Nos últimos meses, o estado do Rio registrou casos graves envolvendo ataques de cães da raça pitbull. Um dos mais recentes aconteceu em Irajá, na Zona Norte da capital, quando um menino de 4 anos morreu após ser mordido pelo cachorro, no quintal da casa de um conhecido da família. Vídeos relacionados, que circulam nas redes sociais, mostram os animais soltos na rua, sem nenhum tipo de proteção. Os episódios acendem um alerta: qual o risco real? Existem formas de se proteger?

Pitbull que atacou menino de 4 anos em Irajá foi castrado e microchipado — Foto: Divulgação/Prefeitura do Rio

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ), a média anual de atendimentos antirrábicos relacionados a acidentes com cães vem se mantendo estável na última década: cerca de 38.452 acidentes, sendo 42.189 em 2023, 41.417 em 2024 e 31.750 em 2025, até o momento.

No município do Rio, os números seguem a mesma linha. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) registrou 15.472 acidentes com cães em 2024 e 13.392 neste ano, até agora. O sistema não registra a raça do animal agressor.

Embora não haja aumento, os números mostram que os acidentes são frequentes e representam um desafio para a saúde pública.

Especialistas ouvidos por Agenda do Poder defendem que a prevenção passa pelo tutor, não pela raça. A criação adequada, a socialização e o cumprimento das regras de segurança são apontados como as formas mais eficazes de evitar acidentes, sem transformar pitbulls ou qualquer outro cão em vilões. Eles explicam ainda porque os ataques se tornaram tão comuns no estado.

Entre estatísticas e histórias marcantes

Em abril de 2024, a escritora Roseana Murray, então com 73 anos, sofreu um ataque violento de três pitbulls enquanto caminhava na praia de Saquarema, na Região dos Lagos. Ela perdeu um braço e uma orelha e precisou passar 13 dias internada no Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), em São Gonçalo.

“Minha percepção do tempo não foi normal, porque eles arrancaram pedaços de mim, eram três. Eu não vi a pessoa que me salvou. Minha consciência ia e voltava, a minha dor era uma coisa alucinante. Quando eu cheguei no hospital, lembro de uma roda de médicos. Não tive medo de morrer”

Roseana Murray, escritora atacada por Pitbulls

Roseane passou por inúmeras cirurgias, estéticas e reconstrutivas. Durante o processo traumático, teve a ideia de escrever um livro infantil: O braço mágico

Livro lançado pela escritora | Reprodução

A história é dedicada aos dois netos da escritora, ao maratonista Eduardo Neves, primeiro a chegar no local do acidente e que conseguiu espantar os cachorros, e ao Heat, onde ela ficou internada.

“Eu me recuperei porque escrevi um livro explicando para as crianças sobre o meu acidente. Não coloquei cachorro para as crianças não sentirem medo. Ele tem sido trabalhado nas escolas para fazer inclusão, concorreu ao prêmio Jabuti, e, com ele, eu consegui não ficar no trauma”, enumera.

Hoje, quando lembra do episódio, ela vê importância em discutir medidas de prevenção e responsabilidade dos tutores. 

“O portão estava aberto, faltou cuidado. Um cachorro desses jamais poderia, mesmo com o portão fechado, estar na frente da casa. Poderiam estar atrás, tinha um quintal enorme. Isso foi um erro que mudou a minha vida. Não era a primeira vez que os cachorros se soltaram e foram para a rua. A situação dos Pitbulls no país é tratada com desleixo”, diz.

Por que os acidentes acontecem?

Para o veterinário e professor Flávio Moutinho, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a discussão sobre ataques de cães não pode ignorar o papel dos tutores. Ele explica que comportamentos agressivos, na maioria das vezes, não surgem por acaso.

“Eu entendo que a agressividade está muito associada ao tratamento que esse animal recebe. Obviamente que quando um animal como um Pitbull ou um Rottweiler agride uma pessoa, as consequências são muito mais drásticas do que outras raças de animais, principalmente de menor porte. Demonizar determinadas raças não é um bom caminho”, afirma.

Segundo ele, fatores como territorialidade e manejo inadequado são decisivos: “Cães são animais que têm seu comportamento natural e este muitas vezes engloba a questão da territorialidade. Assim, a agressão pode ocorrer em função do animal ter sentido seu território invadido por outro”.

O professor Ney Mello, do Departamento de Ciências da Universidade do Estado do Rio (Uerj), concorda que o comportamento dos cães está ligado ao ambiente, mas acrescenta nuances importantes sobre genética e instinto.

“Cães são animais, e refletem o ambiente e o tutor. E, às vezes, simplesmente reagem como animais que são. Algumas linhagens podem ter uma tendência a reagir mais ao ambiente. Um Pincher se comporta diferente de um labrador a uma ameaça, por exemplo”, diz.

Segundo ele, a discussão sobre ‘raças perigosas’ costuma ignorar dados amplos de comportamento.

