* Paulo Baía
O Brasil sempre desconfiou de si quando tentou se explicar com palavras estrangeiras. Há um desconforto antigo, quase estrutural, na tentativa de traduzir sua experiência histórica com conceitos importados, moldados em outras geografias, outras temporalidades, outros conflitos. É nesse ponto de fricção entre linguagem e realidade que se inscreve a obra de Christian Edward Cyril Lynch, cuja ambição intelectual não é apenas classificar ideias, mas restituir ao país o direito de se compreender com categorias nascidas de sua própria experiência histórica.
A sociologia política de Lynch parte de uma recusa. Recusa a ideia de que o eixo esquerda e direita, tal como formulado na tradição liberal europeia, seja suficiente para dar conta do drama brasileiro. Recusa também a noção de que as ideias políticas sejam meros reflexos atrasados de modelos centrais. No lugar disso, propõe um gesto mais exigente. Ler o Brasil como texto longo, escrito ao longo de dois séculos, atravessado por impérios, repúblicas, golpes, conciliações, autoritarismos e promessas de redenção nacional.
Nesse gesto há algo de arqueológico e algo de literário. Lynch escava discursos parlamentares, ensaios, manifestos, artigos de jornal e tratados acadêmicos não como quem procura coerência abstrata, mas como quem observa estilos de pensamento, sensibilidades políticas, modos recorrentes de imaginar o Estado, o povo, a ordem e o futuro. As ideologias, em sua leitura, não são dogmas fechados. São gramáticas morais. São repertórios de sentido. São formas socialmente produzidas de responder à pergunta que retorna sempre. Quem somos nós enquanto coletividade política.
Há, nesse percurso, uma coragem intelectual rara. A coragem de enfrentar o arquivo nacional sem ironia colonial invertida e sem a tentação do exotismo teórico. Lynch não se refugia no conforto de rótulos consagrados nem se abriga sob o guarda-chuva fácil de um discurso decolonial genérico que, muitas vezes, substitui análise por denúncia e complexidade por slogan. Sua escolha é mais arriscada. Levar a sério os pensadores brasileiros, inclusive quando erram, quando são ambíguos, quando produzem ideias incômodas ao presente. Trata-se de um respeito intelectual que não absolve, mas compreende, e que entende a tradição não como herança moral, mas como campo de disputa simbólica.
É por isso que sua tipologia das ideologias brasileiras não nasce de um laboratório estatístico, mas de uma longa convivência com o arquivo nacional. Conservadorismos que se distinguem entre a defesa da ordem social enraizada na família e na religião e a crença em um Estado forte como fiador da hierarquia. Socialismos que se separam entre o universalismo cosmopolita dos direitos e o nacionalismo desenvolvimentista herdeiro do trabalhismo. Liberalismos que oscilam entre a defesa do mercado e a proteção das instituições. Autoritarismos que se apresentam como modernização. Populismos que falam diretamente ao povo contra as mediações institucionais.
O que está em jogo não é apenas uma classificação elegante. É uma mudança de escala na interpretação do comportamento político brasileiro. Ao demonstrar que essas tradições não são marginais, mas estruturantes, Lynch desloca o foco da análise eleitoral para um plano mais denso. O plano das ideias como força social. O plano das crenças que orientam expectativas, medos, esperanças e adesões políticas.
Quando essa arquitetura teórica encontra a pesquisa empírica realizada em parceria com o Meio e o Instituto Ideia, algo raro acontece no debate público brasileiro. A teoria desce ao chão da sociedade. O arquivo conversa com a rua. E o resultado desmonta certezas confortáveis. Descobre-se que a maior parte dos brasileiros não se organiza em campos ideológicos rígidos, mas em torno de buscas morais elementares. Ordem, estabilidade, proteção, reconhecimento, pertencimento.
