‘Nunca escolhi chefe, escolhi missão’: a frase que fez um deputado de 37 anos virar o novo governador do Rio

Deputado derrotou Eduardo Paes, que liderava as pesquisas, e evitou segundo turno; decisão do TSE retirou 274 mil votos de Garotinho da conta

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Foi uma das mais surpreendentes viradas da história política recente do Rio de Janeiro. Depois de meses e meses em que as pesquisas apontavam que o caminho de Eduardo Paes até o Palácio Guanabara mais parecia um passeio primaveril à beira-mar, a canoa do ex-prefeito virou. No sábado antes da eleição, o Datafolha cravou que Eduardo venceria Douglas Ruas por 48% a 36% dos votos. Errou feio, errou rude.

Contados os votos, Ruas venceu em 79 dos 92 municípios do estado e teve 4.271.199 votos, o equivalente a 49,27% do total. Paes recebeu 3.706.984 votos, ou 42,76%. A diferença entre os dois foi de 564.215 votos. Mais do que o dobro dos votos do problema que adiou a confirmação do presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) como novo governador do Rio de Janeiro. Um problema com nome e sobrenome: Anthony Garotinho.

Se você passou os últimos meses olhando pro céu torcendo pela chegada antecipada do verão e não faz ideia do imbróglio, Garotinho participou da eleição mesmo com o registro indeferido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ). Ele recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e conseguiu permanecer na disputa enquanto o caso era analisado.

Com a decisão provisória, seu nome e número apareceram nas urnas. O ex-governador também fez campanha, participou de debates e teve espaço no horário eleitoral. Terminou levantando apenas 274.411 votos e ficando em terceiro colocado. No dia seguinte à votação, porém, Garotinho apresentou ao TSE um pedido de desistência do recurso que discutia seu registro, acompanhado de uma declaração de renúncia.

A discussão ganhou importância porque os votos de Garotinho alteravam a conta utilizada para definir se Douglas Ruas havia ou não alcançado mais da metade dos votos válidos. Segundo os cálculos, com os votos do ex-governador retirados da conta, Douglas Ruas passaria de 49,27% para 50,88% dos votos válidos.

Nesse cenário, ele ultrapassaria a marca necessária para vencer no primeiro turno, eliminando a necessidade de uma segunda votação. Tudo caminhava para mais uma novela. Na terça-feira, Eduardo Paes recorreu ao TSE para que os votos de Garotinho fossem considerados válidos.

No mesmíssimo dia, a Procuradoria-Geral Eleitoral apresentou parecer favorável à consideração dos votos de Garotinho como nulos, e a OAB-RJ cobrou que a decisão da corte superior fosse tomada com celeridade, antes da data marcada para o segundo turno das eleições deste ano, no próximo dia 25. Desde março deste ano o estado vinha sendo governado interinamente pelo desembargador Ricardo Couto.

Nesta quinta-feira, o TSE julgou a questão favorável a Douglas Ruas, transformando um deputado estadual de primeiro mandato em protagonista de um enredo que por um longo tempo parecia apenas uma obrigação para Eduardo Paes dar um rolé pelo estado.

Aos 37 anos, o policial civil e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, passou de herdeiro político local a principal aposta do bolsonarismo do Rio de Janeiro. A convenção que oficializou sua candidatura contou com manifestações por telefone da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro, sinalizando o alinhamento do partido em torno de seu nome.

Não é novidade alguma na política do Rio de Janeiro a passagem de bastão, ou de um naco de poder, de geração para geração. Os exemplos dão enciclopédias e todo herdeiro vive sob a sombra de uma pergunta incômoda: o que pesa mais, a estrela do pai ou o mérito próprio? Douglas Ruas não inventou essa fórmula, somente a aplicou somando um período no batalhão do ambientalismo estadual, outro na gestão municipal, mais um na articulação de emendas até a presidência de uma Casa Legislativa conhecida nacionalmente como um vespeiro, tudo antes dos 38 anos.

E assim, mais uma vez, a população do estado vai torcer para que a narrativa que o PL vendeu, de que Ruas será o nome da segurança pública e da eficiência administrativa, encontre lastro na dura e muitas vezes violenta realidade estadual.

A ascensão de Douglas Ruas

Douglas Ruas dos Santos nasceu em São Gonçalo, em 17 de janeiro de 1989, formou-se em Direito, tornou-se policial civil e ingressou formalmente na política ao assumir, em janeiro de 2021, a recém-criada Secretaria Municipal de Gestão Integrada e Projetos Especiais durante a gestão de seu pai, o prefeito Capitão Nelson. Filiou-se ao PL e rapidamente passou a ocupar espaço no grupo político liderado por Altineu Côrtes, deputado federal e uma das principais lideranças da legenda no estado.