“A mordida de um pitbull é uma das mais fortes e o acidente é grave, mas um Pincher pode ser mais agressivo, só que não dilacera uma pessoa. Aliás, o chowchow está entre as dez raças com mais ataques a humanos. O instinto e a genética têm alguma influência, mas os fatores ao redor do cão, do ambiente ao tutor, influenciam muito mais”, pontua o especialista.

O papel do tutor e o que pode evitar novos casos

Se, entre os especialistas, há consenso de que o comportamento do cão é resultado direto da relação que mantém com o ambiente e com o tutor, os profissionais de adestramento reforçam essa leitura com a prática do dia a dia. 

Segundo o adestrador Dhiogo Ugolini, da Urban Dog, o problema não está concentrado em uma raça específica e, sim, na forma como esses animais são criados e selecionados.

“Qualquer raça pode se tornar agressiva. Só que, hoje, o pitbull não é uma raça comercial. Eles geralmente são feitos em canis clandestinos ou por pessoas conhecidas que tem um macho e uma fêmea e decidem colocar para cruzar, apenas por questão de beleza. Não há uma seleção genética da raça para que possa realmente ter cães mais sociáveis. Então, às vezes, a maneira como esse cão absorve estímulos externos vai ser sensível”, explica o especialista.

Para Dhiogo, a combinação entre genética e ambiente é determinante, e a falta de socialização é um dos principais gatilhos para comportamentos agressivos.

“O que molda o comportamento? Genética e ambiente. Por exemplo, meu cão não foi socializado. Por que? Porque ficou o tempo todo no fundo do meu quintal, preso, não tinha contato com pessoas, com crianças, não ia para a rua”, ele completa: “Se o dono deixa o cão acorrentado o tempo todo, ele vai começar a ter experiências ruins. Caso não tenha uma socialização correta nos primeiros 45 dias do cão até os cinco meses, onde a gente apresenta todos os estímulos do mundo para ele, pode apresentar alguns problemas comportamentais”.

Adestradores Dhiogo Ugolini e Melvin Kiefer | Foto: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

O especialista lembra ainda que um ataque raramente acontece ‘do nada’: “Não existe isso do cão atacar do nada, ele vai mostrando alguns sinais até o momento do ataque. Um sinal bem claro de desconforto, que muitas pessoas ignoram, é lamber o próprio focinho. Depois escala para um rosnado, e aí vem a agressividade. Existem situações em que essa escalada é muito rápida, mas geralmente tem essa escadinha”.

O secretário municipal de Proteção e Defesa dos Animais, Luiz Ramos Filho, afirma que a guarda responsável é o principal instrumento para evitar acidentes.

“Tutores de animais de raças que apresentam agressividade não devem sair com o animal sem a focinheira e sem a guia. Isto é lei. E a lei deve ser cumprida. É preciso que os tutores tenham responsabilidade. Quem tem cão com potencial de agressividade deve tomar as medidas para preservar a integridade das outras pessoas. Não se pode botar a vida de ninguém, nem de outros animais, em risco por negligência na guarda de um animal”, diz.

“Sem dúvidas o erro mais comum é as pessoas transitarem com animais soltos e, também, animais sendo conduzidos por pessoas fisicamente incapazes de contê-los”, concorda Moutinho.

O que diz a lei?

A legislação estadual 4.597, de 16 de setembro de 2005, que regula a circulação de cães considerados de ‘guarda’ ou de ‘maio potencial ofensivo’ (como pitbulls, fila, doberman e rotweiller), determina uma série de exigências para os tutores. 

Esses animais devem ser castrados a partir dos seis meses de idade, estão proibidos de frequentar praias e, em qualquer área pública, só podem circular usando focinheira e presos à guia, sempre conduzidos por um adulto.

Deixar o cão solto, mesmo que por instantes, configura infração. O descumprimento dessas normas pode resultar em multas que chegam a cerca de R$ 22,6 mil e, em caso de reincidência, o animal pode ser apreendido pelas autoridades.

O adestramento como prevenção

O adestrador Melvin Kiefer reforça que o adestramento é uma saída para solucionar parte do problema. Ele reforça que o método deveria ser entendido como prevenção e não como correção emergencial.

“O ideal é sempre começar trabalhando com reforçamento positivo. O adestramento é muito mais preventivo. Mas as pessoas procuram quando já têm o problema, quando deveria ser o contrário”

Melvin Kiefer, adestrador

Para ele, cães de grande porte exigem ainda mais atenção justamente pelo potencial de dano físico.

“Qualquer cão de grande porte é preciso ter um cuidado a mais. Então, da mesma forma que precisamos adestrar todos os cães, independente da raça e do porte, com os de grande porte é necessário ter um cuidado a mais por conta do potencial destrutivo que ele pode gerar, por uma questão anatômica”, reforça.

Assim como Dhiogo, Melvin aponta que cães sinalizam desconforto antes de uma agressão: “Os principais sinais são rosnar, mostrar os dentes”.

E lembra que a ausência de limites — ou o uso inadequado de punições — também contribui para comportamentos instáveis.