Aqui se revela outro traço decisivo da sociologia política de Lynch. Sua atenção não se dirige apenas às ideias formuladas nos textos, mas às práticas que as sustentam, às ações que as atualizam, aos discursos cotidianos que as tornam inteligíveis. A ideologia não aparece como sistema fechado, mas como prática social reiterada. Ela se manifesta no modo como se vota, no modo como se fala do Estado, no modo como se interpreta a violência, a desigualdade, a autoridade e a promessa de futuro. Trata-se de uma sociologia das ideias que não separa pensamento e vida social, conceito e experiência.
O chamado conservadorismo societário emerge então não como caricatura reacionária, mas como forma social de racionalidade política. Um modo de ver o mundo em que o Estado é percebido com desconfiança, a família funciona como núcleo de segurança simbólica e a religião fornece uma bússola moral diante de um cotidiano instável. Não se trata de um conservadorismo doutrinário. Trata-se de um conservadorismo vivido. Enraizado na experiência periférica, feminina em muitos casos, atravessado por precariedades materiais e por uma relação tensa com o conflito político aberto.
Essa constatação carrega implicações sociológicas decisivas. O eleitor não se move prioritariamente por adesão a programas abstratos, mas por avaliações concretas de risco e previsibilidade. A política aparece menos como espaço de transformação radical e mais como mecanismo de contenção do caos. Nesse sentido, a ideologia funciona como abrigo simbólico. Não como bandeira.
Outro deslocamento relevante provocado por essa leitura é o colapso da crença meritocrática segundo a qual escolaridade e idade seriam fatores determinantes da orientação ideológica. A pesquisa revela algo mais incômodo. A ideologia se forma mais pelo território, pela renda e pela religião do que pela passagem por instituições formais de ensino. O conhecimento técnico não dissolve automaticamente valores morais. A informação não substitui pertencimento. A razão ilustrada não reina sozinha sobre a vida social.
O pensamento de Lynch obriga, assim, a uma revisão das arrogâncias ilustradas que atravessam tanto a esquerda quanto a direita. Obriga também a reconhecer que a política brasileira se estrutura menos por polarizações binárias e mais por constelações móveis de sentido. Lula e Bolsonaro, cada um a seu modo, orbitam essas constelações. Dialogam com ideologias distintas, por vezes contraditórias, reunidas em alianças improváveis pela promessa comum de ordem, proteção ou redenção.
Há algo de desconfortável e ao mesmo tempo libertador nessa leitura. Desconfortável porque retira do debate político a ilusão de pureza ideológica. Libertador porque devolve complexidade ao país. O Brasil que emerge do pensamento de Lynch não é atrasado nem confuso. É denso. É plural. É atravessado por camadas históricas que não se anulam, mas coexistem em tensão permanente.
Esse Brasil pensa a si mesmo não em linhas retas, mas em círculos imperfeitos. Avança recuando. Moderniza conservando. Democratiza hierarquizando. O mérito da obra de Lynch está em não julgar esse movimento a partir de padrões externos, mas em descrevê-lo com rigor sociológico e sensibilidade histórica. Ao fazê-lo, oferece não uma resposta definitiva sobre quem somos, mas algo mais raro. Um vocabulário mais honesto para continuar a pergunta.
Em tempos de slogans fáceis e análises apressadas, essa é uma contribuição intelectual de alto risco e grande valor. Pensar o Brasil a partir de suas próprias ideias exige paciência, erudição e disposição para enfrentar ambiguidades. Exige aceitar que a política não é apenas disputa de poder, mas também narrativa coletiva. Uma narrativa escrita por muitos, em registros distintos, onde a busca por sentido é tão importante quanto a luta por governo.
Lynch não entrega consolo. Entrega método. E talvez seja isso que mais incomode. Porque compreender o Brasil com suas próprias palavras implica abandonar a segurança das fórmulas prontas e encarar, sem atalhos, a complexidade de uma sociedade que nunca coube inteiramente nas teorias que tentou importar.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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