A própria definição de sua trajetória costuma ser feita por ele em termos familiares. Em entrevista após a eleição de 2022, afirmou: “Meu pai é a minha maior referência na política”. A frase ajuda a explicar por que sua origem política é inseparável da estrutura construída pela família Ruas em São Gonçalo, onde a prefeitura se tornou o principal laboratório de sua carreira.

Como assim?

Douglas Ruas foi titular da Secretaria Municipal de Gestão Integrada e Projetos Especiais de São Gonçalo de janeiro de 2021 até abril de 2022, quando deixou o cargo para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A pasta foi criada no início da gestão de seu pai, o Capitão Nelson e concentrou projetos de infraestrutura, captação de recursos e articulação de investimentos para o município.

Entre as primeiras iniciativas atribuídas à secretaria estavam ações de pavimentação, drenagem, urbanização e coordenação de projetos financiados por recursos estaduais e federais.

Mas quem é o capitão Nelson?

Antes de virar prefeito, Nelson Ruas dos Santos foi oficial do 7º BPM (São Gonçalo) e ganhou notoriedade nos anos 1990 por integrar a chamada “carruagem do além”, apelido dado a uma patrulha conhecida pela letalidade em confrontos, além de ter recebido mais de uma vez a antiga “gratificação faroeste”, bônus por produtividade policial criado em 1995 e extinto em 1998 após estudos da Uerj e da UFRJ apontarem que dois terços das mortes analisadas eram execuções.

O bairro do Pacheco, em São Gonçalo, é o berço eleitoral da família Ruas. Foi ali que Nelson construiu sua base, e foi ali que Douglas e o irmão mais velho, Nelsinho, aprenderam os primeiros passos da política prática. Acompanhando o pai em atendimentos a eleitores, os dois irmãos absorveram a dinâmica do contato direto com a população. E o mais importante, o valor que asfalto e obras têm numa disputa eleitoral.

Os primeiros passos

Assim que Capitão Nelson tomou posse como prefeito, em janeiro de 2021, nomeou o próprio filho para chefiar a recém-criada Secretaria Municipal de Gestão Integrada e Projetos Especiais, escolha que rendeu denúncia de nepotismo ao Ministério Público, negada pela prefeitura. Douglas permaneceu no cargo até abril de 2022, quando saiu para concorrer a deputado estadual, ou seja, ficou pouco mais de um ano à frente da pasta.

Nesse período, em contraste com estilo do pai, Douglas se revelou um político maneiroso, com boa capacidade de articulação, dialogando com todas as frações do eleitorado da cidade. “A atribuição era criar um portfólio de projetos e captar recursos junto ao governo federal, estadual e parlamentares com emendas”, afirmou o candidato completando que, naquele período, foi “estabelecendo relações”. As primeiras realizações da secretaria, portanto, tiveram menos a ver com obra entregue e mais com a construção da rede de contatos que sustentaria toda a carreira seguinte.

Os votos que colocaram São Gonçalo no mapa eleitoral

Em 2022, Douglas Ruas elegeu-se deputado estadual pela primeira vez com 175.977 votos, a segunda maior votação para o cargo no Rio de Janeiro naquele pleito. Desse total, impressionantes 149.576 votos vieram de São Gonçalo, o que representou 33% dos votos válidos da cidade — terceiro maior colégio eleitoral do estado. Em outras palavras, Ruas não se elegeu deputado; foi aclamado por São Gonçalo.

O desempenho revela a força da máquina política familiar na cidade. O pai, Capitão Nelson, já havia sido reeleito prefeito com folga no primeiro turno; a aprovação de sua gestão na prefeitura chega a 88%; o irmão Nelsinho era vereador; os dois irmãos, aliás, são sócios numa empreiteira aberta em 2011, a Saur Construções, e Nelsinho também é dono de um haras batizado com o mesmo nome da empresa. Douglas surfou na onda do sobrenome e das emendas parlamentares que injetaram recursos na administração, multiplicando projetos e obras por toda cidade. Os 175.977 votos não eram apenas um número, eram a materialização de um projeto político dos Ruas.

