Guibsom Romão
A Marquês de Sapucaí voltou a pulsar sem o peso da expectativa e apenas com o brilho da consagração, as seis primeiras colocadas do Carnaval retornaram para celebrar seus próprios feitos — e reafirmar suas identidades neste sábado (21). Da Mangueira, 6ª colocada com 269,2 pontos, à Viradouro, campeã com nota máxima de 270, a noite das campeãs foi menos sobre disputa e mais sobre memória, excelência e a força estética de enredos que transformaram a Avenida em território de fé, arte, ancestralidade e celebração do samba.
Na noite das campeãs, a Estação Primeira de Mangueira voltou à Marquês de Sapucaí com a altivez de quem terminou em 6º lugar, somando 269,2 pontos. Sob a assinatura do carnavalesco Sidney França, a Verde e Rosa apresentou o enredo Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O guardião da Amazônia Negra, um mergulho na espiritualidade amazônica e nas matrizes afro-indígenas que moldam o Norte do país.

O desfile foi um feitiço coreografado, do meio do mundo à avenida, com alegorias grandiosas e uma estética que uniu ancestralidade e denúncia ambiental, reafirmando a Mangueira como escola que transforma enredo em manifesto visual.
A escola que perdeu décimos em Comissão de Frente, que não empolgou; em Mestre-Sala e Porta-Bandeira, que não agradaram aos jurados; em Enredo, que, para o júri, não foi bem desenvolvido; e em Samba-Enredo, que havia sido muito criticado desde a escolha, fez uma abertura de sábado clássica, digna da Mangueira.
Com seu carisma quase centenário, a Mangueira abriu os trabalhos com seu feitiço amapaense. A respeito do casal, a escola desfilou com uma faixa escrita: “A Estação Primeira manifesta todo apoio ao nosso Casal Furacão Mangueira em defesa da dança ancestral”, em resposta às justificativas das notas dos jurados.

Além disso, levou para a Avenida um banner em defesa da componente Laissa, assassinada vítima de feminicídio antes do desfile de domingo. Mesmo em um dia de comemoração, a Mangueira não deixou de se manifestar.
Em 5º lugar, com 269,4 pontos, a Imperatriz Leopoldinense mostrou por que é camaleônica e arrebatadora. O carnavalesco Leandro Vieira transformou Ney Matogrosso em espetáculo com o enredo que celebrou a trajetória transgressora e poética do artista, costurando liberdade, contracultura e arte brasileira num mesmo tecido luxuoso.
A Imperatriz cantou alto, evoluiu com segurança e fez da vida de Ney uma ópera tropical na Sapucaí, reafirmando sua vocação para desfiles conceituais e populares ao mesmo tempo.

Outros quesitos tiraram décimos da Imperatriz, mas o samba-enredo, que já era esperado, tirou 0,4 décimos da escola, deixando ela mais distante de posições melhores. No entanto, neste sábado, a escola e as arquibancadas se jogaram na festa ao som do samba da Imperatriz e seu desfile que, mais uma vez, contou com Ney Matogrosso no último carro.
O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro desfilaram já fora da escola, após anunciarem o desligamento nesta semana. Outros profissionais como o coreógrafo da comissão de frente e o carnavalesco da escola estão sendo sondados por outras escolas, mas isso não abalou a volta da Imperatriz à Sapucaí, o clima foi de festa e celebração.

O 4º lugar ficou com o Acadêmicos do Salgueiro, que alcançou 269,7 pontos e levou à avenida o enredo A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau, desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira. Em homenagem à obra de Rosa Magalhães, o Salgueiro transformou a Sapucaí numa galeria viva, onde fantasia e erudição desfilaram lado a lado.
Foi um cortejo vibrante, técnico e emocionante, que celebrou o legado da maior campeã da era Sambódromo com imagens sofisticadas e um vermelho pulsante que parecia brotar do asfalto.

