Fechado desde 1991, o Teatro Leopoldo Fróes, um dos mais importantes espaços da história cultural de Niterói, será desapropriado pela prefeitura para passar por um processo de restauração e reabertura. A informação foi publicada por Ancelmo Gois, colunista do jornal O Globo. O prefeito Rodrigo Neves deverá assinar, ainda nesta semana, o decreto que dará início aos procedimentos para a recuperação do imóvel, localizado na Praça da República, no Centro da cidade.
Pertencente à Mitra Diocesana, o teatro está sem atividades há 35 anos e teve sua estrutura ainda mais comprometida por um incêndio ocorrido em 2021. A iniciativa representa uma tentativa de resgatar um patrimônio marcado pela resistência à ditadura militar, pela experimentação artística e pela formação de diferentes gerações de atores, diretores e músicos.
A recuperação do Leopoldo Fróes integra o projeto de revitalização do Centro de Niterói, que prevê a requalificação de espaços públicos, a valorização do patrimônio histórico e o fortalecimento da economia criativa.
“Niterói é uma das cidades que mais investem em cultura no Brasil. Acreditamos na cultura como elemento fundamental do nosso pacto de bem-estar social e prosperidade. Meu desejo de recuperar o Teatro Leopoldo Fróes, fechado há mais de três décadas, é um projeto que estamos tratando com carinho e planejamento”, diz o prefeito.
Segundo Rodrigo Neves, a proposta vai além da recuperação arquitetônica. O objetivo é transformar novamente o espaço em um centro de produção cultural, especialmente voltado aos grupos teatrais e coletivos artísticos de Niterói.
“Ele faz parte da memória afetiva da cidade e é um desejo antigo da classe artística. A história do teatro é forte, simbólica, e desejamos que ele abrace os grupos e coletivos teatrais e culturais niteroienses com seu fazer artístico desbravador. A cultura é um ponto-chave da economia criativa. Acreditamos que o Leopoldo Fróes, ao lado da biblioteca que reabrimos na Praça da República, será um dos pilares que se somam ao nosso plano de revitalização completa do Centro de Niterói.”
Artistas celebram recuperação de espaço histórico
O anúncio foi recebido com entusiasmo por representantes da classe artística, que há décadas reivindicam a recuperação do teatro. Para profissionais ligados à cena cultural niteroiense, a reabertura poderá representar não apenas a devolução de um palco à cidade, mas também a criação de novas oportunidades para a produção e a formação artística.
A atriz Natália Lage, nascida em Niterói, destacou ao g1 a importância da iniciativa para a preservação da memória cultural e para o fortalecimento das políticas públicas voltadas às artes.
“Acho importantíssima essa decisão de restaurar o Leopoldo Fróes, que conta um pouco da história da cultura de Niterói. Foi um teatro fechado pela ditadura, reaberto e que, recentemente, pegou fogo. Tenho visto na prefeitura diversas iniciativas de cuidado com as políticas culturais, que são fundamentais para a educação da nossa cidade e do nosso povo. A cultura tem esse papel de levantar questões e trazer reflexões. Quanto mais aparelhos culturais estiverem funcionando, melhor para a gente. Como cidadã de Niterói e artista, fico muito feliz com essa iniciativa”, elogia.
O diretor teatral Fabio Fortes, um dos responsáveis pelo festival internacional Niterói em Cena, também comemorou a decisão. Ele ressaltou o papel desempenhado pelo Leopoldo Fróes na formação de artistas e no desenvolvimento de uma linguagem teatral própria da cidade.
“O Leopoldo Fróes sempre foi a casa dos artistas de teatro de Niterói. Ali pudemos ter um teatro de grande importância para desenvolver estudos sobre a nossa linguagem. O Leopoldo Fróes faz parte da nossa memória afetiva, de quem trabalhava com teatro nos anos 1980, 1990 e 2000. Vai ser um grande feito da prefeitura restaurar esse patrimônio para a classe teatral”, diz.
Teatro foi símbolo de resistência à ditadura militar
A trajetória do Leopoldo Fróes está diretamente ligada à história política e cultural do Brasil. Inaugurado em 1973, em plena ditadura militar, o espaço surgiu em meio à repressão contra artistas e manifestações consideradas contrárias ao regime.
