Morre no Rio o poeta, ensaísta, tradutor e editor Alexei Bueno, aos 63 anos

Autor dedicou mais de quatro décadas à poesia, à tradução e à preservação dos grandes clássicos da literatura brasileira

O poeta, ensaísta, tradutor e editor Alexei Bueno morreu na madrugada deste sábado (27), aos 63 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pelo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, e pela Editora Lume. O escritor tratava um câncer.

Reconhecido como uma das principais referências da literatura brasileira contemporânea, Alexei Bueno construiu uma trajetória marcada pela produção poética, pela crítica literária, pelo trabalho editorial e por traduções de grandes autores da literatura universal. Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, dedicou-se à preservação e divulgação de obras fundamentais da tradição literária brasileira e estrangeira.

Sua morte representa a perda de um intelectual que transitou com destaque entre a criação artística, a pesquisa histórica e o trabalho de formação de leitores.

Trajetória dedicada aos clássicos

Além de sua produção autoral, Alexei Bueno teve papel decisivo na recuperação editorial de importantes escritores brasileiros.

Na década de 1990, organizou para a editora Nova Aguilar edições de autores fundamentais da literatura nacional, entre eles Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Álvares de Azevedo e Olavo Bilac. O trabalho contribuiu para colocar novamente em circulação obras consideradas essenciais da poesia brasileira.

Entre 1999 e 2002, também ocupou a direção do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (Inepac), período em que atuou na preservação do patrimônio histórico e cultural fluminense.

Sua atuação editorial se estendeu ainda à publicação, em 1998, da primeira edição brasileira anotada de “História Trágico-Marítima”, coletânea organizada originalmente por Bernardo Gomes de Brito no século XVIII e considerada uma das principais fontes sobre os naufrágios da expansão marítima portuguesa.

Também organizou a edição de “Jerusalém Libertada”, do poeta italiano Torquato Tasso, e, nos anos 2000, coordenou, a convite da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), uma ampla antologia dedicada à poesia romântica brasileira.

Referência como tradutor

Alexei Bueno consolidou-se igualmente como um dos mais respeitados tradutores de poesia do país.

Ao longo da carreira, verteu para o português obras de autores como Edgar Allan Poe, Henry Wadsworth Longfellow, Stéphane Mallarmé, Giacomo Leopardi e William Shakespeare, enfrentando desafios formais característicos da tradução poética.

Entre seus trabalhos mais conhecidos está a tradução de “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, considerada uma das mais complexas da literatura mundial em razão da estrutura rítmica e sonora do poema. A versão integra a coletânea “Cinco Séculos de Poesia”, publicada em 2013, que reúne décadas de seu trabalho como tradutor.

Obras marcaram o debate literário

Como ensaísta, Alexei Bueno também deixou contribuições importantes para os estudos da literatura brasileira.

Em 2012 lançou “Machado, Euclides & Outros Monstros”, livro que reúne ensaios dedicados a grandes nomes das letras nacionais, entre eles Machado de Assis, Euclides da Cunha, Álvares de Azevedo e Carlos Drummond de Andrade.

Já em 2022 publicou aquela que se tornou uma de suas obras mais relevantes: “A Escravidão na Poesia Brasileira: Do século 17 ao 21”.

O estudo reuniu cerca de 220 poemas escritos por 80 autores ao longo de aproximadamente 350 anos, preenchendo uma lacuna na historiografia literária ao mapear como a escravidão foi retratada na poesia brasileira desde o período colonial até os dias atuais.

Em 2017, sua trajetória poética foi sintetizada na antologia “Desaparições”, publicada com prefácio do crítico português Arnaldo Saraiva, que definiu Alexei Bueno como “talvez a mais poderosa voz da poesia brasileira revelada nas últimas décadas”.

Reflexões sobre a crítica literária

Além da produção intelectual, Alexei Bueno costumava refletir sobre o papel da crítica literária no Brasil.

Em entrevista concedida à Folha, em 2003, o escritor analisou as transformações da crítica especializada e demonstrou preocupação com o distanciamento entre os estudiosos e o público leitor.

“A crítica decaiu quando deixou de ser uma crítica de imprensa para se tornar puramente universitária, com uma linguagem fechada. A função social se perde completamente, dando espaço a modismos, pinçando autores a partir de teorias prévias, quando na verdade a crítica deveria surgir a partir da existência literária.”

A declaração tornou-se uma das manifestações mais conhecidas do autor sobre o cenário intelectual brasileiro e sintetiza sua defesa de uma crítica literária acessível, voltada ao diálogo com a sociedade.

Legado para a literatura brasileira

Ao longo da carreira, Alexei Bueno construiu uma obra que atravessa diferentes campos da cultura, reunindo poesia, tradução, ensaio, pesquisa histórica e edição de clássicos.

Seu trabalho ajudou a preservar parte significativa da tradição literária brasileira, ao mesmo tempo em que aproximou o público nacional de importantes autores da literatura universal.

A combinação entre rigor acadêmico e sensibilidade artística fez dele uma das figuras mais respeitadas da literatura brasileira contemporânea, deixando um legado que permanecerá como referência para leitores, pesquisadores, escritores e tradutores das próximas gerações.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading