Mulheres em vulnerabilidade social precisam trabalhar até quatro anos só para comprar absorventes

Dados do Banco Mundial indicam que as mulheres brasileiras da camada mais pobre da população precisam trabalhar por quatro anos para custear absorventes. E uma em cada quatro adolescentes não têm acesso a um absorvente quando menstruam. As informações foram divulgadas pela vice-diretora de Ensino e Informação da Fiocruz, Ingrid D’Avilla, nesta terça-feira (19/09), durante…

Dados do Banco Mundial indicam que as mulheres brasileiras da camada mais pobre da população precisam trabalhar por quatro anos para custear absorventes. E uma em cada quatro adolescentes não têm acesso a um absorvente quando menstruam. As informações foram divulgadas pela vice-diretora de Ensino e Informação da Fiocruz, Ingrid D’Avilla, nesta terça-feira (19/09), durante audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).  

Os dados também constam no Relatório Pobreza Menstrual no Brasil: Desigualdade e Violações de Direitos, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

“As mulheres, que estão entre as 5% mais pobres, precisam trabalhar todo esse tempo apenas para custear os absorventes que utilizarão durante toda a vida. Este fato é uma causa importante para a perpetuação do ciclo da pobreza”, explicou a diretora da Fiocruz.

A reunião serviu para debater uma indicação legislativa de autoria da deputada Renata Sousa (PSol), presidente do colegiado, que propõe a criação do Programa Estadual de Dignidade Menstrual no Estado. Embora se verifique avanços nas legislações no combate à pobreza menstrual, a falta de absorventes ainda é a realidade entre as mulheres.

No estado, vigoram as Leis 9.404/2021 e 9616/2022, que dispõem, respectivamente, sobre a distribuição de absorventes em escolas públicas e a mulheres que menstruam e vivem em situação de rua, mas não foram fornecidos dados de comprovação do cumprimento das leis pelas autoridades presentes na audiência.

Em junho deste ano, o presidente Lula assinou portaria interministerial para a implementação do Programa de Proteção e Promoção da Saúde e Dignidade Menstrual.

No entanto, entre as 1,7 mil crianças e adolescentes ouvidas na pesquisa da UNFPA/Unicef, 62% afirmaram já ter deixado de ir à escola por falta de estrutura e insumos, como papel higiênico ou a outros lugares por causa de dificuldades com o período menstrual.

Segundo o relatório, meninas negras têm o triplo de chance de enfrentar a pobreza menstrual em relação a meninas brancas. Por isso, foi considerada durante a audiência a necessidade de políticas públicas para acolher especificidades, além das questões de classe social e de raça/ etnia, da vivência da menstruação em homens trans ou em pessoas com deficiências.

 “O estudo apontou que a pobreza menstrual no Brasil é fruto da desigualdade e violação de direitos. Essa pesquisa traz a expressão do racismo estrutural da sociedade brasileira, apontando que, no Brasil, uma menina negra tem o triplo de chance de estar vivendo em situação de pobreza menstrual”, lamentou Renata Souza.

A superintendente da Secretaria de Estado da Mulher, Aline Inglez, defendeu que haja uma articulação entre os três poderes para garantir a dignidade menstrual.

“É dever do poder público garantir o direito à dignidade menstrual. O tema vem sendo discutido em âmbito federal, através do decreto que criou o Programa de Proteção e Promoção da Dignidade Menstrual”, comentou.

A deputada solicitará à Comissão do Cumpra-se para que fiscalize o cumprimento das leis já existentes que tratam do tema e reforçará junto ao Governo do Estado para que atenda à Indicação Legislativa que propõe a criação do Programa Estadual de Dignidade Menstrual.

Ela afirmou que encaminhará ofícios às Secretarias Municipais de Educação do Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo a fim de obter informações sobre a distribuição de absorventes em escolas públicas nessas cidades.

Participaram da audiência a terapeuta e educadora menstrual Edineide Pereira; a assistente social e integrante da Coordenadoria de Gestão de Ensino da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc), Bruna Gomes; a representante da ONG Elas Existem, Lucilene Gomes; e integrante da ONG Absorvendo Amor, Milla Salluh; e os coletivos Crioula; Mulheres de Axé do Brasil; e Coalizão pela Dignidade Menstrual.

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