O fim de um ciclo eleitoral: Lula, Bolsonaro e Ciro diante do esgotamento das urnas

Os dados, os gestos da sociedade e os humores da opinião pública convergem para um cenário de renovação, mesmo que os partidos e os grupos mais fiéis ainda resistam a enxergar isso

* Paulo Baía

As pesquisas eleitorais recentes, especialmente a da Quaest divulgada em junho de 2025, apontam de forma clara e inapelável que o ciclo eleitoral de Lula, Jair Bolsonaro e Ciro Gomes chegou ao seu fim. Esse ciclo, que dominou o imaginário político nacional nos últimos quinze anos, está exaurido não pelo desaparecimento do protagonismo dessas figuras, mas por um esgotamento das possibilidades eleitorais que cada um representa. Há uma diferença fundamental entre continuar relevante politicamente, como todos os três continuam sendo, e seguir sendo viável eleitoralmente como nome competitivo para o voto majoritário da população brasileira. Os dados, os gestos da sociedade e os humores da opinião pública convergem para um cenário de renovação, mesmo que os partidos e os grupos mais fiéis ainda resistam a enxergar isso.

A pesquisa Quaest revelou que 66% dos brasileiros não desejam que Lula seja candidato em 2026. O número cresceu ao longo do ano, revelando não apenas uma rejeição momentânea, mas uma tendência consolidada. No caso de Jair Bolsonaro, a situação é ainda mais complexa: embora inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, ele segue em campanha, reforçando sua imagem como candidato mesmo fora da legalidade institucional. No entanto, a rejeição à sua candidatura também alcança 65%. No jogo das urnas, ambos são cartas marcadas por grande rejeição popular, o que reduz drasticamente sua capacidade de agregar novas camadas do eleitorado. Ciro Gomes, por sua vez, embora não conste especificamente da pesquisa Quaest em foco, aparece em outras sondagens e continua a circular pelo país, tentando manter viva sua relevância nacional. No entanto, também ele carrega uma rejeição consolidada, que o tornou incapaz de romper a barreira do segundo turno em todas as suas tentativas anteriores.

Essas três lideranças, Lula, Bolsonaro e Ciro, seguem como grandes protagonistas do debate público, com militância fiel, presença midiática constante e capacidade de mobilizar redes e afetos. Mas esse protagonismo não é mais suficiente para vencer eleições. A rejeição que enfrentam não é episódica nem fabricada: ela é profunda, territorializada, presente nas periferias, nos grotões, nos centros urbanos e nas franjas populares da sociedade. É, como escrevi em artigo anterior, “a aritmética da urna”. Trata-se de uma rejeição eleitoral, não ideológica, não moral, não de elite, mas objetiva, feita de números e percentuais, que desautorizam a continuidade de seus nomes como alternativas para o futuro presidencial do país.

No caso de Lula, esse impasse é ainda mais dramático. O presidente ainda exerce poder, lidera institucionalmente o país, possui carisma e mantém relevância simbólica. Mas é justamente sua insistência em manter-se como candidato o que começa a se converter em seu maior limite. O lulismo que foi ponte em 2002, que venceu com resiliência em 2022, começa a se tornar uma muralha que impede novas construções. Os militantes, o PT e os setores que o apoiam resistem à ideia de substituí-lo, como se a biografia fosse mais importante que o projeto. Mas a democracia não se faz de biografias: se faz de escuta, renovação e capacidade de responder aos sinais do tempo. E o tempo, agora, clama por novos nomes.

Com Bolsonaro, o cenário é igualmente contraditório. Ele segue como a figura mais expressiva da extrema-direita brasileira, com apoio massivo nas redes, presença constante em eventos e articulação direta com a base conservadora. Mas sua inelegibilidade, sua rejeição e a sombra dos processos judiciais o empurram para um papel de tutor de candidaturas, não mais de candidato viável. A direita, diferente da esquerda lulista, já percebeu isso, e começa a testar nomes, medir fôlegos, observar a aceitação de figuras como Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro, Ratinho Júnior, Eduardo Leite, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Ronaldo Caiado. Nesse ponto, há uma racionalidade política em curso, ainda que impulsionada pela estratégia e não pela ética.

