A Guanabara parecia em transe coletivo naquele início de março de 1919, marcando o primeiro grande evento de massa após a devastação sanitária global que dizimou 1/3 da população do Rio meses antes.  A então capital federal testemunhou um fenômeno sociológico sem precedentes, onde os cerca de 600 mil sobreviventes da Gripe Espanhola tomaram as ruas, os clubes e os becos em uma celebração dionisíaca que ignorou o luto recente para celebrar a sobrevivência biológica. O “Carnaval da Revanche”, chamado por jornais da época de “catarse delirante” representou a transição abrupta do medo da morte iminente para a euforia do prazer desenfreado.

O que aconteceu não foi apenas uma festa; foi um surto coletivo de luxúria e desespero. Imagine uma cidade onde, três meses antes, cadáveres eram empilhados nas esquinas como lixo porque não havia coveiros suficientes para enterrá-los. Agora, essa mesma cidade cheirava a lança-perfume, suor e sexo. Era como se cada carioca tivesse olhado para a irmã do Sandman, dado uma piscadela marota e decidido que, já que o apocalipse tinha sido cancelado aos 45 do segundo tempo, a única resposta lógica era beijar a boca de qualquer ser vivo que cruzasse o caminho.

Foi um delírio febril, só que dessa vez, a febre não matava. Quem sobreviveu à Gripe Espanhola acordou com uma fome ancestral, uma urgência de tocar, de beber e de transgredir. As viúvas tiraram o luto, moças e rapazes deixavam os pudores de lado, e a Guanabara, que flerta com o caos desde sua fundação, decidiu que o Carnaval de 1919 não seria apenas uma festa, mas “a” maior da história.

Foliões celebram Carnaval no Rio, na década de 10 | Crédito: Reprodução

A gênese do caos

A gente, infelizmente, viu essa história recentemente. Para entender a explosão de 1919, é preciso recuar para o silêncio sepulcral de 1918. Ao contrário do nome, a “Gripe Espanhola” não nasceu em Madrid ou Barcelona, mas no meio-oeste norte-americano.

Segundo o historiador John M. Barry, autor de The Great Influenza, o paciente zero foi registrado na manhã de 4 de março de 1918, em um acampamento militar de Funston, no Kansas (EUA). O vírus, uma mutação agressiva do H1N1, pegou carona nos pulmões de jovens soldados enviados para as trincheiras da Primeira Guerra Mundial na Europa.

 O conflito global foi o vetor perfeito: aglomeração, falta de higiene e movimentação constante de tropas espalharam a doença pelo mundo. A Espanha levou a fama apenas por uma ironia jornalística: enquanto países como França, Inglaterra e Alemanha censuravam as notícias sobre a gripe para não desmoralizar suas tropas, a Espanha, neutra no conflito, noticiava abertamente os estragos da doença, criando a falsa impressão de que lá era o epicentro do mal.

O mundo vivia os últimos suspiros da guerra e os primeiros de uma pandemia que, estima-se, tenha afetado um terço da população mundial.

Como ela chegou ao Brasil?

O culpado tem nome e CNPJ. Em 9 de setembro de 1918, o paquete britânico SS Demerara, pertencente à Royal Mail Steam Packet Company, atracou no Recife e segundos estudos da Fiocruz e reportagens do jornal A Noite, se tornou o principal vetor da gripe para o Brasil.

Curiosamente, apenas alguns dias antes, em 16 de agosto de 1918, o Demerara foi atacado por dois submarinos alemães. Um torpedo passou “a um metro da proa”, e o pânico tomou conta dos 562 passageiros e 170 tripulantes. A tripulação só foi salva pela intervenção de um porta-aviões inglês e seis torpedeiros americanos. Sonhar não custa nada, mas a pandemia teria atracado por aqui de uma forma ou outra.

De Pernambuco, o navio seguiu para Salvador e depois para o Rio. O rastro do Demerara foi cirúrgico. Por onde ele passava, deixava marinheiros e passageiros infectados que, ao desembarcarem, disseminavam o vírus nas zonas portuárias. Quando chegou à Baía de Guanabara, em meados de setembro, o navio já era uma incubadora flutuante. Sem protocolos de quarentena rígidos (afinal, ninguém sabia o que estava por vir), os passageiros desembarcaram, selando o destino da cidade.

