O que se sabe sobre a ‘serial killer’ envolvida em morte no Rio

Universitária é apontada pelo Ministério Público como assassina em série que usava veneno para eliminar as vítimas e roubar seus bens

A prisão da motorista Michelle Paiva da Silva, no Engenho Novo, na Zona Norte do Rio, por suspeita de envolvimento na morte do próprio pai, levou a polícia a uma figura central e mais sombria: Ana Paula Veloso Fernandes, de 35 anos, estudante de Direito acusada pelo Ministério Público de ser uma ”serial killer” responsável por pelo menos quatro homicídios cometidos em São Paulo e no Rio.

Quem é Ana Paula Veloso Fernandes?

Até setembro, Ana Paula se identificava como aluna de uma faculdade particular de Direito em Guarulhos, na Grande São Paulo. Por trás da rotina universitária, porém, segundo o Ministério Público, estava uma mulher inteligente, fria e manipuladora, que usava a aparência de estudante dedicada para conquistar a confiança das vítimas.

A universitária foi presa preventivamente em julho e se tornou ré na Justiça pelos assassinatos de Marcelo Hari Fonseca e Maria Aparecida Rodrigues, em Guarulhos; Hayder Mhazres, um tunisiano de 21 anos, em São Paulo; e Neil Corrêa da Silva, um aposentado de 65 anos envenenado no Rio de Janeiro a mando da própria filha.

Como ela agia?

Ana Paula se aproximava das vítimas fingindo amizade, namoro ou solidariedade, sempre com o objetivo de se beneficiar financeiramente, apontaram os investigadores. Seu padrão de ação envolvia o uso de veneno em comidas e bebidas, seguido de tentativas de confundir a polícia, criar falsas narrativas e até se colocar como vítima.

Um dos casos emblemáticos ocorreu em Guarulhos, quando a assassina levou à universidade um bolo supostamente envenenado, alegando ter sido alvo de uma ameaça. A polícia descobriu que ela mesma havia preparado o doce, numa manobra para culpar outra pessoa. ”O que vimos foi uma mulher manipuladora, consciente e capaz de inverter os papéis de vítima e algoz”, descreveu na ocasião o delegado Halisson Leite Hideão, do 1º DP de Guarulhos.

Vítimas mortas atribuídas a Ana Paula

31 de janeiro – Guarulhos (SP): morte de Marcelo Hari Fonseca, 51 anos, dono do imóvel onde Ana Paula e a irmã Roberta moravam.

11 de abril – Guarulhos (SP): morte de Maria Aparecida Rodrigues, envenenada após comer bolo e café oferecidos por Ana Paula.

26 de abril – Duque de Caxias (RJ): morte de Neil Corrêa da Silva, 65, pai de Michelle Paiva. A comida, uma feijoada, teria sido envenenada por Ana Paula, contratada pela filha da vítima.

23 de maio – São Paulo (SP): morte do tunisiano Hayder Mhazres, namorado da estudante. Ela teria fingido estar grávida e tentado extorquir dinheiro da família dele após o crime.

Em todos os casos, a causa provável é envenenamento, mas os laudos definitivos ainda são aguardados. Pelo menos três corpos foram exumados a pedido do Ministério Público.

A relação com a filha da vítima no Rio

A estudante de Direito e motorista de ônibus Michelle Paiva da Silva, de 42 anos – Crédito: Reprodução

A prisão de Michelle Paiva da Silva, 42 anos, motorista e colega de Ana Paula na faculdade, foi o ponto de virada da investigação. Segundo a polícia, Michelle teria pago R$ 4 mil à amiga para que viajasse de Guarulhos até Duque de Caxias e envenenasse o pai, Neil Corrêa da Silva, com uma feijoada. A comida foi liquidificada por Michelle antes de ser servida, por causa das dificuldades de deglutição do idoso.

Mensagens de celular revelaram conversas entre as duas sobre a ”receita” e o plano, identificado pela sigla ”TCC”: um disfarce para ”Trabalho de Conclusão de Curso”, usado como código para cobrar o pagamento. O corpo de Neil foi exumado nesta quinta-feira (9)  para novos exames periciais.

Ana Paula está presa em São Paulo desde julho. A irmã gêmea, Roberta Cristina Veloso Fernandes, acabou detida em agosto. Os policiais prenderam Michelle na última terça-feira (7). As três respondem por homicídio qualificado e associação criminosa.

O Ministério Público classifica Ana Paula como ”uma verdadeira serial killer”, e a polícia apura se outras mortes suspeitas podem estar relacionadas à estudante. Os promotores destacam a frieza e a capacidade de manipulação da acusada: ”É uma pessoa inteligente, consciente do que fazia e disposta a usar qualquer meio para alcançar seus objetivos”, disse o delegado Halisson Leite.

O que ainda falta esclarecer

A polícia aguarda os laudos toxicológicos dos corpos exumados para confirmar o tipo de substância usada nos envenenamentos. Os investigadores também tentam identificar quem fornecia o produto químico e se Ana Paula chegou a testar o veneno. Há ainda relatos de que ela matou dez cães para medir o efeito da substância.

As investigações continuam tanto no 1º DP de Guarulhos quanto na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, em cooperação com o Ministério Público de São Paulo.

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