*Beatriz Bueno e Paulo Baía
Este ensaio sociológico é uma resposta direta, um contraponto teórico e político ao artigo “Parditude ou negação?” publicado no site A Terra é Redonda. Partimos do reconhecimento de que a denúncia do racismo é necessária. Mas afirmamos que a concepção apresentada naquele texto enquadra o Brasil numa matriz interpretativa que não corresponde à sua formação histórica.
Ao transformar o mestiço em problema político, desloca o centro da análise. O mestiço não é obstáculo à compreensão do país. Ele é o próprio fenômeno fundador da sociedade brasileira. O Brasil não nasceu de uma raça. Nasceu de um encontro. Depois de um choque. Depois de uma convivência. E por fim de uma invenção coletiva que nenhum laboratório classificatório consegue reproduzir. A formação brasileira não é soma, é síntese.
Não é pureza, é processo. Não é um sistema de caixas raciais estáveis, é uma história viva de mistura contínua. Por isso causa estranhamento a tentativa recente de explicar o país a partir de um binarismo racial rígido. O equívoco começa quando a categoria pardo passa a ser tratada como identidade ideológica.
O IBGE criou um instrumento estatístico, não um povo. Dentro do termo pardo convivem afro-indígenas amazônicos, caboclos ribeirinhos, sertanejos nordestinos, populações urbanas miscigenadas, descendentes de árabes e mediterrâneos misturados, grupos com diferentes níveis de ancestralidade africana. Não há unidade cultural nem experiência social uniforme. Existe um agregado demográfico.
A estatística unificou aquilo que a história diversificou. A consequência é uma ficção demográfica. Milhões aparecem numericamente, mas desaparecem sociologicamente. O país ganha um bloco numérico gigantesco que não corresponde a um grupo histórico real. O resultado é um limbo. Não são reconhecidos como identidade própria nem vivem integralmente a experiência social negra urbana típica. Tornam-se um conjunto abstrato.
Darcy Ribeiro descreveu o Brasil como um novo povo civilizatório, não uma extensão europeia nem africana. A nação se formou pela transfiguração cultural. O mestiço não é transição entre raças, é criação histórica. Quando se exige que ele escolha uma identidade racial pura, reconstrói-se uma fronteira que a própria formação nacional dissolveu. Os estudos de Manolo Florentino mostram que a mobilidade de cor e as redes de parentesco eram estruturais na sociedade colonial. A mistura não foi acidente social. Foi mecanismo organizador.
O sistema classificatório rígido veio depois, com o Estado moderno e sua necessidade de medir, organizar e administrar a população. Felipe Nunes demonstra que os brasileiros percebem raça de forma situacional. A identificação varia conforme lugar, classe e relação social. A vida cotidiana opera em gradações. A política pública exige definição fixa. Surge então a tensão entre experiência vivida e categoria administrativa.
Nos nossos estudos temos tratado a parditude não como fuga, mas como expressão de uma condição histórica específica. O movimento da Parditude aparece como tentativa de nomear uma existência social que sempre esteve ali e nunca encontrou linguagem política adequada. Não se trata de negar o racismo, trata-se de compreender sua forma brasileira. O país não organizou sua hierarquia apenas por cor, mas por cor articulada a classe, território e status social. É um sistema complexo.
A sociedade brasileira passou por dois grandes momentos de mestiçagem. O primeiro foi fundador, durante o período colonial e imperial, quando indígenas, africanos e europeus produziram uma nova matriz populacional. O segundo ocorreu do final do século dezenove até o século vinte e o início do século vinte e um, quando imigrações diversas, urbanização e mobilidade social reinventaram a mistura em escala nacional.
A miscigenação deixou de ser local para tornar-se estrutura demográfica massiva. O artigo critica a parditude acreditando combater a velha ideologia da harmonia racial, porém permanece prisioneiro da lógica inaugurada no início do século vinte quando a miscigenação foi romantizada como mito nacional em Casa Grande e Senzala.
Ali a mistura era celebrada como solução mágica. Hoje ela é vista como disfarce político. Nos dois casos ocorre o mesmo erro. Transformar um processo histórico complexo em tese moral simples. O Brasil não é sociedade sem racismo. Também não é sociedade organizada por dois polos raciais estáveis. É uma sociedade multirracial, multicultural e sincretica.
