“Ela era uma filha muito esforçada, exemplar, trabalhadora. Tinha sua vida social, como toda jovem de 24 anos tem. Gostava muito de uma festa, era muito alegre, uma menina muito feliz“. A lembrança é de Leandro Tião de Souza, pai de Isabel Santos de Souza. Com o “era” marcado em cada frase, o familiar ainda reformula o luto da filha, morta durante um tiroteio entre policiais militares e criminosos armados em Quintino Bocaiúva, na Zona Norte do Rio.
A jovem aguardava uma moto por aplicativo no momento em que foi atingida por um tiro no pescoço, no último dia 17. Segundo informou o pai dela à Agenda do Poder, Isabel havia acabado de sair de uma loja de ração e aguardava no cruzamento das ruas Clarimundo de Melo e João Barbalho. Dali, ia reforçar a alimentação dos três cachorros que criava na casa do irmão e da cunhada, na comunidade da Caixa D’Água.
A Polícia Militar afirma que os tiros partiram de criminosos. Mas a família questiona as circunstâncias da ação e afirma que ainda não sabem exatamente de que lado o tiro partiu. Sem respostas ou não, a o núcleo composto por pai, mãe, e agora quatro irmãos, chora o vazio de uma jovem cheia de sonhos atingida pela violência armada do Rio de Janeiro.

Aumento no número de baleados no Grande Rio
A morte de Isabel acontece em um contexto de aumento (6%) no número de pessoas baleadas durante tiroteios no Grande Rio, de acordo com um relatório divulgado pelo Instituto Fogo Cruzado em abril deste ano.
No levantamento, as operações policiais estão no centro dos casos e mais da metade (53%) dos tiroteios registrados em março aconteceu durante ações das forças de segurança. Entre os casos registrados, ao menos oito pessoas foram atingidas por balas perdidas. Metade dessas vítimas acabou ferida durante operações policiais.
Na contramão do aumento de pessoas baleadas, o número de ocorrências de disparos caiu 13% na comparação com março do ano passado. Ainda conforme a pesquisa, foram 148 neste ano, contra 170 em 2025. À Agenda do Poder, especialistas em segurança pública e autoridades explicam por que a redução no número de ocorrências não simboliza maior segurança.
É o que enfatizou o coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Rio, Carlos Nhanga.
“Há alguns meses os dados do Instituto Fogo Cruzado têm apontado para uma queda no número de tiroteios mas um aumento no número de pessoas baleadas. Isso mostra como menos tiroteios não significa necessariamente pessoas mais seguras. Esses tiroteios, mesmo que acontecendo com menor frequência, em relação ao ano passado eles têm atingido mais pessoas, eles têm se tornado mais letais”.

Ainda segundo a pesquisa do Instituto Fogo Cruzado, na análise por municípios, a cidade do Rio de Janeiro concentrou 63% dos tiroteios da Região Metropolitana, com 93 registros. No ranking de violência armada, a ordem é a seguinte:
- Taquara, na Zona Sudoeste do Rio
- Fonseca, em Niterói, Região Metropolitana
- Cascadura, na Zona Norte do Rio
“Por exemplo, a Zona Norte e o Leste Metropolitano concentraram boa parte das vítimas baleadas, as ações devem olhar para essas regiões especificamente e entender como esses casos acontecem e operar de forma estratégica para não colocar essas pessoas na linha do tiro”, aponta Nhanga.
Na linha de tiro
Isabel morava no mesmo quintal que os pais, em uma quitinete ao lado da casa da família. Segundo o pai, era a mais velha entre as filhas, mantinha uma relação próxima com os irmãos e gostava de sair, de festas e de estar rodeada pelos amigo. Trabalhava em cozinha e começaria em um trabalho novo no dia seguinte àquele em que foi atingida. A família estava na igreja, em Nova Iguaçu, quando souberam da notícia.
“Eu tinha acabado de participar da Escola Dominical e a gente sempre passa o domingo lá. Estava ajudando o pastor na obra da igreja quando, de repente, meu filho mais velho mandou mensagem dizendo que ela tinha sido atingida por um disparo. Entramos no carro e fomos direto para o Salgado Filho. Quando cheguei na porta do hospital, um dos meus filhos veio chorando e falou que ela tinha morrido”, lembrou o pai.

