Na hierarquia do crime e território das facções, algumas mulheres se sobressaem. Começam com funções discretas, mas podem chegar a postos estratégicos, circulando entre bocas de fumo, favelas e ruas. Para isso, precisam adotar posturas masculinizadas, driblar preconceitos e lidar com regras internas que nem sempre permitem ascensão. Ao mesmo tempo, o sistema penal é implacável: dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais mostram que 54% das mulheres encarceradas no país foram presas por crimes relacionados ao tráfico de drogas.
A morte de Eweline Gomes, a Diaba Loira, permeou a discussão sobre a presença de mulheres no tráfico. Segundo especialistas ouvidos por Agenda do Poder, a inserção feminina no universo do tráfico não pode ser descolada da realidade do trabalho na favela. Para além do imaginário que isola esse território como um espaço apartado da cidade, esses lugares dialogam diretamente com o asfalto: fornecem mão de obra, consomem serviços, movimentam a economia. É nesse fluxo constante que se constrói também a entrada das mulheres no crime organizado.
“É importante entender que a favela não é dissociada da cidade. Ela compõe o território urbano, e seus moradores circulam entre os espaços. Não estão confinados ao próprio território: atravessam o asfalto como mão de obra e como consumidores de serviços”, enfatiza a professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jaqueline Muniz.
Nessa perspectiva, o crime ainda é pensado a partir de um imaginário masculino. Ao se inserir na estrutura do crime, a mulher é criminalizada em dois filtros: vista como subalterna e associada ao homem, mesmo quando não há imputação formal, ou tratada como criminosa por extensão, é o caso das mulheres de traficantes ou mães que levam comida para os filhos dentro da prisão.
“O olhar mais interessante é como essas mulheres são criminalizadas. Como, a partir de um determinado olhar — estereotipado, masculino, patriarcal — é identificada como subalterna e automaticamente associada ao crime. Às vezes, a criminalização é ainda mais indireta: ela não é acusada propriamente de um crime, mas é tratada como criminosa quando há uma busca e apreensão, ou quando vai visitar o companheiro ou namorado na prisão”, afirma o professor Antônio Martins, da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Aliciadas pela promessa do poder e pelo dinheiro, no tráfico de drogas as mulheres enfrentam uma carreira estratificada, com hierarquia, plantões e escalas de trabalho. Cada boca de fumo funciona como um microcosmo da economia urbana: clientes, fornecedores e pagamentos precisam ser mantidos com rigor, como em qualquer empresa, mas em um ambiente informal, insalubre e permeado pelo risco de violência. A boca de fumo é somente a dimensão visível do crime organizado, explica Jaqueline:
“A boca é a dimensão visível, mas não toda a estrutura da economia política criminosa. Ela funciona como uma unidade comercial, uma drogaria ilegal. E como qualquer comércio, não pode ter suas vendas interrompidas: há fornecedor para pagar, folha de pagamento a honrar, clientela a manter. Isso mostra que há uma engrenagem complexa, que depende de parcerias com o Estado. O governo do Rio de Janeiro se comporta como agência reguladora do crime. Faz-se a guerra para se viver a paz da propina, para renovar o ‘alvará de funcionamento’ dessas unidades”.
Hierarquia das bocas
Segundo a Mestre em Justiça e Segurança e doutoranda em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Thayssa Rios, as bocas de fumo seguem a lógica de uma hierarquia definida, onde as funções são, do topo à base:
- Dono
- Frente
- Gerentes
- Soldados
- Aviões
- Mulas
- Vapores
- Indolas
Nessa lógica, é possível seguir dois caminhos principais: o confronto, quando alguém vira soldado de frente, ou a parte das drogas. O vapor, por exemplo, fica na boca, geralmente armado, para se defender em caso de ataque. Já na parte das drogas, normalmente existem dois gerentes diferentes, um de armamento e outro de entorpecentes.
Há ainda funções ligadas à embalagem e à personalização das drogas, que recebem nomes para chamar atenção no mercado. Algumas mulheres assumem funções de transporte, como as mulas que levam drogas para presídios, e circulam com maior liberdade.
“Isso também é estratégico, porque acabam assumindo o papel de mulher e fogem da ideia do imaginário social do que é ser um traficante. Dentro de uma operação, conseguem circular com mais facilidade pelas favelas, de uma favela para outra, ou para outros lugares onde é preciso levar droga, porque não são vistas como público-alvo e não têm a caricatura que é parada pela polícia”, destaca Thayssa.
Se por um lado a função é mais estratégica, por outro, é também uma rede onde mulheres são presas justamente por serem alvos mais fáceis, pontua o professor Antônio Martins.
“Como a mulher acaba assumindo posições como transporte de droga, como ‘mula’ ou vendedora direta, ela muitas vezes é mais facilmente presa. Cai de maneira mais fácil no campo de visão do sistema penal do que homens que ocupam posições superiores e estão mais protegidos pela própria estrutura do tráfico”.
Ainda assim, o cenário começa a mudar. Com mais frequência, mulheres estão avançando e pegando em armas. É o que diz a delegada titular da 14ª DP (Leblon), Thaianne Barbosa de Moraes Pessoa:
“Tradicionalmente, as mulheres tratavam de partes mais manuais do tráfico, como endolação. Mas cada vez mais é possível vê-las armadas, participando da atividade de guerra armada entre facções e também na guerra que travam com a polícia. Por exemplo, a filha de um grande traficante do Rio de Janeiro já foi vista algumas vezes com fuzil na mão. Além disso, há traficantes que já contam com mulheres como seguranças”.