Melvin mostra técnicas para adaptar o cão a usar focinheira sem estresse | Foto: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

“Muitas pessoas acham que é só brigar e corrigir, só que não é isso que devemos nos preocupar no início. A preocupação deve ser ensinar esse cão. É muito injusto brigar com o animal e punir, se não mostramos o que ele deve fazer”, detalha.

Uma das dicas apontadas pelo especialista é transformar objetos de proteção, como a focinheira, em algo prazeroso para o animal. Por exemplo: ao introduzir, colocar um punhado de ração na mão.

“Se esse cão fosse preparado para os diversos contextos que ele vai passar na vida, de ser apresentado a crianças, pessoas, outros animais, com certeza os ataques poderiam ter sido evitados. A responsabilidade do tutor é máxima, o dono tem que entender que ele é responsável pelo cão, então, tem que se preparar e prepará-lo. O cão não é o culpado”, finaliza.

Prevenção e informação

Em casos de ataques, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio orienta que a pessoa agredida deve lavar imediatamente os ferimentos com água corrente e sabão neutro, e buscar atendimento em uma unidade de saúde mais próxima. 

Somente este ano, até o mês de dezembro, o Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura do Rio acolheu 67 cães que atacaram pessoas. Em relação ao animal, a recomendação é mantê-lo sob observação clínica pelo tutor por um período de dez dias para acompanhar as condições de saúde.

Se houver suspeita clínica de raiva, o usuário deve entrar em contato com a Central 1746 de Atendimento ao Cidadão para orientações sobre o recolhimento do animal.

“Quando a prefeitura recebe chamados na central 1746, de maus-tratos ou de animais que atacam, envia fiscais ao local para avaliar a situação, orientar as pessoas e resguardar a vida dos animais. Quando os tutores não cumprem os ajustes de conduta, os animais são acolhidos. Animais que atacam também são acolhidos”, diz Luiz Ramos.

Segundo o secretário municipal, a demanda cresce mais rápido do que a capacidade de resposta da rede.

“Quanto mais a gente atende, mais as demandas aumentam. Os animais com potencial de agressividade necessitam cuidados especiais e baías individuais, para que não entrem em conflito territorial com outros animais do abrigo. E os abrigos estão funcionando na capacidade máxima”, explica.

A secretaria também monitora um fenômeno crescente relacionado à violência contra esses animais em centros urbanos.

“No mês de setembro, percebemos um aumento substancial no número de animais baleados atendidos na rede municipal de saúde veterinária. Os animais vêm sendo vítimas da violência na nossa cidade. Ou são jurados de morte ou são vítimas de balas perdidas”.

Em casos de ataques, o dono do animal pode ser responsabilizado pelo crime de lesão corporal. E se o animal matar uma pessoa, o proprietário também responderá pelo crime de homicídio.

Relembre casos de ataques

Seis estudantes da Escola Municipal Liberdade, localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, foram atacados por um cachorro da raça pitbull em 22 de maio desse ano. Conforme o Corpo de Bombeiros, as crianças estavam no pátio da escola durante o recreio quando o animal invadiu o local e iniciou os ataques.

As vítimas, todas entre o 6º e o 9º ano do ensino fundamental, sofreram ferimentos que variam entre mordidas e arranhões.

No dia 10 de novembro, uma mulher foi atacada por dois cães da raça na Rua Silva Neto, em Realengo, na Zona Oeste do Rio. Uma câmera de segurança flagrou o momento em que a vítima é cercada pelos animais, que pulam em cima dela para morder.

Três dias depois, outro pitbull invadiu o pátio de uma escola estadual em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O animal atacou uma estudante durante o horário de aulas no Ciep 210, mordendo sua perna.

Indo contra as estatísticas, no dia 8 de novembro o pitbull Bob foi baleado e ferido a facadas após atacar outro cão no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio. Segundo informações da Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais, moradores tentaram separar a briga entre os dois animais e utilizaram arma de fogo e faca para conter Bob, que não resistiu.

Bob foi socorrido pela Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais, mas não resistiu | Divulgação

Dicas para evitar acidentes com cães

  • Não se aproximar de cães desconhecidos, mesmo que estejam com tutor, com coleira ou pareçam tranquilos.
  • Evitar contato ainda mais se você estiver conduzindo outro animal — isso pode aumentar a chance de conflito.
  • Nunca tocar um cão por trás, pois ele pode se assustar e reagir agressivamente.
  • Não correr diante de um cão avançando, porque isso pode estimular ainda mais o instinto de perseguição.
  • Buscar abrigo imediato, se possível, entrando em um cômodo fechado ou subindo em um lugar onde o cão não alcance.
  • Nunca tentar separar briga de cães com as mãos, pois o risco de mordidas é alto.
  • Em situações extremas, quando um cão já está atacando e não solta a vítima, uma medida possível é utilizar a própria guia do animal para interromper o ataque. A técnica consiste em tencionar rapidamente a guia na região do pescoço, o suficiente para que o cão afrouxe a mordida, e, assim que ele soltar, afrouxar imediatamente a pressão.

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