Desde a morte da filha, a rotina da família passou a ser reorganizada em meio ao luto e à espera por respostas. Leandro, que recebeu alguns dias de afastamento do trabalho, conta que voltar à rotina tem sido uma saída melhor para ocupar a mente diante da ausência repentina da filha.
“A pessoa pode ser a pior do mundo, que quando morre se torna uma pessoa maravilhosa. Mas esse não é o caso da nossa filha Isabel. Ela era meia ‘doida’, como a gente sempre diz, explosiva, mas muito lutadora. Brigava pela família, era uma jovem maravilhosa. Ela deixa um buraco enorme na gente.”
Leandro Tião, pai de Isabel dos Santos
E recordou em meio ao luto: “Todo dia quando eu chegava ela me dava a bênção, me chamava de ‘painho’. É uma tristeza muito grande. É só saudade mesmo”.
Segundo a Polícia Militar, na ocasião, agentes do 9º BPM (Rocha Miranda) foram atacados durante um patrulhamento pelo bairro. Homens armados em 3 motocicletas, de acordo com a PM, fizeram disparos contra os PMs. Leandro também ouviu de testemunhas que os criminosos teriam gritado “É para matar polícia”, no momento em que aconteceram os disparos.
No entanto, a família diz que há inverdades no processo. “Um dos meus filhos pegou uma gravação em que havia duas motos e três indivíduos, uma pessoa em uma moto sozinha e duas em outra moto”.
Após o caso, o comando do 9⁰ BPM instaurou um procedimento para apurar as circunstâncias da ação. A também Corregedoria Geral da Corporação acompanha o caso. Paralelamente, a Delegacia de Homicídios instaurou uma investigação. Segundo a Polícia Civil à Agenda do Poder, diligências estão em andamento para esclarecer as circunstâncias do crime.
“Eu quero uma resposta do Estado. Quero saber o que o Estado tem para me dizer, porque quem está com a perda sou eu, a família. O buraco, o rombo que eles deixaram na gente é imenso. Não vai trazer ela de volta, mas pelo menos uma solução, saber de onde saiu o tiro”.
A dinâmica da violência
Há quilômetros de Quintino, onde Isabel foi morta, outras regiões da Zona Norte do Rio também convivem diariamente com os efeitos da violência armada. Em comum entre elas, aparecem disputas territoriais, operações policiais frequentes, guerras entre milícias e facções que produzem mudanças na rotina de quem circula por esses espaços.
A presença constante, da violência, provoca um movimento no fluxo urbano: o de se adaptar aos perigos de cada local habitado.

Professor do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), o antropólogo Lenin Pires afirma que a Região Metropolitana acompanha dinâmicas históricas de ocupação territorial por grupos criminosos e também as estratégias adotadas pelas forças de segurança pública. O mesmo acontece em áreas da Zona Norte, Zona Oeste do Rio e em regiões que se assemelham ao bairro do Fonseca, em Niterói.
Nesses locais, o cenário concentra-se em rotas consideradas estratégicas para circulação de drogas, armas e atuação de facções.
“O que acontece no Fonseca se assemelha a outras áreas da Região Metropolitana por permitir acessos variados. Você tem Ponte Rio-Niterói, acesso para São Gonçalo, Maricá. São áreas estratégicas onde pode ser maior a mobilidade de grupos criminosos e onde também as polícias vão concentrar suas ações.”

No Fonseca, a percepção dos moradores sobre o bairro mudou nos últimos meses, desde que eclodiu novamente uma guerra por disputas de território entre traficantes do Comando Vermelho (CV) e do Terceiro Comando Puro (TCP). Moradora da região, Daniele Ferreira, de 46 anos, afirma que o bairro era associado à tranquilidade, mas os episódios recentes alteraram esse status.
“O bairro foi sempre muito bom, muito tranquilo. Mas, por volta de uns cinco meses para cá, por conta dessa guerra de facções, a gente tem ouvido falar que têm ocorrido assaltos aqui pela redondeza. Fora também a questão da internet, que o fornecimento também foi interrompido desde então”, afirma.
Ainda segundo a dentista, relatos sobre roubos passaram a circular com mais frequência entre comerciantes e moradores da região. “Sempre foi um bairro muito bom para se morar, mas atualmente, por conta disso, a gente está se sentindo um pouco largado pelo poder público. Vira e mexe alguém tem alguém falando: ‘Roubaram no comércio tal’, ‘roubaram meu carro na rua tal”‘.
O cenário de tensão aparente e até o apelido “Fonsequistão”, repetido informalmente por moradores nas redes sociais, também frustrou as expectativas da pedagoga Vanessa Romão, que pretende deixar São Gonçalo para morar no Fonseca, em Niterói.
“Eu não me sinto muito segura. Ainda não aconteceu nada comigo andando por aqui, mas isso preocupa e deixa a gente insegura enquanto cidadã, porque vemos pouco efeito em relação à melhoria da segurança pública.”