O negacionismo

Como a gente viu recentemente, a reação inicial das autoridades foi de um ceticismo trágico. O Diretor Geral de Saúde Pública, Carlos Seidl, minimizou a doença, chamando-a de “gripe benigna”. Uma semana depois, o presidente Venceslau Brás o demitiu.

No Rio, a gripe ganhou o apelido de “limpa-velhos”, pois acreditava-se que o vírus só atacava a população idosa. A imprensa, sempre ferina, tratava o vírus com deboche. O jornal A Careta publicava charges ridicularizando o “medo europeu”.

Mas o ceticismo durou pouco.

O pico do horror

A virulência da Gripe Espanhola era aterrorizante. Diferente de outras gripes que matavam crianças e idosos, esta ceifava jovens adultos fortes em questão de dias — às vezes horas. O pico da contaminação no Rio de Janeiro foi, de fato, concentrado. Em meados de outubro de 1918, a cidade parou.

Incerteza, temor e pânico tomaram conta da população em função da célere e radical alteração do modo de vida. Comércios e fábricas foram fechados, levando ao colapso de serviços e escassez de produtos e alimentos.  

Não foi uma parada planejada; foi um colapso funcional. Relatos da época, compilados nos arquivos da Biblioteca Nacional, descrevem cenas de horror gótico: corpos eram deixados nas calçadas, com os pés pintados indicando a causa mortis, esperando carroças ou qualquer outra coisa que os recolhesse.

Em outubro de 1918, a Guanabara tinha cerca de 900 mil habitantes. Estima-se que 600 mil, ou seja, dois terços da população, tenha contraído o vírus. A cidade inteira ficou de cama ao mesmo tempo. O caso mais notório foi o do próprio Presidente da República eleito, Rodrigues Alves. Ele, que já havia governado o país, contraiu a gripe e morreu em janeiro de 1919, antes de tomar posse novamente.

A morte do presidente foi o carimbo final de que ninguém estava a salvo.

O fim misterioso

Tão rápido quanto surgiu, a Espanhola desapareceu. Mas nessa batalha, até o general saiu ferido. Com a demissão de Carlos Seidl, que caiu em desgraça pela groselha que havia declarado aos jornais, o cientista Carlos Chagas assumiu a liderança do combate à crise a pedido do presidente Wenceslau Braz.

Chagas, um gigante da ciência brasileira, não ficou em gabinetes. Ele montou hospitais de campanha em escolas e clubes, organizou a distribuição de alimentos e remédios. Até que ele mesmo contraiu o vírus, mas sobreviveu, para ver a curva de contágio cair e ser aclamado como o homem que tentou colocar ordem no caos, ainda que a medicina da época tivesse poucas armas reais contra o vírus.

O fim da pandemia se deu pelo que hoje chamamos de imunidade de rebanho. O vírus infectou tanta gente tão rápido que, em novembro de 1918, já não encontrava hospedeiros suscetíveis em número suficiente para manter a cadeia de transmissão. Os que tinham que morrer, morreram. Os que sobreviveram, tornaram-se imunes. O vírus perdeu força e recuou, abandonando uma cidade traumatizada, mas viva.

E a partir dali começaram a surgir as lendas.

Carlos Chagas: sanitarista ajudou a combater a Gripe Espanhola no Rio | Crédito: Reprodução

A origem da caipirinha?

A versão mais popular da origem do mais brasileiro dos drinks, é bancada pelo próprio Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac). Segundo ele, a caipirinha teria nascido por volta de 1918, no interior de São Paulo, como um subproduto da medicina caseira para combater a Gripe Espanhola. Inicialmente ela era uma espécie de “poção” feita com limão, alho e mel. E, como era costume na época, colocava-se um pouco de cachaça nessa mistura para dar aquela calibrada.

Mas a história não é bem assim. Segundo o grande folclorista Luís da Câmara Cascudo, a origem da caipirinha teria ocorrido ainda no século XIX, na região de Piracicaba, interior de São Paulo. Para Cascudo, a bebida teria nascido entre fazendeiros abastados, como um drinque de alta classe, uma alternativa local e de qualidade ao uísque e ao vinho importados, depois que algum Panoramix da vida tirou o alho da jogada.

Se a bebida já estava sendo “testada” nos sítios e fazendas como um drink tropical, ou um tônico para doenças respiratórias, não se sabe ao certo, mas sua versão “hackeada” encontrou o cenário perfeito para explodir no carnaval da “catarse delirante”.