Sendo também despontuado em samba-enredo, o que não foi uma surpresa, o Salgueiro, exibiu seu abre-alas imenso e luxuoso novamente e, ao som do violino, Salgueiro mostrou que seu lugar é no sábado das campeãs.
Com 269,9 pontos e a 3ª colocação, a Unidos de Vila Isabel sonhou alto com Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África, enredo de Gabriel Haddad e Leonardo Bora sobre o universo criativo de Heitor dos Prazeres.
A escola levou à Avenida novamente uma África recriada a partir do olhar do artista, misturando religiosidade, música e memória negra em alegorias inventivas e coreografias ousadas. Forte candidata ao título, a Vila fez da estética um discurso, mas perdeu o título no quesito Harmonia.

Para os jurados, algumas alas da escola apenas cantaram o refrão do samba-enredo, comprometendo a harmonia vocal do desfile, porém, nos desfile das campeãs, a comunidade da escola de Noel Rosa gritou o samba na Avenida. A Vila, que já renovou com toda a sua equipe para o carnaval de 2027, certamente virá pronta para o título que ficou no quase neste ano.
Vice-campeã, com 269,9 pontos, a Beija-Flor de Nilópolis apresentou o enredo Axé Campeão! O Bembé Celebra a Resistência Negra, assinado pelo carnavalesco João Vitor Araújo. A azul e branca exaltou o Bembé do Mercado, patrimônio cultural baiano, numa explosão de fé, tambor e identidade afro-brasileira.
A escola cruzou a Avenida com imponência e canto vigoroso, mirando o bicampeonato e reafirmando sua tradição de desfiles que unem religiosidade, política e espetáculo.

Mas o quesito Alegorias e Adereços, no qual a escola levou dois 9.9, tirou o bi-campeonato tão sonhado dos nilopolitanos. No entanto, foi quando ela pisou na Sapucaí que a festa começou, desfilando como quem facilmente poderia ter sido a campeã, a escola de Nilópolis novamente transformou a avenida em terreiro.
E o título, com os 270 pontos máximos, ficou com a Unidos do Viradouro. Campeã, a escola de Niterói levou para a Sapucaí um enredo que celebrou um mestre do samba, sob a batuta do carnavalesco Tarcísio Zanon. Quando o samba reverenciou seu mestre, Ciça, a Viradouro apresentou um desfile coeso e emocionante, no qual cada setor dialogava com a própria história do homenageado.

A consagração foi construída nos detalhes, do chão da comunidade ao topo das alegorias e, embora tenha enfrentado percalços técnicos, transformou a homenagem em espetáculo quase irrepreensível.
A grande campeã, no entanto, não passou ilesa aos olhares atentos. Um dos carros alegóricos, na segunda-feira, entrou na avenida com acabamento incompleto, e o elevador que deveria erguer uma escultura de caveira simplesmente não funcionou, falha amplamente comentada nas redes sociais.
Ainda assim, para os jurados, o problema não comprometeu o conjunto alegórico da escola de Niterói: a Viradouro gabaritou o quesito, recebendo quatro notas 10 e confirmando que, na soma fria das planilhas, o conjunto superou a falha pontual, e garantiu o campeonato.

No sábado das campeãs, a Viradouro entrou na Sapucaí com o dia amanhecendo, o que resultou ainda mais o brilho da campeã. Com as arquibancadas e frisas lotadas, a escola de Niterói foi novamente aplaudida e ovacionada como a grande campeã do ano.
Em mais uma noite inspirada de seu intérprete Wander Pires, a comissão de frente emocionante de Priscila Mota e Rodrigo Negri tendo Ciça como redentor da Sapucaí, o conjunto alegórico fascinante e, por fim, a bateria, seu mestre e sua rainha em cima do carro alegórico.
Tudo no desfile da Viradouro se encaixou perfeitamente, em especial, a volta da rainha Juliana Paes, tinha que ser ela.

Em suma, este Carnaval terminou provando que nada é mais necessário, e mais emocionante, do que as escolas de samba olharem para dentro de si. Ao revisitarem suas próprias histórias, valorizarem seus mestres, baluartes e comunidades, e buscarem referências nos próprios barracões e quadras, as agremiações reencontram a essência que as fundou e mantiveram.
É nesse mergulho interno, na memória coletiva e na vivência cotidiana de quem constrói o desfile o ano inteiro, que reside a força capaz de atravessar a avenida com verdade, identidade e potência.






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