Morre Russell Malone, um dos grandes guitarristas do jazz, aos 60 anos

Músico integrou o trio de Ron Carter e a banda de Diana Krall

Russell Malone era um guitarrista de jazz com vasto conhecimento sobre músicos e canções. Seu estilo preciso mas relaxado lhe rendeu trabalhos com Harry Connick Jr., Diana Krall e muitos outros, além de um público dedicado em sua carreira solo. O músico morreu na sexta-feira (23) em Tóquio, aos 60 anos, após um ataque cardíaco. A notícia foi dada pelo contrabaixista Ron Carter, em cujo trio Malone tocou durante anos.

Malone estava em Tóquio com Carter e o pianista Donald Vega. O trio estava em turnê pelo Japão e tinha acabado de se apresentar no Blue Note local quando o músico passou mal. Carter afirmou que a turnê seguirá com ele e Vega tocando em duo, com a cadeira de Malone vazia no palco em respeito ao músico.

Malone era altamente respeitado por sua versatilidade: era capaz de acompanhar uma variedade de cantores e instrumentistas em diversos estilos, mas também tinha seu próprio som bem definido como líder de banda e solista.

Era aberto sobre suas influências — entre elas B.B. King, Wes Montgomery e Pat Martino — e nunca se envergonhou de apontar o quanto aprendeu com eles e quanto do som deles estava presente em sua própria música.

“Quando ouço um músico tocar, se não ouço uma pitada de influências, fico desconfiado,” disse ele em uma entrevista de 2023 para a revista online Jazz Guitar Today.

Malone conseguiu carregar o peso dessas influências sem soar derivativo. Era conhecido por um estilo distinto, preciso e econômico, mas ao mesmo tempo quente e envolvente.

“Ele era um músico absolutamente natural,” disse o pianista Bill Charlap, que trabalhou de perto com Malone nos anos, em uma entrevista. “Tinha um tempo e um ritmo perfeitos, e você ouvia toda a história da guitarra jazz na forma como ele tocava.”

Sonny Rollins e B.B. King

Malone apareceu na cena do jazz no final dos anos 1980 com o organista Jimmy Smith. Ele se juntou a Connick em 1990 e tocou com ele em turnês e em álbuns importantes como “We Are in Love” (1990) e “Blue Light Red Light” (1991). Tocou ainda com a cantora e pianista Diana Krall de 1995 a 1999.

Malone gravou dez álbuns como líder, começando com “Russell Malone” em 1992, enquanto continuava a trabalhar com uma longa lista de artistas notáveis, incluindo B.B. King, Branford Marsalis, Christian McBride, David Sanborn e Sonny Rollins — todos os quais disseram valorizar sua capacidade de se encaixar e elevar o som deles.

“Ele tinha um ótimo swing,” disse o baterista Lewis Nash, que frequentemente tocava com Malone, “mas também era como um camaleão, no sentido de que podia tocar em tantos cenários.”

Russell Lamar Malone nasceu em 8 de novembro de 1963, em Albany, Georgia. Seu pai, Robert Barnes, morreu na Guerra do Vietnã quando Russell tinha 2 anos. Sua mãe, C. Veronica Malone, que trabalhava em um armazém, casou-se mais tarde com Jimmy Jones, com quem criou Russell.

Ele começou a tocar aos 4 anos, depois que sua mãe lhe deu uma guitarra plástica verde de quatro cordas. Malone se inclinou para o blues e o gospel, chegando a tocar na banda da igreja batista. Apaixonou-se pelo jazz aos 12 anos depois de ver George Benson tocar com Benny Goodman na televisão.

Autodidata, ele aprendeu a tocar ouvindo discos de Benson, Montgomery e de outros grandes guitarristas e praticando o que ouvia repetidamente.

Quando se formou no ensino médio, já tocava profissionalmente em Atlanta, tanto sozinho quanto em grupos. Seu repertório nesse momento ia além do jazz, incluindo country (Chet Atkins), rock ’n’ roll (Elvis Presley) e até punk (Ramones).

Encontro com Jimmy Smith

Depois de terminar um show em um Holiday Inn numa noite de 1987, ele foi ver Jimmy Smith tocar em um clube. Quando Smith viu o jovem músico na plateia, ainda vestido com um smoking e sentado ansiosamente ao lado de sua guitarra, o convidou para subir ao palco.

Malone começou de forma arrogante, como ele lembrou mais tarde, mas não conseguiu acompanhar o renomado organista. Depois que desceu do palco, vermelho de vergonha, Smith se voltou para a plateia.

“Sempre que deixamos os jovens tocarem conosco, sempre gostamos de garantir que eles aprendam algo,” disse Smith. “Você aprendeu algo, júnior?”

“Eu disse, ‘Sim, senhor,’” lembrou Malone.

Como consolo, Smith convidou Malone para seu quarto de hotel, onde conversaram e tocaram até às 6 da manhã. Um ano depois, Smith o convidou para se juntar à sua banda.

Malone ingressou no corpo docente de jazz da William Paterson University em Wayne, New Jersey, como professor adjunto em 2021, quando o guitarrista Gene Bertoncini se aposentou. Embora nunca tivesse ensinado antes, ele se mostrou um natural na sala de aula.

“Nos dias em que ele ensinava, transformava todo o prédio com sua energia,” disse David Demsey, coordenador dos estudos de jazz na William Paterson, em uma entrevista. “Tratava todos da mesma forma.”

Malone trouxe o mesmo tipo de humildade para sua música.

“Não estou preocupado em corresponder à ideia de alguém sobre o guitarrista de jazz perfeito,” disse ele ao The St. Louis Post Dispatch em 2001. “Ou com o que é considerado de ponta. Mas estou comprometido em ser o melhor músico que posso ser.”

Malone deixa a mulher, Mariko, os filhos Darius e Marla, a mãe e quatro irmãos: Tony Barnes, Ricardo Jones, Stanley Jones e Tametrice Jones.

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