Mas porque os jornais descreveram aquele Carnaval como uma “catarse delirante”?

Porque foi exatamente isso. Nelson Rodrigues chamou o evento de “Carnaval da Revanche”. A lógica era freudiana: após um contato tão íntimo com a morte, o Eros (pulsão de vida e sexo) explodiu. Era uma catarse necessária. O povo precisava gritar, suar e gozar para provar a si mesmo que o pulmão ainda funcionava.

A combinação do fim da guerra, a redução das mortes pela gripe e o desejo de retomar a vida normal gerou uma explosão de energia festiva que os cronistas qualificaram como “delirante”: bailes, corsos, blocos e excessos amorosos dominaram as páginas dos jornais. Praticamente metade da cidade festejou na Avenida Rio Branco.

Boa parte das músicas compostas tinha a Gripe como tema. A fantasia de espanhola foi a mais usada pela Guanabara. A pandemia também inspirou as grandes sociedades, que apresentaram carros alegóricos decorados por nomes como Di Cavalcanti e J Carlos.

Outra curiosidade foi o uso de réplicas de xícaras de chá nos carros, pois havia corrido um boato popular de que os enfermeiros da Santa Casa serviam um chá letal, à noite, para matar os pacientes com Gripe, e, assim, esvaziar mais rápido os leitos do hospital.

E como em toda catarse que se preze, houve exageros.

Monumento carnavalesco representando o ‘Chá da Meia-Noite’ durante o Carnaval de 1919 no Rio | Crédito: Reprodução

Os dois mil escândalos do Catete

Este é um dos dados mais saborosos e repetidos sobre 1919. A estatística é citada recorrentemente na bibliografia sobre o tema, incluindo O Carnaval da Guerra e da Gripe, de Ruy Castro. Diz-se que, nos meses seguintes à folia momesca, a delegacia do Catete registrou um número recorde de queixas relacionadas a “defloramentos”, raptos consensuais e “escândalos amorosos” — seja lá isso o que for.

O número “dois mil” pode ser uma hipérbole narrativa consolidada pelo tempo, mas reflete uma verdade documentada: houve um “baby boom” na Guanabara nove meses depois da festança, a chamada “geração da gripe”.

 A moral vitoriana e católica do início do século XX fora suspensa por quatro dias. Naquele ano, a virgindade foi a última preocupação das moças de família e dos rapazes afoitos.

Manchete do jornal A Gazeta dava ares antológicos ao Carnaval de 19 | Crédito: Reprodução

O gigante despertou

Foi também no contexto do Carnaval de 1919 que nasceu uma das maiores instituições do Rio. O Cordão do Bola Preta foi fundado oficialmente em 31 de dezembro de 1918, na Galeria Cruzeiro (Centro do Rio), para desfilar no Carnaval de 1919.

Álvaro Gomes de Oliveira, o Caveirinha, e seus amigos Francisco Brício Filho (Chico Brício), Eugênio Ferreira, João Torres, Arquimedes Guimarães e pelos três irmãos Oliveira (Roxo, Jair e Joel), criaram o bloco como uma resposta à rigidez policial de anos anteriores. E o nome, bem, veio de uma jovem especialmente bonita que passeava naquele momento pela galeria usando um vestido branco de…bolas pretas.

A solidão na multidão

E 1919 ainda teve mais. Se o Bola Preta era a multidão, o “Bloco do Eu Sozinho” foi a ironia suprema da individualidade. A história conta que o jornalista Júlio Silva, um folião inveterado, tentou organizar um grande bloco para o Carnaval de 1919. Porém, na hora da concentração…ninguém apareceu.

Jornalista Júlio Silva fundou o ‘Bloco do Eu Sozinho’ | Crédito: Reprodução

Em vez de desistir e ir para casa chorar as pitangas, nosso bravo homem de imprensa pegou seu estandarte, uma placa onde se lia “Bloco do Eu Sozinho”, e saiu desfilando pelas ruas do Centro. Ele foi aplaudido, ovacionado e nos 60 anos seguintes repetiu a dose até falecer, tornando-se uma lenda do Carnaval carioca.

Sua atitude resumiu o espírito de 1919: a festa era obrigatória, com ou sem companhia.

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