O domingo em que as ruas reaprenderam a respirar: vozes contra a blindagem e a anistia

A mobilização, que parecia enfraquecida nos últimos anos, mostrou que ainda pulsa com vigor quando provocada por ameaças tão concretas

O dia 21 de setembro de 2025 amanheceu com um sol que parecia pulsar sobre os telhados, como se a própria claridade quisesse convocar o povo para um rito de presença. E o povo atendeu. Nas cidades grandes e nas capitais, nas esquinas e nas praças, nas avenidas largas e nas ruas que desembocam no coração político do País, a indignação transformou-se em movimento. O que se viu foi mais que um protesto: foi uma declaração de existência, uma reafirmação da democracia como corpo vivo, como sopro coletivo que não admite silenciamentos.

Em pelo menos 33 cidades, incluindo todas as 27 capitais, o grito ecoou. O Brasil se ergueu, inteiro, contra o que muitos chamaram de ofensa à própria ideia de República. A PEC da Blindagem e o PL da Anistia converteram-se em símbolos de um pacto contra a cidadania. Mas a cidadania reagiu. Foi um domingo de corpos em marcha, de cartazes erguidos, de vozes tão múltiplas que pareciam se fundir em uma só respiração nacional.

No Rio de Janeiro, Copacabana se fez mar de gente. Quase 42 mil manifestantes transformaram a orla em palco de resistência. Gritos cortaram o vento úmido do Atlântico: contra a anistia, contra a blindagem, contra a sombra de uma impunidade travestida de lei. Em São Paulo, a Paulista foi tomada por mais de 42 mil pessoas que desafiaram a chuva para demonstrar que democracia não se negocia. E em Belo Horizonte, a Praça Raul Soares transbordou de cantos e palavras de ordem, embalada pela voz emocionada de artistas que compreenderam que a arte, nesse instante, é também trincheira.

Havia medo, sim, e havia raiva. Mas sobretudo havia esperança. O medo não paralisava, a raiva não destruía. Ambos se misturavam à esperança em um caldo vigoroso que, transbordando das ruas, incendiava consciências. Porque o que estava em jogo não era apenas um debate legislativo, mas o destino da memória democrática do País.

A PEC da Blindagem, rebatizada nas vozes populares como “PEC da picaretagem”, propõe o inaceitável: que deputados e senadores só possam ser processados ou presos com autorização do próprio Congresso, salvo em flagrantes inafiançáveis. Um golpe disfarçado de formalidade, um escudo de privilégio erguido contra a justiça. O PL da Anistia, por sua vez, buscava perdoar ou reduzir penas de quem atentou contra a democracia em 8 de janeiro de 2023. Dois projetos que, juntos, configuram um ataque à memória, um insulto à verdade, uma afronta à justiça.

Por isso as ruas se inflamaram. Movimentos sociais, sindicatos, partidos de esquerda e centro-esquerda, estudantes, trabalhadores, artistas e intelectuais reuniram-se sob as mesmas palavras de ordem. MST, MTST, frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, todos compuseram a sinfonia da indignação. E havia bandeiras do Brasil, colorindo as multidões como lembrança de que a pátria não pertence a golpistas, mas ao povo que a defende.

Aos olhos atentos da sociologia e da política, este domingo foi mais que protesto: foi diagnóstico. As redes sociais espelhavam a rua, com 83% das menções rejeitando a PEC da Blindagem, segundo levantamento da Quaest. O Brasil progressista, tantas vezes disperso, reapareceu com força palpável. A mobilização, que parecia enfraquecida nos últimos anos, mostrou que ainda pulsa com vigor quando provocada por ameaças tão concretas.

E houve lágrimas. Houve abraços. Houve vozes de artistas como Daniela Mercury, Wagner Moura, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Fernanda Takai, todos emprestando seus corpos e suas vozes ao coro coletivo. A emoção não era ornamento, era substância: era o sinal de que a política, quando se encarna na rua, é também poesia, é canto, é liturgia civil.

O êxito não foi apenas político, embora tenha sido evidente a capacidade de articulação de partidos e movimentos. O êxito foi também simbólico. As imagens das avenidas tomadas de gente diversa, os cartazes improvisados que denunciavam a impunidade, as vozes que se somavam como um único pulmão, tudo isso se inscreve na memória como cicatriz luminosa de um tempo em que a sociedade decidiu não se ajoelhar.

A democracia não se mantém apenas nos textos constitucionais, mas no suor de quem ocupa as praças, no grito de quem desafia a injustiça, no gesto coletivo de recusar o silêncio. No dia 21 de setembro de 2025, as ruas brasileiras reaprenderam a respirar. E o fôlego que se ergueu nesse domingo não cabe em relatórios, nem em manchetes passageiras: é um fôlego que pede continuidade, que exige reverberar nas urnas, nas decisões parlamentares, na vida política cotidiana.

Foi um domingo que se tornará memória. Mas memória viva, memória de luta, memória de resistência. Um domingo em que o Brasil olhou para si mesmo e disse, sem titubear: aqui, a democracia ainda vive.

*Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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