Na segunda quarta-feira de cada mês, às 20 horas em ponto, uma fila se forma calçada afora no Largo do Machado, no coração da Zona Sul da Guanabara. Não é um show de pagode, nem estreia de cinema ou fila do INSS. É gente esperando lugar para assistir a uma missa. E não uma missa qualquer, mas a Missa de Cura e Libertação em honra a São Miguel Arcanjo, celebrada na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória pelo Cônego Geovane Ferreira, o único padre exorcista oficialmente autorizado pela Arquidiocese do Rio de Janeiro. A liturgia é “disputada” e os fiéis participam de pé, às vezes dentro e fora do templo. Em uma cidade como o Rio, com problemas de sobra, é razoável supor que o Coisa Ruim ande aprontando demais das suas por aqui.
O tom da celebração é curioso: cantos que acalmam o coração, mensagens motivadoras e, no fim, 20 minutos de orações firmes e imperativas, em que o sacerdote profere frases como “Eu te esconjuro, todo e qualquer espírito imundo”. Muitos chegam com fotos, carteiras de trabalho e terços para abençoar; outros saem relatando desmaios, sensações de paz ou mal‑estar que aparecem e desaparecem tempos depois da missa.
A Igreja Católica tem, para isso, uma estrutura formal, com regras, credenciais e graus de autorização. O padre Geovane tem curso em Roma, pertence ao Conselho Internacional dos Exorcistas e só age com chancela do arcebispo. Isso, no universo vasto e por vezes selvagem das práticas espirituais brasileiras, é, no mínimo, uma garantia de ordem. Se o demônio vai embora de verdade toda segunda quarta-feira no Largo do Machado, essa é uma questão de fé, e, portanto, de domínio pessoal de cada um dos fiéis que saem pela porta da Igreja da Glória e somem na noite carioca.

O que é a Missa de Exorcismo de São Miguel Arcanjo?
A Missa de Cura e Libertação em honra a São Miguel Arcanjo é celebrada toda segunda quarta-feira do mês às 20 horas na Matriz de Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado. Ela é conduzida pelo Cônego Geovane Ferreira, pároco da igreja e responsável pelo Vicariato Sul da Arquidiocese do Rio de Janeiro. A igreja que fica ali pertinho da mítica loja das esfihas é a única Igreja da Zona Sul carioca a oferecer esse tipo de celebração.
O ritual homenageia São Miguel Arcanjo, tradicionalmente visto como o príncipe da milícia celeste que combate as forças do mal, e é autorizado pela Igreja Católica como uma prática sacramental acessível, não restrita a casos graves.
Na definição do próprio padre Geovane, é uma ocasião de “orações do exorcismo de São Miguel e exorcismos menores, permitidos pela Igreja, pedindo que aquelas pessoas que estão vivendo uma ação ordinária do demônio sejam livres. Ou pedindo a cura, a libertação e a transformação”.
Diferente do exorcismo solene, que exige autorização expressa do bispo e ocorre em ambiente privado, essa missa é aberta ao público e acontece na matriz centenária, construída em 1872.
O ritual é parecido com o que se vê nos filmes?
Não. Nada de Linda Blair, John Constantine ou qualquer outra personagem ou história de longa que aborde possessões demoníacas. O próprio padre Geovane, em entrevista ao site Catolicismo Romano, foi enfático ao distinguir o que acontece na missa do exorcismo maior privado.
Na celebração não há conjuração direta ao demônio no sentido técnico do termo. Ninguém grita para o vizinho que ele está reprendido em nome de Jesus. Não nenhuma ordem imperativa a algum espírito maligno para que este abandone o corpo de um indivíduo identificado como possuído.
O que há é uma estrutura de missa tradicional, “quase toda cantada e repleta de mensagens motivadoras”, com o acréscimo de orações específicas de exorcismo menor ao final. Se você queria ver um show, recomendamos que procure em outro endereço.