O convite que virou vitrine

Menos de um ano depois de tomar posse na Alerj, em setembro de 2023, Ruas deixou o mandato para assumir a Secretaria de Estado das Cidades, a convite do governador Cláudio Castro, que o tirou do plenário e o colocou na linha de frente da execução das obras municipais. À frente da pasta, lançou o programa Governo Presente nas Cidades, que se tornaria justamente a vitrine principal de sua futura pré-candidatura.

Ao longo de dois anos e meio no comando da secretaria, Ruas circulou por dezenas de municípios inaugurando obras, sempre acompanhado de prefeitos aliados e do deputado Altineu Côrtes. À frente da pasta, o candidato teve contato frequente com prefeitos de todo o estado, conduzindo obras de asfaltamento, melhorias urbanas e sistemas de drenagem em diferentes municípios. “O que me projetou para ser um nome considerado foi a minha atuação na secretaria, que me deu capilaridade de relação institucional com prefeitos e deputados e me deu a oportunidade de conhecer o interior do estado”, disse.

As Joias da Coroa

Entre os projetos que Douglas Ruas mais exibiu na campanha está a reurbanização da Avenida 22 de Maio, em Itaboraí, corredor de quase 12 quilômetros com pavimentação, drenagem, ciclovia e nova ponte sobre o Rio Iguá, parte de um pacote de seis obras que somam mais de R$ 390 milhões só naquele município. Também apareceram com frequência o Parque RJ em São Gonçalo, apontado como o maior espaço público de lazer do Leste Fluminense, e o Muvi, corredor viário de 18 quilômetros com ciclovia na cidade natal do candidato.

“O meu sonho sempre foi transformar a vida das pessoas através de investimentos em infraestrutura, mobilidade e qualidade de vida”, declarou, durante o aniversário de Itaboraí.

O que mudou na Alerj com ele no comando?

Douglas Ruas foi eleito presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em abril de 2026, em meio à crise institucional provocada pela cassação de Cláudio Castro. A eleição ocorreu com boicote da oposição e o colocou no centro da disputa sobre a linha sucessória do governo estadual. Suas medidas iniciais foram pensadas para construir uma imagem de gestor responsável e articulador.

Uma das primeiras medidas anunciadas foi a criação de uma comissão especial para investigar gastos públicos, prometendo começar a fiscalização pela própria Casa antes de mirar os outros poderes. “Essa comissão terá a missão de fazer um diagnóstico aprofundado das contas públicas e identificar caminhos para conter despesas, corrigir distorções e garantir maior responsabilidade fiscal”, afirmou então.

Ao explicar por que aceitava discutir corte de gastos justamente depois de ter integrado o governo Cláudio Castro, resumiu sua posição numa frase de efeito: “Nunca escolhi chefe, escolhi missão”, numa tentativa de separar o funcionário disciplinado do político com projeto próprio.

Como Douglas Ruas venceu Eduardo Paes?

Todos sabiam que a parada era duríssima. Nas pesquisas divulgadas ao longo do primeiro semestre de 2026, Eduardo Paes aparecia com folga na liderança, chegando a mais de 30 pontos de vantagem sobre Ruas em cenários de primeiro e segundo turno, segundo levantamentos de diferentes institutos. Aliados do PL passaram a apostar na exposição do horário eleitoral e na nacionalização da disputa para reduzir a distância nas urnas. Deu mais certo que o mais otimista assessor podia sonhar.

Douglas Ruas escolheu a segurança pública como seu principal cavalo de batalha para a virada, defendendo a retomada de territórios dominados por facções criminosas como eixo central de seu governo. “Se eu tiver a confiança do povo fluminense, com certeza o comandante em chefe de todas as forças de segurança serei eu mesmo”, declarou. Em outra ocasião, resumiu o argumento que durante a campanha eleitoral, repetiu à exaustão: “É preciso coragem e força para enfrentar o crime organizado”, disse.

E como será agora o governo Douglas Ruas?

Durante a campanha ele prometeu um “modelo Bukele” no Rio, com ocupação militar de áreas dominadas pelo crime, bloqueio financeiro das facções, controle rígido das prisões, investimento em tecnologia e armamento, e programas sociais para jovens. Ao mesmo tempo, tentará se descolar da imagem de “herdeiro” e construir a de gestor que “conhece o interior” por ter viajado o estado à frente da Secretaria das Cidades.

Sua candidatura sintetizou, talvez melhor do que qualquer outra no atual tabuleiro estadual, a tensão entre dois discursos que raramente se sustentam ao mesmo tempo: o de outsider que promete reformar o estado e o de herdeiro que nunca esteve, de fato, do lado de fora do poder.

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