O imóvel abrigava anteriormente o Teatro Alvorada e foi alugado pelo Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural (INDC) durante as obras de reforma do Theatro Municipal de Niterói.
Naquele mesmo ano, o teatro foi fechado por determinação do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), depois da apresentação do musical “Arena conta Zumbi”, encenado pelo grupo Ceia, ligado ao Instituto Abel.
A montagem abordava a resistência dos quilombolas de Palmares e foi considerada subversiva pelos órgãos de repressão da ditadura.
Após dez meses de fechamento, a casa voltou a funcionar com o nome de Teatro Leopoldo Fróes, em homenagem ao ator e comediante nascido em Niterói, um dos nomes de destaque da história do teatro brasileiro.
A partir de então, o espaço consolidou-se como ponto de encontro de artistas, intelectuais e movimentos culturais, especialmente durante as transformações políticas e sociais que acompanharam a fusão dos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, em 1975.
O palco acolheu iniciativas como Niterói vai Sumir, Niterói vai Assumir e Araribroadway, além de grupos teatrais como Grito e Papel Crepon. Essas experiências contribuíram para a construção de uma identidade cultural própria e fizeram do teatro um ambiente de criação, debate e resistência.
De Elza Soares a Zélia Duncan, palco recebeu grandes nomes da música
Durante a década de 1980, o Leopoldo Fróes ampliou sua programação e passou a receber espetáculos profissionais vindos do Rio de Janeiro, além de projetos musicais que movimentavam a vida cultural de Niterói.
Entre as atrações estavam iniciativas como “Fim de tarde”, “Sete em ponto”, “Pixinguinha” e “Seis e meia”, que ajudaram a aproximar diferentes públicos do teatro.
O palco recebeu artistas consagrados da música brasileira, entre eles Sidney Magal, Elza Soares, Leci Brandão, Zizi Possi, Elba Ramalho e Pepeu Gomes.
Também passaram pelo espaço músicos ligados à cena niteroiense, como Zélia Duncan, Arthur Maia, Dalto, Byafra, Marvio Ciribelli, Sergio Chiavazzoli e Marcos Sabino.
A diversidade da programação transformou o Leopoldo Fróes em um importante centro de circulação cultural, reunindo teatro, música e manifestações artísticas que marcaram diferentes gerações.
O encerramento das atividades, em 1991, provocou forte reação entre artistas e produtores culturais. Na tentativa de impedir o fechamento, foi criado o movimento SOS Leopoldo Fróes, responsável por organizar manifestações públicas em defesa do espaço.
A mobilização incluiu um abraço simbólico ao prédio, um show na Praça da República e a coleta de assinaturas. Apesar da repercussão, os protestos não conseguiram evitar a interrupção definitiva das atividades.
Três décadas depois, em 2021, um incêndio atingiu o imóvel durante a pandemia de Covid-19, agravando seu estado de conservação.
Restauração integra projeto de revitalização do Centro de Niterói
A recuperação do Teatro Leopoldo Fróes é mais uma iniciativa incluída no conjunto de intervenções planejadas pela Prefeitura de Niterói para revitalizar a região central.
A estratégia busca recuperar imóveis históricos, ampliar as opções de lazer e cultura e estimular a circulação de moradores, visitantes e atividades econômicas no Centro.
Entre os equipamentos e projetos associados a esse processo estão o Mercado Municipal, a Arena Niterói, o Complexo de Atletismo Aida dos Santos, o Solar Notre Rêve e o Museu do Cinema.
A proposta da administração municipal é que o Leopoldo Fróes volte a funcionar como espaço permanente de apresentações, ensaios, experimentação e desenvolvimento de projetos culturais, com prioridade para a produção artística local.
A reabertura também poderá fortalecer a integração entre os equipamentos culturais existentes na Praça da República, contribuindo para a recuperação da importância histórica da região na vida social e artística de Niterói.
Embora a assinatura do decreto de desapropriação esteja prevista para esta semana, a prefeitura ainda não divulgou o cronograma das obras, os valores estimados para a restauração nem uma data para a reabertura.
A concretização do projeto dependerá das etapas administrativas da desapropriação e da execução das intervenções necessárias para recuperar o imóvel.
Depois de 35 anos de portas fechadas, a perspectiva de devolver o Leopoldo Fróes à população representa a possibilidade de resgatar um capítulo importante da história cultural de Niterói e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas gerações de artistas.







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