Então os filmes tiraram isso de onde?
Bem, os filmes de terror não são de todo absurdos em suas referências, mas se concentram no drama do exorcismo maior, chamado “grande exorcismo”, que, segundo o Catecismo da Igreja Católica (número 1673), “só pode ser praticado por um sacerdote, com a permissão do bispo”.
O padre Geovane descreve casos do exorcismo maior como sendo sessões longas, realizadas em particular, onde “às vezes é necessário que alguém segure a pessoa para que ela não se machuque” e onde o padre usa “estola, crucifixo, água benta, óleo e sal exorcizados”. Isso nunca acontece durante a missa pública do Largo do Machado. O que se vê ali é oração. Intensa, coletiva e, para muitos fiéis, transformadora, mas oração.
Então o que acontece nessa missa do Largo do Machado?
O núcleo do rito são as orações tradicionais ligadas à devoção a São Miguel Arcanjo, cuja versão mais conhecida foi composta pelo Papa Leão XIII no século XIX. Segundo o site da paróquia, a celebração inclui a famosa prece: “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, sede nosso refúgio contra a maldade e as ciladas do demônio! Ordene-lhe Deus, instantemente o suplicamos, e vós, príncipe da milícia celeste, pela virtude divina, precipitai ao inferno satanás e todos os espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas.” Nos tempos de Leão XIII, ela era rezada após todas as missas ordinárias.
Além dessa, há o Exorcismus in Satanam et Angelos Apostaticos, o exorcismo formal contra Lúcifer e os anjos caídos, rezado pelo padre em nome da Igreja. O trecho inclui passagens como: “Te exorcizamos, todo espírito imundo, toda potência satânica, toda incursão do adversário infernal, toda legião, toda congregação ou seita diabólica, pelo Nome e virtude de Nosso Senhor, Jesus Cristo, desprenda-te e fuja da Igreja de Deus.”
Após cerca de 20 minutos de cânticos e preces a São Miguel, o pároco convida os fiéis a uma imposição de mãos individual, em local mais reservado. Nesse momento, muitos levam objetos pessoais como fotografias, carteiras de trabalho ou terços, para serem abençoados, acreditando que a intercessão do arcanjo e as orações de libertação afastam energias negativas.
O que dizem os fiéis que vão à esta missa?
Esse é um dos aspectos mais intrigantes relatados pelos frequentadores. A sensação de mal-estar, tontura, cansaço intenso e até dor de cabeça muitas vezes não ocorre durante a missa, mas nas horas ou dias seguintes. A interpretação dentro da tradição espiritual católica é que a ação libertadora continua se desenvolvendo após o ritual.
O padre Geovane, em entrevista ao Catolicismo Romano, explicou que “o exorcismo não é mágico. Ele é um processo de conversão, de mudança de vida. É um tratamento que pode durar um mês ou muitos anos.” Essa compreensão processual do exorcismo menor ajuda a entender por que os fiéis descrevem efeitos dilatados no tempo.
Do ponto de vista da psicologia, o fenômeno também pode ser lido à luz do que se conhece sobre rituais coletivos de alta carga emocional. A combinação de música, palavras de autoridade, ambiente fechado, concentração de expectativas e participação coletiva produz estados alterados de atenção que podem se manifestar posteriormente como cansaço, choro, alívio ou mesmo sensações físicas.
Uma repórter da revista Claro!, que foi a uma missa de exorcismo em São Paulo a título jornalístico, descreveu: “Emocionei-me no momento da libertação. A mistura de música e palavras volumosas fez meus olhos lacrimejarem. Desde então, uma grande dor de cabeça me atingiu e só reparei a intensidade ao sair do santuário.” Ela se identificou como cética _ o que não a imunizou às reações físicas.

Padres em oração na Igreja de Nossa Senhora da Glória (Crédito: Reprodução)
Alguma outra igreja do Rio tem missa de exorcismo?
A Matriz de Nossa Senhora da Glória é a única da Zona Sul carioca a oferecer o ritual com essas características. O próprio site da paróquia confirma que o Cônego Geovane é “o único exorcista, atualmente, na cidade do Rio de Janeiro” autorizado pela Arquidiocese.
Isso não significa, porém, que seja a única celebração de cura e libertação no município. O padre Josemar Galvão, identificado como “Bispo Diocesano da Igreja Católica Apostólica Carismática” realiza missas de cura e libertação em Pilares, na Zona Norte do Rio, segundo seu site oficial (padreexorcista.com.br).
Vale o registro: a Igreja Católica Apostólica Carismática não tem nenhum vínculo com o Vaticano.
Dentro da Igreja Católica Romana, a questão das “missas de cura e libertação” é mais matizada do que parece. O site Catequisar, de orientação tradicionalista, lembra que “no Missal Romano, não há um próprio para que se celebre tal culto”. Ou seja, não existe uma liturgia oficialmente codificada chamada “Missa de Cura e Libertação”.
O que existe são missas ordinárias nas quais, ao final, são acrescentadas orações de exorcismo menor e bênçãos, o que é diferente de uma nova espécie de missa. Setores mais conservadores da Igreja têm apontado esse debate litúrgico há anos. Porém, o fenômeno se espalhou por todo o Brasil, com paróquias em diversas cidades adotando celebrações similares, geralmente sob a influência da Renovação Carismática Católica.


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