Ela é a prova viva de que o Rio de Janeiro não se resume a praias lotadas em Copacabana, helicópteros sobrevoando Ipanema ou políticos investigados em apartamentos do Leblon. No noroeste do estado, divisa com o Espírito Santo, existe um lugar carinhosamente apelidado de “Sertão Fluminense”, não de gozação ou porque alguém quis exagerar no marketing, mas porque a vida ali realmente exige fé, paciência e resistência — três qualidades que até o gado leiteiro já desenvolveu para sobreviver.
Fundada oficialmente em 1939, Bom Jesus do Itabapoana viveu dias de glória com o café, quando sobrados elegantes e coretos bem-cuidados faziam inveja às vizinhanças. O tempo, entretanto, tratou de colocar tudo no devido lugar: o café murchou, a pecuária tomou o trono e Bom Jesus voltou a ser o que sempre foi: um pedaço de sertão no meio do Rio de Janeiro, sem praia, glamour, mas muita missa e, acima de tudo, bandas de coreto.
Hoje, com cerca de 36 mil habitantes, o município mantém índices sociais medianos, uma economia modesta e uma crença inabalável em suas festas religiosas. Afinal, se a chuva é incerta e a economia idem, é melhor ter fé que o Espírito Santo dará conta do recado.

Por que Sertão Fluminense?
O apelido nasceu da junção de fatores: clima seco, geografia agreste e isolamento histórico em relação ao resto do estado. O problema aqui não é nem o volume da chuva, mas sim a desigualdade da distribuição.
Entre maio e setembro, a estiagem castiga o campo, deixando agricultores e pecuaristas em contagem regressiva por nuvens que nunca aparecem. Já de novembro a janeiro, a chuva vem com tudo, lavando as ruas, colinas e esperanças acumuladas.
Para completar, a vegetação alterna entre pastagens ralas e áreas de transição de Mata Atlântica, ou seja, o apelido “Sertão Fluminense” não é invenção literária: é dado estatístico.
História
A ocupação da região começou ainda no século XIX, e sua história está marcada pelo auge e declínio monocultura brasileira do café. Mas aqui a glória teve prazo de validade curto. Com o fim dos impérios agrícolas dos velhos coronéis a cidade viu sua economia desabar junto com os antigos sobrados e casarões — dos quais só restaram meia dúzia.
Com a emancipação em 1939, “BJ” herdou o desafio de se reinventar. E a aposta foi na pecuária leiteira e na agricultura de subsistência, com destaque para milho, feijão e cana.
Nos indicadores, o retrato é revelador: o Índice de Progresso Social aponta 56,18 pontos, o que deixa Bom Jesus na 65ª posição entre os municípios fluminenses. Já o IDHM é de 0,715, considerado “alto”, mas que garante apenas a 50ª posição no Estado. Em bom português: não é desastre, mas dá para passar de ano.
Hoje, o passado cafeeiro funciona como lembrança incômoda, mas também como ponto de orgulho, mesmo que em tom nostálgico.

Onde fica?
Localizado no noroeste do Rio de Janeiro, Bom Jesus do Itabapoana é marcado pelo relevo ondulado, de morros e colinas suaves, com áreas de planície próximas ao rio Itabapoana, que desenha a divisa natural com o Espírito Santo.
O município pertence à microrregião de Itaperuna, o que significa que está na borda do Estado, geográfica e politicamente. Essa posição periférica contribuiu para que o apelido de “Sertão Fluminense” ganhasse ainda mais força: está longe do mar, longe do glamour e ali coladinho na realidade dura do Brasil profundo.
O que tem para fazer por lá?
Bom, quase todas as festas são religiosas. O município celebra o padroeiro Bom Jesus em agosto, São Sebastião em janeiro e Nossa Senhora Aparecida em outubro. Mas se hoje a garotada no celular acessa a playlist mais recente da última semana, até poucas décadas atrás a trilha sonora era ao vivo, com as tradicionais bandas de coreto.
A cidade se orgulha de manter em atividade grupos hoje centenários como a Lira 14 de Julho. Nascidas no auge do café, elas foram as responsáveis por embalar festas religiosas, desfiles cívicos e tardes preguiçosas na praça.
O curioso é que, enquanto muitas cidades abandonaram a tradição, BJ segue dando espaço às bandas, que se tornaram símbolo de resistência cultural. Tocam dobrados, valsas e até arranjos de músicas populares, lembrando que, antes do Spotify, era no coreto da pracinha que se descobria o que o povo cantava.
Como chegar lá?
De carro, são cerca de 330 km a partir da Guanabara, em uma viagem de cinco horas pela BR-101 até Campos dos Goytacazes e, depois, pela BR-356. O trajeto oferece a experiência autêntica do interior: pedágios, caminhões e paisagens de canaviais.
Para quem prefere ônibus, as passagens custam entre R$ 150 e R$ 180, e o tempo médio é de 7h30 a 8h. Não é rápido, mas, convenhamos, ninguém viaja ao Sertão Fluminense esperando alta velocidade.


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