Niterói vai colocar a própria história em julgamento — e sob o olhar dos povos originários. Entre os dias 20 e 22 de março, a cidade recebe o ‘Encontro com Arariboia’, evento que reúne lideranças indígenas, artistas e pesquisadores de todo o Brasil. O destaque da programação é o “Veredito Ancestral”, um tribunal simbólico que propõe revisitar a colonização da Baía de Guanabara.
A abertura acontece na sexta-feira (20), às 17h, no Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Ingá. Em formato de tribunal, a encenação coloca em debate episódios do século XVI, como a batalha de Uruçumirim, envolvendo portugueses, franceses e diferentes povos indígenas.
O julgamento simbólico tem como figura central o cacique Arariboia, fundador de Niterói, cuja trajetória será analisada sob novas perspectivas. Conhecido por alianças com colonizadores, o líder indígena é apresentado como um personagem complexo, abrindo espaço para reflexão sobre as consequências da colonização.
Entre os integrantes do júri está o filósofo e escritor Ailton Krenak, uma das principais vozes do pensamento indígena contemporâneo no Brasil. Também participam nomes como Marcos Terena, Yakuy Tupinambá e Karkaju Pataxó. O roteiro é conduzido pela advogada indígena Fernanda Kaingáng.
Mais do que uma encenação, o “Veredito Ancestral” propõe questionar versões tradicionais da história e ampliar o debate sobre os impactos do colonialismo até os dias atuais.
Evento reúne lideranças, cultura e debates
Ao longo do fim de semana, o Encontro com Arariboia segue com uma programação gratuita e aberta ao público no Centro Eco Cultural Sueli Pontes, em Piratininga. Estão previstas rodas de conversa, apresentações culturais, feira indígena e atividades educativas.
Entre os destaques estão a participação de artistas como Daiara Tukano e Denilson Baniwa, além de apresentações do Coral Guarani de Maricá e do rapper indígena Wescritor.
O evento também reúne pesquisadores e lideranças como José Ribamar Bessa Freire, Martinha Guajajara, a cacica Jurema Nunes e a historiadora Carolina Potiguara. A curadoria é assinada por Daiara Tukano, Denilson Baniwa e a jornalista Renata Tupinambá.
No domingo (22), a programação inclui ainda uma edição especial do Pedal Cultural, com um passeio ciclístico pela cidade integrando cultura e território.
Releitura da história de Niterói
A proposta do encontro é revisitar a história da cidade a partir das perspectivas indígenas. Niterói é considerada a única cidade brasileira fundada oficialmente por um indígena, o cacique temiminó Arariboia, responsável pela criação da Vila de São Lourenço dos Índios, em 1573.
A secretária municipal das Culturas, Júlia Pacheco, destaca que o evento representa um reposicionamento da cidade em relação às suas origens. “Quando Niterói promove um encontro como esse, ela reafirma algo fundamental: nossa cidade tem origem indígena e precisa reconhecer, valorizar e dialogar com essa ancestralidade. O ‘Veredito Ancestral’ é um gesto potente de reinterpretação da nossa própria história”, diz.
Programação e inscrições
O Encontro com Arariboia é gratuito e aberto ao público. As inscrições podem ser feitas online, e a programação completa está disponível nas redes sociais oficiais do evento (@encontroarariboia).
A iniciativa conta com apoio da Prefeitura de Niterói, da Secretaria Municipal das Culturas, da UFF, do Museu de Arte Contemporânea (MAC) e de instituições culturais.
Além desta edição, os organizadores já planejam novas ações ao longo de 2026, incluindo uma exposição e um festival artístico voltados à valorização das culturas indígenas na cidade.





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