Sua estrutura social combina desigualdade racial real com mistura real. Negar qualquer um dos elementos produz cegueira analítica. Segundo o Censo do IBGE, cerca de 45% da população brasileira se autodeclara parda e cerca de 11% se declara preta. Entretanto, para efeito da legislação de igualdade racial, somam-se esses grupos, formando 56% classificados como negros. Paulo Baía denomina essa operação de negro estatístico.
A categoria jurídica cumpre função importante na formulação de políticas públicas, especialmente nas ações afirmativas. Porém, na prática, comissões de verificação fenotípica acabam excluindo parte expressiva dos pardos por não serem considerados pretos o suficiente. Assim milhões são deslocados para uma branquitude que não corresponde às suas trajetórias familiares, regionais e comunitárias. O limbo demográfico transforma-se também em limbo institucional.
A categoria pardo do IBGE tenta resolver numericamente essa realidade e falha. Ela não representa uma raça nem uma identidade coletiva homogênea. É apenas a sombra estatística de uma formação histórica intricada. Quando a política exige que essa população seja reduzida a um dos lados de uma dicotomia, cria invisibilidade. O combate ao racismo passa a operar sobre um mapa simplificado do país.
O povo brasileiro não é indefinido. Ele é múltiplo. Não é ausência de identidade. É excesso de história. O desafio sociológico não é forçar o país a caber numa tabela. É construir instrumentos teóricos capazes de alcançar a complexidade da sua experiência. Enquanto insistirmos em reduzir a realidade a modelos externos, continuaremos produzindo diagnósticos corretos para sociedades que não são a nossa.
A insistência em reduzir essa síntese a duas cores produz um efeito político concreto. Os mestiços variados, que constituem a maioria demográfica do país, passam a viver sob dupla pressão simbólica. De um lado são empurrados para uma identidade que não expressa toda sua trajetória social. De outro são acusados de negar uma origem que não esgota sua formação histórica. Não pertencem plenamente a nenhum dos polos. Tornam-se estrangeiros dentro da própria classificação oficial. Assim nasce uma segunda camada da ficção demográfica. A estatística cria o grupo e a política tenta discipliná-lo.
O indivíduo real desaparece entre o número e a narrativa. O resultado é um limbo racial binário onde milhões existem apenas como transição entre categorias. Sofrem por serem vistos como negros em determinados contextos e por não serem reconhecidos em outros. O movimento Parditude surge nesse ponto histórico. Ele não se opõe ao movimento negro. Soma-se a ele e a outros movimentos sociais na luta real contra o racismo e contra a intolerância religiosa.
Parditude é afirmação de uma identidade histórica ampla. Incorpora pretos, indígenas, brancos paupérrimos, orientais, populações do Oriente Médio, várias Áfricas e múltiplas etnias originárias das Américas. Não é negação da negritude e tampouco pintura de fachada da branquitude. É reconhecimento sociológico da formação brasileira. O texto ao qual respondemos participa de um padrão global de pensamento que busca reorganizar sociedades complexas em identidades rígidas. Esse padrão nasce nos mecanismos históricos de dominação colonial e imperial e se atualiza na geopolítica contemporânea.
O modelo racial binário não é universal. É exportado como paradigma e frequentemente associado ao ambiente político norte-americano recente. Ao propor que a maioria mestiça brasileira seja enquadrada numa lógica de duas cores, o argumento termina por exigir submissão epistemológica. Pede que abandonemos nossa experiência histórica para adotar uma gramática externa. Mas a sociedade brasileira não é cópia sociológica de ninguém. Ela é produto próprio, com dinâmica própria e contradições próprias. Nossa tradição intelectual é dialética porque nasceu do encontro e do conflito entre mundos distintos.
Por isso afirmamos uma posição de resistência intelectual. O Brasil não aceitará reduzir sua formação a uma importação conceitual. A crítica ao racismo deve nascer da realidade brasileira, não da adaptação a um modelo estrangeiro. Entre a pureza classificatória e a complexidade histórica, ficamos com a história. Entre a submissão analítica e a autonomia sociológica, ficamos com a autonomia.
Beatriz Bueno é autora do livro Parditude
Paulo Baía é Sociólogo, cientista político ensaísta e professor da UFRJ






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