Medo de polícia, medo de assalto
A sensação de segurança no Rio de Janeiro dialoga diretamente com o tipo de território e o grupo social atravessado pela violência. Por exemplo, moradores de áreas periféricas costumam associar o medo às operações policiais e aos confrontos armados. Já em outras regiões da cidade, o receio aparece mais ligado aos assaltos e roubos cotidianos, analisa Lenin Pires:
“Os moradores de favela sem sombra de dúvida tendem a se sentir mais inseguros nas situações de operação policial. Onde tem operações policiais é onde eles vão se sentir mais inseguros. Já em outros contextos da cidade, o número de roubo de carro ou roubo de celular, essas coisas tendem a aumentar a sensação de insegurança”.
Por consequência, isso se alinha ao panorama da segurança na cidade, distribuído de maneira desigual, completa Lenin:
“Isso tem muito a ver com a desigualdade existente no estado como um todo, onde territórios de pobreza são aqueles que são visualizados pelas polícias como lugar da sua atuação. Já outras áreas são vistas como lugar de proteção pela polícia e onde pode haver a oportunidade para alguns sujeitos que atuam no mundo do crime alcançarem os seus interesses”, aponta.
Ladrões sem facções e o mundo do crime
A lógica do crime organizado também não acontece de maneira uniforme. Parte dos roubos cotidianos não necessariamente envolve criminosos diretamente ligados às facções, embora exista, muitas vezes, algum tipo de relação indireta com esses grupos. São chamados assim os ladrões não faccionados, aqueles que não preservam vínculo com algum grupo.
“Nem todo ladrão é faccionado. Alguns são, outros nem tanto, mas há sempre uma relação. Muitas vezes essas pessoas roubam em áreas mais distantes e voltam para regiões dominadas por grupos armados, onde a polícia não entra com facilidade.”
Ainda assim, pela ‘proteção’ que recebem dos grupos armados, os ladrões que atuam sozinhos ou em pequenos grupos podem até pagar uma espécie de pedágio para permanecer nesses locais.
“Pelo que a gente tem percebido ultimamente, muitas vezes esses atores precisam pagar um pedágio. Mesmo que eles roubem em outra área, eles estão ali naquela região onde vivem, estão protegidos, digamos assim, por esse grupo armado. A polícia não entra com facilidade, o que acaba virando uma segurança também para esses ladrões menores e isso tem de certa forma algum pagamento. São dinâmicas próprias do mundo do crime”, diz o pesquisador.
Rotas de disputa
A expansão das disputas territoriais para regiões da Baixada Fluminense e Zona Oeste também aparece no radar dos especialistas. Segundo Lenin, na Baixada, mais especificamente em Nova Iguaçu, “onde sempre existiram grupos de extermínios”, a criação do Arco Metropolitano apareceu como uma mudança urbana de destaque para a logística criminal nos últimos anos.

“Há uma mudança interessante na Baixada que diz respeito à infraestrutura modal, com a criação do Arco Metropolitano. Isso de certa forma apresenta para essas dinâmicas criminais na Baixada um conjunto de novas oportunidades, digamos assim, que faz com que aquela região entre em disputa não só por ser um lugar onde pode ser distribuída droga, mas também por onde pode suportar outras estratégias na distribuição de drogas e armas para variadas localidades”, analisa.
Em outras palavras: “Quer dizer, não é só o acesso àquele grupo consumidor que está ali. Você tem ali um conjunto de possibilidades de fazer fluir essas mercadorias ilícitas e de certa forma controlar isso”.
O mesmo acontece na Zona Oeste do Rio, observa o professor, onde há o fortalecimento de rotas ligadas ao Porto de Sepetiba. Segundo ele, o mar continua sendo a principal via para o tráfico de drogas e armas.
“Com a mudança do Porto do Rio de Janeiro para a região de Sepetiba, você tem de controlar aquelas vias de acesso ao porto porque isso pode gerar dividendos maiores para os grupos criminosos. Ainda que o Porto do Rio continue aqui, ele não tem mais aquela pujança do passado. E a gente sabe que o tráfico de drogas e de armas, por via marítima, ainda continua sendo a principal via.”
A inteligência na disputa de territórios
Para os especialistas e autoridades, a principal medida capaz de conter o número de pessoas baleadas durante ocorrências de tiroteios em operações, assaltos e confrontos entre grupos rivais, são ações baseadas em inteligência.
“A segurança de fato deve gerar e proteger vidas e não colocar pessoas na linha do tiro. Temos muitos desafios para combater o aumento da violência armada e o aumento da vitimização por ela, mas certamente, levar em consideração a produção da política pública a partir de dados e evidências é o primeiro deles”, recupera Carlos Nhanga, coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Rio de Janeiro.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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