Morre Divaldo Franco, médium que marcou o espiritismo no Brasil, sucessor de Chico Xavier

Líder religioso baiano morreu aos 98 anos após décadas de trabalho filantrópico; figura central do espiritismo moderno

Morreu nesta terça-feira (13), aos 98 anos, o médium Divaldo Franco, um dos maiores expoentes do espiritismo no Brasil e referência internacional na divulgação da doutrina. A informação foi divulgada pela Folha de S.Paulo. Fundador da Mansão do Caminho, em Salvador, Divaldo foi apontado como o sucessor espiritual de Chico Xavier (1910–2002) e liderou por mais de sete décadas projetos filantrópicos voltados à população em situação de vulnerabilidade social.

A causa da morte não foi divulgada oficialmente, mas o médium enfrentava problemas de saúde nos últimos anos, incluindo um câncer na bexiga diagnosticado em novembro de 2024.

Nascido em Feira de Santana, a 109 km de Salvador, em maio de 1927, Divaldo Pereira Franco foi o caçula de doze irmãos. Formou-se professor primário em 1943, mas jamais exerceu a profissão. Mudou-se para a capital baiana em 1945 e ingressou como servidor no Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado, onde trabalhou até a aposentadoria, em 1980.

Criado em família católica, relatou em diversas ocasiões que desde a infância via e ouvia espíritos. Na juventude, passou a desenvolver a psicografia — habilidade de transcrever mensagens atribuídas a espíritos — e mergulhou no espiritismo. Em 1947, fundou ao lado do amigo Nilson de Souza Pereira o Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador. Cinco anos depois, inaugurou a Mansão do Caminho, destinada a acolher crianças e adolescentes em situação de risco.

A Mansão se transformou em uma das maiores obras sociais ligadas ao espiritismo no Brasil, funcionando como orfanato, escola, creche, centro de saúde e espaço de assistência social. Hoje ocupa uma área de 78 mil m² no bairro do Pau da Lima, periferia de Salvador, e atende diariamente cerca de 2.000 crianças e jovens, além de oferecer apoio a idosos, gestantes e pessoas com doenças graves.

Divaldo Franco também construiu uma trajetória de destaque internacional. Realizou mais de 12 mil conferências em cerca de 2.000 cidades brasileiras e visitou mais de 60 países. Escreveu mais de 200 livros, todos atribuídos à psicografia, sobretudo sob a orientação de sua guia espiritual Joanna de Ângelis — que, segundo ele, teria encarnado figuras históricas como Santa Clara de Assis, Joana de Cusa e a abadessa baiana Joanna Angélica.

Seu primeiro livro, Messe de Amor, foi lançado em 1964. Parte importante de sua obra inclui a Série Psicológica, composta por 16 volumes que dialogam com correntes da psicologia. Os livros venderam mais de sete milhões de exemplares e foram traduzidos para diversos idiomas.

Apesar da trajetória espiritual, Divaldo também se posicionou politicamente. Nos últimos anos, fez declarações de tom conservador, defendendo a operação Lava Jato e apoiando Jair Bolsonaro nas eleições. Em 2023, gerou polêmica ao criticar a prisão de manifestantes envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. “Estamos vendo aí leis absurdas, prisões estúpidas sem julgamento”, disse à época, em vídeo que circulou nas redes sociais. As falas provocaram reações de lideranças espíritas de perfil progressista.

Sua vida foi retratada no filme Divaldo – O Mensageiro da Paz, lançado em 2019. Na ocasião, Divaldo contou à Folha que pediu para retirar falas que exaltavam o espiritismo, defendendo que o foco fosse a dignidade humana: “Para mim é muito mais importante ser um cidadão ateu do que um cristão sem dignidade”, afirmou.

Ao longo da vida, adotou como filhos cerca de 600 crianças e transformou seu legado em uma combinação única de espiritualidade, ação social e dedicação humanitária. A morte de Divaldo Franco encerra um capítulo marcante da história do espiritismo brasileiro.

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