Ciro Gomes, embora marginalizado por seu desempenho nas últimas eleições, ainda percorre o país tentando reapresentar-se. Mas sua retórica já não seduz como antes, e sua rejeição o coloca no mesmo impasse: protagonismo político não é o mesmo que viabilidade eleitoral. A população brasileira já conhece seu nome, já ouviu suas propostas e, até aqui, não lhe confiou a chance de governar.

A verdade incômoda que as pesquisas revelam é que o Brasil de 2026 não será decidido pelos nomes do passado. E mais: se esses nomes insistirem em manter-se na dianteira das chapas, correm o risco de facilitar o retorno de um projeto autoritário, regressivo e antipopular que se alimenta justamente da polarização. Lula é, ainda hoje, o centro gravitacional da extrema-direita. Sua presença catalisa os antagonismos. Retirá-lo do jogo como candidato, mas mantê-lo como articulador, como liderança moral e institucional, seria o maior gesto de inteligência política. Um gesto de grandeza.

Há, hoje, um chamado profundo vindo das entranhas do povo brasileiro por renovação. Um desejo difuso, mas insistente, de encontrar novos nomes, novas lideranças, novas formas de exercer a política. Apenas o PSB, até aqui, parece levar a sério esse chamado, ensaiando internamente o exercício de formação de novas lideranças e discutindo nomes que ainda não enfrentaram o desgaste da exposição prolongada. O PT, ao contrário, parece prisioneiro de sua própria mística. E, ao insistir em Lula como candidato, corre o risco de empurrá-lo para uma derrota irreversível. Não há traição maior a um líder histórico do que insistir em mantê-lo como candidato quando os dados mostram que a vitória não virá.

Em outro artigo, escrevi que “o Brasil que se anuncia em 2026 não é mais aquele que gritou por Lula Livre nem aquele que depositou em Lula, em 2022, a última esperança contra o abismo. Esse país mudou. E como toda mudança profunda, não pede lealdades cegas, mas escuta atenta. A história não se repete por desejo. E a insistência em repetir, quando tudo em volta clama por renovação, pode transformar até um herói em tropeço”. Reitero: não entendo a política como um espaço de fidelidade cega a biografias. Entendo como um campo em disputa por futuros. E o futuro que se insinua no horizonte exige mais inteligência coletiva que fidelidade emocional. Lula pode ser o articulador da continuidade democrática, o fiador de um novo ciclo. Mas não será, com essa rejeição, o vitorioso das urnas.

A política exige leitura de tempo, escuta de rua, sensibilidade de época. O povo quer mudança. A insistência em Lula não é fidelidade: é miopia. É ignorar que há uma nova geração precisando de espaço, uma esquerda sedenta por novos rostos, um centro democrático que quer se reorganizar sem carregar o peso do passado. É, sobretudo, correr o risco de entregar o país de volta aos que odeiam o povo em nome do povo, aos que confundem ordem com opressão e Deus com censura.

Digo com toda convicção: não há traição maior a Lula do que empurrá-lo para uma derrota certa, com o pretexto de defendê-lo. A história está cheia de grandes líderes que não souberam a hora de parar. E por isso apagaram a própria luz. Lula tem a chance de não repetir esse erro. Tem a oportunidade rara de ser mais que um ex-presidente. De ser o nome que garantiu a transição para um novo ciclo democrático, afastando o espectro autoritário que ainda ronda o Brasil.

Por isso, repito com firmeza: se o PT e o lulismo querem vencer em 2026, precisam de Lula como símbolo, como articulador, como pai político de uma nova aliança, de uma nova candidatura, de uma nova esperança. Mas não como o nome na urna. A grandeza, às vezes, exige silêncio. E saber sair é, muitas vezes, o gesto mais revolucionário de um líder.

* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

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