‘Masculinidade sem homens e feminilidade masculina‘
À medida que avançam, todas esbarram num ponto comum: para subir na hierarquia é preciso vestir o uniforme do trabalho — roupas mais masculinizadas e condutas másculas. Falar de menstruação no plantão? Nem pensar.
“Elas têm que combinar masculinidade sem homens e feminilidade masculina, porque vão se performando ali o tempo inteiro dentro do tráfico. Por exemplo, uma mulher que chega a um lugar de poder não pode contar que está menstruada ou com cólica, porque senão é motivo de piada. Quando estão de plantão na boca, não podem usar brinco ou roupa decotada”, detalha Thayssa Rios.
Esse parâmetro pode ser observado na trajetória da Diaba Loira. Antes de entrar para o tráfico, Eweline trabalhava em comércios comuns, mas ao assumir funções dentro do crime passou a adotar vestes e posturas mais próximas da masculinidade do entorno, ainda que alguns traços de feminilidade tenham sido preservados.
Desumanização dos corpos
Ainda assim, a masculinização da conduta não garante que as mulheres consigam alcançar o topo. Existe um limite invisível, imposto tanto pela facção quanto pelas normas internas de poder. Se a mulher estiver na posição de frente e seu sucessor morrer, o progresso é interrompido. A facção não permite tamanho avanço, já que as mulheres são consideradas uma fragilidade na governança criminal.
“Uma das entrevistadas da minha pesquisa contou que era frente e, quando o dono do morro foi preso, pela hierarquia do Comando Vermelho ela deveria ter subido de posição. Mas a facção não confiou nela. Disseram que não colocariam uma mulher no comando de um morro porque isso deixaria a facção fragilizada”, exemplifica Thayssa.
Algumas chegam perto. É o caso de Rayane Nazareth Cardozo da Silveira, a Hello Kitty, braço direito do gerente do tráfico Vinte Anos, no Salgueiro, em São Gonçalo. Tinha fama de ser cruel e fria, e mesmo na hora de morrer, a ousadia foi levada em conta. Morta durante uma operação do 7º BPM em 16 de julho de 2021, seu corpo foi desfigurado, uma prática comum com mulheres em posições de liderança. É a chamada ‘desumanização dos corpos’.

A doutoranda em Sociologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora no NECVU e SedeAmericas Julia Quirino explica:
“Quando essas mulheres são mortas de forma violenta, há uma mensagem de que elas não deveriam estar ali. Primeiro, pela desumanização do inimigo: um tiro no rosto ataca diretamente a identidade e a dignidade. O rosto é a parte mais humana, ligada à individualidade. Ao desfigurar, você não apenas mata, mas anula a pessoa. Isso causa medo e humilhação, e funciona também como arma psicológica, um recado para outros: ‘isso pode acontecer com você’”.
Essa atuação feminina no tráfico exige olhar diferenciado da polícia, destaca a delegada Thaianne: “Por questões constitucionais e legais, a abordagem precisa observar certos limites em razão da diferença de gênero. Eventual revista, condução ou acautelamento precisam ser realizados de forma diferente”.
No processo judicial, a criminalização também sofre impactos de gênero, raça e classe. “A tendência é que isso tenha repercussão. Na atividade policial, talvez seja mais evidente ainda: um tratamento preconceituoso. E aí entram outros fatores: interseccionalidade. Quer dizer, soma-se à questão de ser mulher o fato de ser uma mulher negra, de determinada classe social, que mora em determinado lugar. Tudo isso repercute na ação policial de forma diferente e também tem relevância no processo judicial”, conta Antônio Martins.

Mulheres ‘responsa’
No universo do tráfico, se dá bem quem tem mais moral. Além do gênero, a sexualidade também dita o quanto de prestígio e de limitações uma mulher pode ter dentro da boca. As mulheres traficantes heterossexuais estão longe de ter os mesmos direitos dos homens bandidos. Já as lésbicas, se enquadram numa lógica parecida com as dos homens, como se fizessem parte “do mesmo grupo”.
“Quando a mulher é hétero, ela não pode ter a mesma vida sexual que os homens héteros da boca têm. Eles podem ficar com quem quiserem. Ela, não. Se for hétero, não pode circular desse jeito. Já se for lésbica, pode ter as mesmas experiências que os homens têm: ter fiel, amante, ‘lanchinho’, ‘marmita’. A mulher hétero, se fizer isso, vira ‘piranha’, ‘vagabunda’. Já a lésbica é vista como parte do grupo dos caras”, conta Thayssa.
Ainda segundo a especialista, esse quadro permite dizer quem são as ‘responsas’ e também quem não são. Responsas são as mulheres que possuem o respeito dos colegas de profissão. Quanto mais moral, mais privilégios: podem escolher com quem ficam, têm mais liberdade para circular, conseguem mudar escalas de plantão, decidem detalhes como comida, ou a quantidade de droga que podem pegar.
Existem até concessões pessoais, como tirar o dia para estar com a família no aniversário — tudo faz parte da construção de moral dentro da realidade do tráfico. No entanto, as regras mudam de acordo com a governança de cada facção, explica ainda a pesquisadora.
No Rio, hoje prevalecem duas facções principais: Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP). A primeira tem uma lógica de ostentação que permite curtir, fazer baile, festa, esbanjar. Sua lógica também é mais voltada para confronto direto com a polícia. Já o Terceiro Comando foge do confronto e prioriza a economia: não querem medir força, querem vender, fazer dinheiro.
Em ambas, a carreira do tráfico exige um trabalho árduo, como qualquer trabalho formal. “Existe uma falsa ideia de que entrar para o tráfico garante ostentação e dinheiro, mas tem gente trabalhando dia e noite na boca para ganhar R$ 400, menos que meio salário mínimo”, finaliza Thayssa Rios.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


Deixe um comentário