* Paulo Baía
A pesquisa Ipec, tornada pública no frio junho de 2025, não trouxe surpresas, mas trouxe peso. Como um espelho silencioso, refletiu com precisão matemática os traços de uma inquietação que já tomava o corpo da política brasileira. É como se o país sussurrasse, entre os dentes cerrados pela frustração, que algo não anda bem. Que o retorno triunfal de Luiz Inácio Lula da Silva, celebrado em prosa e lágrima em 2022, hoje se curva à gravidade de um tempo mais duro, mais cético, menos poético. Segundo o levantamento feito com dois mil eleitores em 132 cidades, entre os dias 5 e 9 de junho, 43% dos brasileiros dizem que o governo é ruim ou péssimo; 25% ainda o enxergam como ótimo ou bom; 29% optam pela cautela do regular; 2% se recusam a responder ou não sabem. Números são isso: um punhado de estatísticas que, em silêncio, denunciam mundos inteiros.
Há quem diga que dentro da margem de erro nada se move. Mas não é verdade. Porque política não é apenas aritmética, é também temperatura, linguagem, alma. Uma queda de dois pontos na avaliação positiva e um avanço idêntico na rejeição não podem ser lidos com frieza técnica. São sinais. Como as primeiras nuvens que anunciam a tempestade. Como o olhar vago do eleitor que já não escuta com esperança, mas com impaciência. Lula, o homem que tantas vezes domou a linguagem do povo, que transformou metáforas em políticas públicas e slogans em sentimento coletivo, encontra agora um Brasil exaurido. Um país que não se contenta mais com o discurso da resistência, pois precisa, com urgência, da materialidade do cuidado.
O encanto não se desfez de repente. Foi saindo de cena como se apagam as luzes de um palco ao fim de uma peça. Lento, cerimonial, triste. Aqueles que lhe deram o voto em 2022 — por convicção ou por repulsa ao bolsonarismo — parecem hoje encerrar um luto. O luto da expectativa frustrada, o luto de um país que queria respirar e sente ainda o peso do ar rarefeito. Há avanços, é verdade. O novo PAC reluz nos papéis e nos anúncios. O piso da enfermagem é uma conquista. A agenda ambiental retoma o prestígio global do Brasil. Mas tudo parece acontecer em paralelo à vida. Os supermercados continuam caros, o transporte público continua escasso, a violência urbana cresce como uma erva daninha. E o povo, esse povo que sempre reconheceu Lula como um dos seus, começa a se perguntar se ainda há pontes entre o Planalto e a calçada.
O número que mais revela, talvez, seja o dos 29% que dizem: regular. Um verbo suspenso. Uma hesitação. Um não-sim nem não. Nessa massa morna reside o futuro imediato do governo. São os pragmáticos, os céticos, os feridos. São os que podem ser convencidos, mas também os que podem virar as costas. Lula precisa reencontrar essas pessoas. Precisa reaprender a lhes falar não com a pompa dos palanques, mas com a escuta de quem se curva à realidade. E a realidade, hoje, pede pão, segurança, justiça, dignidade. Pede também respeito ao tempo das pessoas, à complexidade das suas dores. Esses brasileiros querem menos promessas e mais presença.
A ascensão do índice negativo, que chega aos 43%, não é mera contabilidade política. É uma travessia simbólica. Marca a consolidação de uma desaprovação que já não é só de bolsonaristas convictos ou opositores orgânicos. É também de setores que se sentem órfãos. Evangélicos, sim, mas também católicos. Trabalhadores autônomos. Jovens periféricos. Comerciantes. Mulheres chefes de família. Gente que esperava não milagres, mas normalidade. E encontra um governo cercado de ruídos, de disputas internas, de uma comunicação que parece falar mais consigo mesma do que com a sociedade. A linguagem da política, que Lula sempre manejou com maestria, agora lhe escapa por entre os dedos. Porque o país mudou. Porque o silêncio das redes muitas vezes fala mais alto do que os discursos nas praças.
Não há hoje um herdeiro direto de Bolsonaro com força nacional. Mas há uma direita pulsante, organizada, com raízes religiosas, digitais, policiais e empresariais. Alimenta-se do erro dos adversários, da apatia do centro, do descompasso das esquerdas. Se Lula não tomar de volta a iniciativa, se não recuperar a inteligência política de costurar amplos acordos, de ouvir e reformular-se, será essa direita que ditará o ritmo da dança em 2026. A pesquisa Ipec, assim, não é só uma fotografia do agora. É uma janela para o que virá. Apenas 25% de aprovação. Um quarto do país ainda acredita. Os outros três quartos hesitam ou rejeitam. É muito pouco para quem precisa governar com grandeza e visão.
O tempo, na política, é cruel. A história, por sua vez, é indulgente apenas com quem sabe reinventar-se. Lula, que já foi operário, símbolo, presidente, mártir e mito, pode, se quiser, ser também o líder que reconstrói pontes quando tudo parece ruir. Mas precisa abrir mão do conforto da nostalgia. Precisa ouvir o ruído da insatisfação como quem ouve um hino desafinado. Com urgência. Com humildade. Com método. Porque o povo brasileiro fala, mesmo quando cala. E hoje, neste silêncio que toma conta das pesquisas, das ruas, das igrejas, das filas de ônibus e dos corredores de hospital, o que se ouve, ainda que sem palavras, é um apelo profundo: “Nos escute, presidente. Escute com o coração de quem veio do chão. Escute com a coragem de quem já viu a fome. Escute com a lucidez de quem sabe que o tempo da esperança, sozinho, não constrói o amanhã.”
Este é o tempo de escutar. E de agir. Porque toda estatística, no fundo, é uma história esperando ser compreendida. E cada número desta pesquisa traz, sob a frieza da porcentagem, a voz de milhões. Elas ainda falam com Lula. Mas por quanto tempo?
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.





