na estrada, não há concessão de uso, nem sequer um número oficial absolutamente preciso de quantos litros ele ainda guarda. Aos 45 minutos do segundo tempo, o Rio de Janeiro descobriu que tem um plano B para não morrer de sede. Só que esqueceram de verificar se o plano B está ou não sendo contaminado.

O que é o aquífero Piranema?
Imagine uma esponja gigante, feita de areia e argila, enterrada no quintal. Isso é mais ou mens o Aquífero Piranema. Tecnicamente, ele é uma formação geológica sedimentar do tipo “livre” (ou freático), o que significa que a água está bem perto da superfície. Em alguns pontos, basta cavar dois metros para achar o lençol freático.
Localizado na Bacia Hidrográfica do Guandu, ele não é um rio subterrâneo correndo em cavernas (como nos filmes), mas sim água preenchendo os espaços vazios entre os grãos de areia no subsolo. É essa característica arenosa que o torna um excelente filtro natural, tão bom quanto aquele de barro da cozinha da vovó, garantindo, em seu estado original, uma água de qualidade surpreendente, muitas vezes superior à dos rios da superfície que recebem esgoto in natura.
A peculiaridade geológica da região faz com que o aquífero seja particularmente vulnerável. A extração de areia em cavas, que resulta na abertura de grandes lagoas artificiais, expõe o lençol freático e altera a dinâmica natural das águas subterrâneas. De acordo com a dissertação de mestrado do pesquisador Paulo Henrique Zuzarte Ferreira, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a área é historicamente um importante polo de extração de areia para a construção civil, atividade que ocorre justamente acima da reserva hídrica.

Quanta água ele contém?
Bom, importante lembrar que não estamos falando de algum açude ou da caixa d’água da sua casa. Estamos falando de volumes bíblicos. Estudos hidrogeológicos, incluindo dados compilados em teses da UFRRJ e relatórios da Agência Nacional de Águas (ANA), estimam as reservas do Piranema em cerca de 2,93 bilhões de metros cúbicos.
Para se ter uma ideia da dimensão, esse volume representa cerca de 13% de toda a reserva de água subterrânea da Região Hidrográfica II do estado (que abrange 10 municípios como Volta Redonda ou Itatiaia por exemplo). É uma “poupança” hídrica gigantesca que o Rio de Janeiro mantém debaixo do colchão, enquanto vivemos contando as moedas (ou as gotas) do Rio Guandu na superfície.
Ele está sendo explorado de alguma forma?
Formalmente, não. Mas, para choro e ranger de dentes de qualquer cientista, pesquisador ou planejador urbano, de uma forma que os faria arrancar os cabelos a pinça. O aquífero Piranema não possui outorga para abastecimento público e não integra os sistemas de captação da Cedae. O que existe, na prática, é uma exploração indireta e não declarada.
Essa exploração “invisível” é massiva. Existem milhares de poços ilegais e particulares na região de Seropédica e arredores. O uso é intenso na agricultura local e em condomínios que, cansados da intermitência do abastecimento público, furam o chão e bebem direto da fonte. É o “velho oeste” da água: quem tem uma arma, perdão, uma broca, se garante frente aos demais.
Ele seria capaz de abastecer quantas pessoas e por quanto tempo?
Aqui os números mostram o verdadeiro poder estratégico desse aquífero. Segundo estimativas citadas por especialistas e compiladas em portais de geologia como o do pesquisador Ferdinando de Sousa (baseado em dados da CPRM), se o sistema Guandu colapsasse amanhã (uma catástrofe não absolutamente impossível), o Aquífero Piranema teria potencial para abastecer toda a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, de aproximadamente 6,7 milhões de habitantes, por cerca de um mês.
Dizer que um manancial é capaz de abastecer uma metrópole inteira não é pouca coisa. A declaração indica que se trata de um aquífero de grande porte, possivelmente com reservas estratégicas para um período de crise hídrica severa. O aquífero Piranema é, neste momento, um seguro contra sede que ninguém leu a apólice direito.

Ele abrange quantos municípios?
O “corpo” principal do aquífero se estende por uma área de aproximadamente 180 a 200 km². Alguns pesquisadores chegam a cravar 500 km². O coração dele bate em Seropédica (que está praticamente inteira sobre ele) e Itaguaí.
Porém, suas franjas e influências hidrogeológicas tocam partes de Japeri, Queimados e a Zona Oeste da capital, especificamente na região de Santa Cruz. É uma mancha subterrânea que ignora as fronteiras desenhadas pelo poder público e conecta toda essa região industrial e universitária por baixo da terra.
Tudo bem, mas de onde saiu essa história de que ele é um “tesouro enterrado”?
Você já tocou no seu celular depois de passar uma hora no Tinder por uma hora? Ele esquenta, certo? Agora imagine um prédio inteiro cheio de supercomputadores processando Inteligências Artificiais, vídeos em 4K, jogos online e transações bancárias 24 horas por dia. Datacenters são as fornalhas do século 21. Para evitar que bilhões de chips de silício derretam a si mesmos, é necessário resfriá-los. E a forma mais eficiente e barata de fazer isso, em grande parte do planeta, é usando água.
O Relatório de Sustentabilidade da Microsoft de 2022 revelou que o consumo de água da empresa saltou 34% em um ano, atingindo 1,7 bilhão de galões (cerca de 6,4 bilhões de litros), em grande parte impulsionado pela incorporação de inteligência artificial generativa em seus serviços. Um estudo da Universidade da Califórnia Riverside estimou que o treinamento do GPT-3, sozinho, consumiu aproximadamente 700 mil litros de água potável. A cada 20 a 50 interações com um chatbot, calculam os pesquisadores, mais 500 ml vão para o ar das torres de resfriamento.
Nesse cenário, onde a IA consome volumes obscenos de H2O, água doce deixou de ser apenas uma questão de saneamento. Tornou-se insumo tecnológico estratégico. E o aquífero Piranema, adormecido sob a areia e o lixo, acordou num mundo onde cada gigabyte processado tem, literalmente, um preço mais concreto do que líquido.

É verdade que apesar de tudo isso ele está ameaçado?
Sim, e o maior inimigo do Piranema não é a seca, é a ganância. A região de Seropédica é famosa pelos seus areais (extração de areia para construção civil). Para tirar a areia, as mineradoras removem a camada de solo que protege o aquífero, expondo a água à superfície.
Isso cria as famosas “lagoas azuis” que podem ser vistas de avião. O problema é químico: a exposição desses sedimentos ao oxigênio acidifica a água (fenômeno da drenagem ácida), liberando metais como alumínio e sulfato, tornando a água imprópria. Além disso, a região abriga o aterro sanitário de Seropédica (que recebe o lixo do Rio) e sofre com a falta de saneamento básico. Estamos basicamente cavando buracos na proteção do nosso tanque de água potável e jogando lixo em cima.
Se quisermos garantir que o “ouro líquido” sob nossos pés continue disponível para as futuras gerações, entender, proteger e planejar o uso consciente do Piranema não é apenas ciência: é uma questão de sobrevivência.


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